Mundo ficciónIniciar sesiónENOLA HARRINGTON
Mais uma vez, sou rebaixada a pombo-correio oficial da família Harrington.
Desde que o Justin foi mandado para aquele intercâmbio em Roma, a relação dele com o nosso pai azedou de vez. E agora, preciso achá-lo porque Joseph Harrington mandou.
Guardo o celular na mochila com força excessiva, caminho até a lixeira mais próxima e jogo meu copo de chá vazio lá dentro.
Próximo dali, observo Sloane pendurada no pescoço do namorado. Mas eu não sou a única a fitá-los. Isaac, o Gigante do time de basquete que usa óculos de grau, está com os olhos cravados na minha amiga. Como sempre.
— Oi, Gigante. — Paro bem na frente dele e nem assim consigo bloquear sua visão.
— Oi, Radar. — Isaac ajusta a armação na ponte do nariz e pisca lentamente. — Alguma fofoca nova correndo pelo campus?
— Tenho uma quente sobre a Noreen, da minha equipe de torcida. Ela está saindo com o irmão da Paloma, aquele que é piloto. Mas é secreto.
— Enola, se é secreto, por que você está me contando?
— Você perguntou sobre fofoca. — Dou de ombros. — Preciso achar o Justin. Sabe se ele está na fraternidade?
— Ele disse que ia para lá depois do treino. Passei rápido na Delta Ridge agora há pouco e a casa estava vazia, só sei do Ricky que estava no banho.
Banho. Água. Ricky. Mangueira. Bombeiro.
Meu Deus.
Eu daria tudo para vê-lo sem camisa.
Mordo o lábio inferior ao ter mais uma fantasia com o possível duque.
Será que o Ricky tem o corpo definido? Gominhos? Costas largas eu sei que ele tem, o caimento das roupas não mente.
Por que eu nunca o vi sem blusa?
Ele está sempre de camisa de botão social ou moletons pesados, ocultando cada centímetro de pele.
— Enola. — Isaac passa a mão espalmada na frente do meu rosto e eu dou um pulo para trás. — Está tudo bem?
— Sim! Perfeitamente bem. Eu… vou esperar o Justin lá na fraternidade.
— Pode entrar pela porta dos fundos, a trava está meio solta e a galera sempre deixa aberta — ele avisa e desvia o olhar de volta para a Sloane.
Apenas sorrio e sigo a passos rápidos. O vento fraco do início da tarde faz meu cabelo voar.
Será que vou encontrar um Ricky cheirosinho pós-banho?
Meu coração se acelera aos poucos. A cada metro quadrado que avanço.
Solto o ar pela boca.
Eu preciso focar no Ricky como o possível herdeiro desaparecido. E se ele não for o nobre, continua sendo o amigo do meu irmão esquisito.
Paro em frente ao casarão da Delta Ridge. Cruzo o corredor lateral de cascalho, giro nos calcanhares e empurro a entrada dos fundos. Passo pela cozinha silenciosa, em seguida a sala bagunçada e subo os degraus de madeira da escada.
— Ariane!
É a voz do Ricky.
O tom dele não é nada calmo e o som vem acompanhado por três murros violentos contra a porta.
— Me tira daqui! Acabou a graça!
Corro apressada pelo corredor do segundo andar até o banheiro coletivo. Paro diante da porta e noto a chave dourada espetada na fechadura, virada até o fim.
— Calma, Ricky. Sou eu. — aviso e seguro o metal frio.
Giro a chave com um estalo seco e puxo a porta de uma vez.
O mundo simplesmente pausa na mesma fração de segundo.
Meus olhos travam e descem, em um escaneamento automático e involuntário.
Começo pelas pernas fortes, subo pelo quadril estreito envolvido apenas por uma toalha clara, e empaco no tórax absurdamente malhado. Ele segura o uniforme de tênis contra um dos ombros, e os olhos azuis estão esbugalhados de puro choque.
— Enola… — A voz do Ricky escapa em um sussurro rouco, o sotaque desliza de leve pela falta de ar.
Pisco. Tento processar a visão.
E que visão.
— Você está bem? — pergunto, mas minha boca seca, porque eu não consigo desviar os olhos das gotículas de água que escorrem pelo abdômen dele.
— Sim. Obrigado. — Ricky pressiona o tecido do uniforme contra o ombro e se agacha abruptamente para pegar os tênis no chão.
— Acho que…
A frase morre no meio da minha garganta.
O desastre acontece diante dos meus olhos.
Com o movimento rápido dele, o nó da toalha cede. O tecido claro desliza pelo quadril do Ricky e desaba no chão de azulejos.
— Não estou vendo nada! Juro que não vi! — grito em pânico e cubro meus olhos com as duas mãos.
Minhas palmas queimam com o calor do meu próprio rosto.
Por que ele estava preso ali?
Será que a Ariane prendeu o próprio primo?
— Po-pode abrir os olhos, Enola — Ricky diz, claramente nervoso.
Abaixo os braços e encaro o vazio do banheiro.
— Vou acabar de me vestir. Já volto. — Ricky já está no quarto e fecha a porta.
Eu nem sequer senti ele passar por mim.
Até que percebo meu próprio braço com as gotículas de água salpicadas na minha pele.
