O retorno ao lar

Hendrick estava inquieto. Durante todos aqueles anos, raramente a matilha arriscava entrar em cidades humanas. No máximo, alguns suprimentos eram adquiridos de tempos em tempos, sempre com discrição, evitando contato prolongado. Agora, porém, dois dos seus estavam em Los Angeles, uma metrópole cheia de perigos e distrações, atrás de uma mulher que ninguém conhecia. O alfa não conseguia evitar o peso do medo.

Uriel, o mais velho entre eles, sabia o que era perder. Assim como Kallias, tinha uma família antes da tragédia que ceifou suas esposas e quase toda a alcatéia. A dor os moldara: Uriel tornara-se um homem ranzinza, amargo em sua solidão, enquanto Kallias carregava o silêncio da saudade como um manto pesado. Eles haviam visto irmãos, amigos e companheiras tombarem, reduzindo aquela povo outrora vibrante.

Hendrick, por sua vez, fora forçado a assumir o comando cedo demais. Era recém-casado com Gillian quando seu pai, o alfa anterior, caiu junto aos outros lobos na guerra. Ele ainda se lembrava do brilho das fogueiras na noite em que a vida de centenas de irmãos se apagou. Naquele tempo, a matilha tinha mais de trezentos lobos. Crianças corriam entre cabanas, as mulheres riam juntas, e a força deles parecia inabalável. Agora, sobreviviam apenas onze. Onze homens marcados pela tragédia.

O território que haviam reconstruído era vasto, um refúgio no meio da floresta. Casas alinhadas, cuidadas com zelo, jardins floridos cercavam as moradias, mantidos pelos lobos sobreviventes em memória do passado, resistindo ao desejo de se entregarem a sua natureza selvagem e viverem como animais.

Um riacho cristalino cortava a clareira, e uma pequena ponte de pedra unia as duas margens. Mais adiante, a cachoeira derramava-se em um lago sereno, cuja água refletia a lua com perfeição nas noites claras.

No centro, havia um espaço aberto: bancos rústicos em volta de uma fogueira, onde se reuniam ao cair da noite.

E perto dali, um quiosque de madeira servia como templo, local de preces à Dama da Lua. Era, em tudo, uma vila secreta que respirava vida.

A esperança de reconstruir parecia frágil, quase cruel. Eles podiam viver longos anos, mas sem companheiras, a linhagem estava condenada ao fim. Hendrick sabia disso melhor do que ninguém: sem uma nova conexão de almas, um lobo não sobreviveria ao tempo.

A missão de Mason e Yohan, então, era mais do que um resgate. Era a promessa de continuidade. Só que os dias passavam, e nenhum sinal chegava deles. A distância era grande demais para que pudessem estabelecer um link mental, e, com dois meses de silêncio, a angústia já corroía a todos.

Apesar do silêncio, o peso da espera corroía. Hendrick se mantinha firme, mas não enganava ninguém. Em uma das noites, sentado ao lado da fogueira, Uriel resmungou:

— Estão demorando demais. Talvez algo tenha acontecido.

— Eles não cairiam fácil — respondeu Hendrick, a voz firme, mesmo que a angústia o corroesse por dentro.

Kallias, de braços cruzados, fitava as chamas sem falar. Seus olhos cinzentos refletiam memórias que não compartilhava com ninguém.

Ainda assim, Hendrick não permitiu que a desesperança os engolisse. Como gesto de fé, enviou os irmãos White à cidade vizinha, onde costumavam comprar suprimentos, com uma nova tarefa: preparar o enxoval da futura companheira. Roupas, itens de higiene, lençóis macios… até pequenos mimos que pudessem acolhê-la.

Era uma tentativa quase ingênua de acreditar. Mas foi o suficiente para reacender a chama de expectativa naqueles corações marcados.

Quando o cheiro de Mason e Yohan finalmente cruzou os limites do território, o ar pareceu vibrar. Hendrick ergueu-se de imediato, os lobos que estavam espalhados pelo vilarejo surgindo das casas e dos arredores, todos atentos. A tensão se dissolveu em um arrepio coletivo. Eles estavam de volta. Dois meses haviam se passado. Dois meses de espera sufocante. E agora eles estavam de volta.

