Elena Fontes
O ar da noite paulistana nunca pareceu tão denso, tão impregnado pelo cheiro de chuva iminente e fumaça de escapamento. O aperto de Ricardo no meu braço não era mais o de um marido possessivo que desfila com o seu troféu; era o aperto desesperado de um animal ferido que usa a sua única presa como escudo humano. Ele não me guiava, ele me arrastava pelos corredores de serviço do Palácio dos Bandeirantes, longe dos flashes e do champanhe, fugindo como se o nome "Alice", sussurrado por Dante Moretti, fosse um ácido que estivesse a corroer as suas entranhas de dentro para fora.
— Você não vai a lugar nenhum, Elena! Entendeu? — a voz dele saiu como um rosnado animal, os olhos injetados de sangue, as veias do pescoço saltadas de uma forma que eu nunca vira. — Os Moretti acham que ganharam? Eles acham que podem desenterrar o que eu enterrei? Eu vou queimar este mundo inteiro antes de deixar que eles fiquem com o que é meu! Você é minha, Elena! Eu paguei por você. Até ao inferno