O calor que emana dali me faz estremecer.
Ricky… esbarrou em mim na fuga. Ele me molhou. E nem assim apagou o que quer que esteja acontecendo comigo. A paranoia e o desejo brigam dentro da minha mente.
Passo os dedos pela pele para secar e o espero no corredor.
A porta do quarto se abre com um clique.
— Pronto. — Ricky sai com o cabelo loiro ainda úmido e já vestido com o uniforme de tênis fechado até o pescoço, escondendo toda aquela estrutura física impecável. — Desculpa pelo que aconteceu com a…
— Está tudo bem, sério. Esqueci completamente — garanto, apesar de ser uma mentira. — Quem foi que te trancou no banheiro?
A garganta dele se move em um engolir seco bem marcado.
— Ariane — murmura. — Tivemos uma discussão feia e… isso aconteceu.
— E aí você resolveu tomar banho — pontuo e arqueio a sobrancelha.
— É. Minha mãe sempre dizia que um bom banho recupera as energias para continuar a luta. — Um brilho melancólico surge no fundo do seu olhar.
— Pode ajudar sim. — Dou um passo à frente, diminuindo a distância entre nós. — Você ficou triste por ficar preso, ou foi por lembrar da sua mãe?
Ricky abre a boca para responder, mas os lábios dele travam.
— Meus pais morreram. Já faz bastante tempo que eu não pensava neles para não…
— Enola? O que você está fazendo aqui? — A voz dura do Justin corta o ar assim que ele alcança o topo da escada.
— Te procurando. — Forço um sorriso. — O nosso pai quer…
— Não — interrompe-me de forma ríspida.
Meu irmão passa direto por nós e entra no quarto com os ombros tensos.
— Mas, Jus, por favor. Me ouve.
Sigo meu irmão para o interior do cômodo. É impossível não compará-lo mentalmente com o Ricky. Os dois têm o mesmo porte alto de atleta, mas antes de ver o Ricky apenas de toalha, eu jurava que o meu irmão era o mais forte. Agora, tenho certeza absoluta do contrário.
Esse homem não deve só treinar tênis.
Se ele for o duque, com certeza sabe esgrima igual a Ariane, ou talvez polo. Alguma modalidade da elite aristocrática.
Mas eu não sei se um nobre desaparecido teria um corpo tão rigidamente treinado assim.
— Eu já disse que não quero saber nada sobre as ordens dele, Enola. — Justin caminha até a cômoda onde o relógio e o anel de sinete do Ricky estão jogados.
— É só uma conversa, Justin. Será que você não pode atender o telefone pelo menos hoje?
Estou exausta de ficar no meio do fogo cruzado entre os dois. Não sei se o Justin virou esse rebelde revoltado desde que a nossa irmãzinha nasceu ou se há um segredo muito maior que ele esconde de mim.
— Claro, me faz um favor. — Ele se vira, e os olhos castanhos do meu irmão estão gélidos. — Pede para ele ligar para a minha secretária e agendar um horário disponível na minha agenda.
Bufo, cruzando os braços, impaciente.
— Você não tem secretária e muito menos uma agenda, Justin. Deixa de ser ridículo.
Ele estala a língua no céu da boca, demonstrando o mais puro deboche.
— Com agenda ou sem agenda, eu não tenho tempo para ele. — Justin estica a mão, pega o relógio do Ricky e o anel de sinete de cima do móvel. — Agora preciso correr para outro treino de resistência.
Ele enfia os objetos caríssimos direto no bolso da calça e passa por mim feito um furacão.
— Justin, por favor! Você é o mais velho, deveria ter um pouquinho mais de responsabilidade — retruco.
Ele vira o rosto no batente da porta e exibe um meio sorriso cínico.
— Tchau, Nola, e tchau, Ricky. — Meu irmão sai do quarto, anda pelo corredor rápido e desce a escada.
— Parece que hoje é o dia oficial das discussões por aqui — Ricky comenta para quebrar o silêncio, mas os ombros dele continuam rígidos.
— Isso não foi uma discussão. Foi só o Justin sendo um completo idiota com o nosso pai — explico, soltando o ar pesado pelo nariz. — Mas me diz uma coisa… vocês são tão amigos assim a ponto de ele pegar suas coisas sem pedir? Seu relógio e seu anel?
Ricky fica completamente estagnado por um segundo.
A boca dele está entreaberta.
E uma tensão nítida toma conta de sua postura.
— Ele… — murmura.
— Ele acabou de levar o seu relógio e o seu anel embora no bolso. E, aquele sinete é bem…
— Foi presente dos meus pais. — Ele se vira em direção à saída e puxa o celular do bolso com as mãos trêmulas de leve. — Seu irmão disse que ia para o campo de treino, né?
— Sim. — Ando até a porta e fico ao seu lado. — Desculpa pelo meu irmão ter pegado algo tão importante para você.
— Não tem problema. — Ricky pisca rápido. — Eu… preciso ir até lá. Agora. — Ele passa por mim e desce os degraus correndo. — Tchau, Enola!
— Tchau, Ricky. Se é que esse é o seu verdadeiro nome — sussurro para o corredor vazio, sentindo meu radar de jornalista apitar mais forte do que nunca.