Enquanto Hendrick observava a clareira, imaginava como seria. Como aquela mulher reagiria ao território, aos homens sobreviventes, à história que carregavam. A dor, a perda, o isolamento. Tudo isso moldara a alcatéia, mas agora um novo futuro poderia começar.

[...]

O trajeto de Cassie com os irmãos Kent ocorria com uma fluidez surpreendente. Entrando ainda como humanos na floresta, Mason e Yohan mantinham Cassie entre eles, a protegendo de qualquer olhar ou perigo da cidade enquanto caminhavam. Ela estava exausta, a adrenalina do sequestro e da corrida pelas ruas de Los Angeles drenando suas forças.

— Quanto tempo ainda? — Cassie perguntou, a voz fraca, sem entender totalmente para onde estava sendo levada.

— Não muito — respondeu Yohan, atento a cada sombra, cada ruído. — Apenas mantenha-se calma.

A floresta parecia mágica naquele momento. O ar era fresco, perfumado, os sons noturnos criando um ritmo quase hipnótico. Cassie sentiu-se curiosamente protegida, embora o medo permanecesse. Cada passo entre os troncos e folhas aumentava a tensão, mas também havia algo de fascinante na serenidade selvagem ao redor.

Quando o cansaço finalmente venceu, Cassie adormeceu, apoiada contra os corpos firmes e quentes dos irmãos Kent. Ela não percebeu quando uma energia silenciosa e quase imperceptível começou a envolvê-la. Uma proteção sutil, uma presença que ela não podia nomear, algo que apenas a Dama da Lua poderia proporcionar. Seus pensamentos se dispersaram, e o sono a levou, profundo e exaustivo.

Mason e Yohan finalmente se transformaram. A magia silenciosa da floresta, aliada à proteção da Dama da Lua, permitiu que a transição fosse segura. Cassie continuava adormecida, inconsciente da mudança à sua volta, mas envolta pelo calor dos corpos transformados que agora a carregavam com cuidado.

Mason assumiu a liderança na movimentação, seu corpo agora lupino de pelagem amarela mesclada, musculatura poderosa e passos precisos percorrendo o terreno como se fosse a própria sombra da floresta. Yohan, menor, marrom como a terra, acompanhava ao lado, atento a qualquer sinal de perigo. Cada passo os aproximava do território da alcatéia, cada respiração calculada para manter a jovem segura, mas também preparada para o que estava por vir.

O caminho foi longo. Correndo entre árvores e trilhas, atravessando riachos e campos, Mason e Yohan mantiveram Cassie nos lombos, seu corpo adormecido, enquanto o cansaço físico se acumulava.

A noite passou silenciosa, e parte da manhã também, até que finalmente, os aromas familiares da alcatéia invadiram o ar.

Cassie respirou suavemente, ainda inconsciente, enquanto os lobos avançavam para o centro do território.

Finalmente pararam, no coração da clareira, o calor do sol da manhã iluminava a cena, o território da matilha se revelou. Casas alinhadas, jardins cuidados, o som da cachoeira ao fundo. E no coração da clareira, os lobos esperavam.

Os dois voltaram a forma humana e Cassie acordou lentamente nos braços de Mason, os olhos arregalados e confusos, tentando entender onde estava. À sua frente, homens altos e desconhecidos, robustos e de presença intensa, a observavam. O choque tomou conta de seu corpo, o medo misturando-se com a exaustão.

— Onde… onde estou? — murmurou, a voz fraca e trêmula.

Ao redor, homens altos e fortes a observavam em silêncio. Hendrick deu um passo à frente, impondo presença.

— Você está em casa — disse ele, a voz grave ecoando na clareira.

O impacto da frase foi instantâneo. Cassie engoliu em seco, o coração disparando, olhos arregalados, sentindo que tudo o que conhecia até aquele momento deixava de existir.

O medo, a surpresa, e a estranheza do mundo à sua volta convergiam em uma única certeza: ela agora estava completamente à mercê daqueles homens, desconhecidos e poderosos.

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