O amigo do meu irmão é um Duque?
O amigo do meu irmão é um Duque?
Por: Blair Moony
Primeiro contato

ENOLA HARRINGTON

Levo o canudo à boca mais uma vez. O gosto doce do meu chá gelado é a única coisa que me impede de desidratar no calor ridículo dessa tarde de volta às aulas.

Preciso recuperar o ritmo dos treinos da equipe de torcida, mas meu foco continua preso em uma investigação que consome minhas madrugadas há dois anos.

Faço jornalismo e participo de um consórcio de notícias. Traduzindo: tenho uma desculpa legítima para ser enxerida.

O alvo da vez é um duque escocês que evaporou do mapa. Pelo submundo dos fóruns e minhas fontes, ele pode estar escondido em alguma universidade dos Estados Unidos.

Talvez até esta.

— Você seria a minha madrinha, né? — Sloane inclina o corpo para o meu lado.

Deixo meu copo de chá no degrau de pedra da escada e encaro a minha melhor amiga com a testa totalmente enrugada.

— Do que está falando?

Ela revira seus olhos verdes.

— De quando o Ethan, no final do ano, me pedir em casamento, Radar. — Sloane apoia o queixo na mão e abre um sorriso sonhador.

Radar. É exatamente assim que meus amigos me chamam desde o primeiro semestre. Porque sou a que sempre tem as fofocas mais quentes do campus.

Meu radar não falha. Nunca.

— Acho um completo absurdo e totalmente precipitado, mas a vida é sua, Queen — afirmo.

Casamento aos vinte e um anos? Prefiro passar o resto da vida revisando certidões de óbito da monarquia britânica a me prender ao capitão do time de futebol americano antes mesmo de pegar o meu diploma.

O mais bizarro é que vinte e um anos é a idade exata do meu nobre fugitivo. Os tabloides europeus dizem que a vida perfeita dele desmoronou quando ele rompeu um noivado com uma herdeira influente aos dezoito.

É… eu sou completamente obcecada por esse mistério.

Já revirei cada pixel das fotos borradas dele, tentando decifrar seus hábitos e traçar um perfil comparativo com qualquer ser vivo que estude na Northwood University.

— É claro que você deve saber disso, mas vou falar mesmo assim — Sloane cochicha, fixando a atenção do outro lado do gramado.

Meus olhos seguem o rastro dela e travam no estudante que lidera o topo da minha lista de suspeitos.

Ricky D’Ambrosio.

Ele j**a no time de tênis, cursa economia e carrega aquela aura insuportável de golden boy intocável. Só que, por trás dos sorrisos simpáticos, ele é bizarramente discreto. Quase invisível fora das quadras. Exatamente igual à prima dele, Ariane.

Para piorar a minha situação de detetive amadora, ele também é o melhor amigo e colega de quarto do meu irmão mais velho, Justin. E mesmo com todas as conexões, eu nunca consegui chegar perto o suficiente dele para arrancar mais do que um aceno de longe.

— Ouvi por aí que o Ricky passou as férias de verão inteiras escondido na Itália — Sloane continua, plantando a semente que eu precisava.

Encaro o meu alvo com os olhos estreitados. Ricky tem o mesmo porte físico alto e forte do Justin, mas os cabelos são incrivelmente loiros e os olhos… os olhos dele têm o mesmo tom de azul intenso que os meus.

— Eu poderia continuar a fofocar, mas meu namorado chegou. A gente se vê em casa, Radar. — Sloane se levanta do degrau em um pulo só e dá uma batidinha rápida na saia do uniforme de torcida.

Ela praticamente flutua em direção ao capitão do time, me esquecendo no segundo seguinte.

No meio do gramado, o ruivo que conversava com o Ricky dá um tapinha no ombro dele e se afasta.

É a minha chance de ouro.

Levanto-me da escada com um plano improvisado e perigoso em ação.

Caminho a passos firmes na direção dele e aperto o copo de chá gelado entre os dedos.

O que eu faço? Jogo a bebida direto no peito dele fingindo um acidente ou só esbarro de leve para não fazer tanta sujeira na camisa?

Dúvida cruel de uma jornalista em treinamento.

Calculo mal a distância por causa do nervosismo e meu ombro b**e contra o dele com mais força do que planejei.

O impacto me desmonta.

O ar some do meu peito no mesmo milésimo de segundo.

O choque do nosso contato físico queima através do tecido do meu uniforme de torcida.

— Desculpa… — Ricky reage rápido demais.

Antes que eu consiga me recompor, as mãos dele seguram meus ombros. Firmes. Grandes.

Fico completamente paralisada.

Minhas mãos estão congeladas por causa do plástico do copo de chá, e o calor que emana dos dedos dele contra a minha pele parece um incêndio.

Seu perfume amadeirado me pega antes mesmo que eu consiga pensar direito.

E isso é irritante, porque eu precisava estar pensando agora.

— Você está bem? — ele pergunta, me encarando de perto.

Os seus olhos azuis estão fixos nos meus, avaliando o estrago. Mas não é a proximidade absurda que faz meu coração dar um salto violento no peito.

É a voz dele. É o sotaque.

A pronúncia das consoantes é sutil, quase perfeitamente camuflada. Mas capto o deslize na hora.

Definitivamente não é o sotaque de um americano nascido e criado em Miami.

— Sim. Está tudo perfeitamente bem. — Dou um passo para trás para recuperar o oxigênio e estendo a mão direita em um cumprimento formal. — Sou Enola Harrington.

A atenção dele desce para os meus dedos. E fica ali. Um segundo. Dois.

Parece pensar se deve cumprimentar assim ou… se ele for o duque, talvez devesse levar até a boca e depositar um singelo beijo?

Enola, pelo amor de Deus, foca. Você nem tem certeza se ele é o nobre foragido e já está fantasiando com beijos na mão.

— A irmãzinha do Justin. — Um sorriso treinado surge no rosto dele enquanto seus dedos envolvem os meus e se soltam rápido, fugindo do contato. — Sou o Ricky D’Ambrosio. Vivia em Miami antes de vir para cá. Sou colega de quarto do seu irmão e primo da Ariane. Acho que você mora na Theta Rose com ela, não é?

O jeito que ele fala Miami parece ensaiado demais.

Não consigo engolir.

— Miami? Achei que era da Itália — pontuo com falsa inocência e observo ele.

A garganta do Ricky se move em um engolir seco bem marcado.

Os ombros dele ficam rígidos por uma fração de segundo antes de ele se controlar.

Peguei uma pista.

— Mas sim, eu e a Ariane moramos na mesma irmandade — continuo e suavizo o tom para não parecer um agente do FBI conduzindo um interrogatório criminoso no meio do campus.

— Eu… só passei as férias lá — Ricky justifica em tom baixo, com uma hesitação que faz meu radar apitar feito louco.

Ele gesticula levemente e o movimento faz o sol bater direto no anel de sinete dourado em seu dedo.

Percebo um tremor quase imperceptível em sua mão enquanto a joia brilha, capturando 100% da minha atenção.

— É… ouvi algo desse tipo por aí — blefo, encarando-o determinada.

Ele inclina a cabeça e franze o cenho.

— Como você sabia disso?

Deixo um sorriso enigmático e provocativo brincar nos meus lábios.

— Gosto de ter informações das pessoas.

O olhar dele muda na mesma hora.

Isso não é o Ricky que todo mundo vê.

Ele ergue o queixo, me enxergando de verdade pela primeira vez. Não como a irmã mais nova do Justin, mas como uma ameaça real.

Um sorriso lento, quase predatório, surge nos seus lábios.

— Temos isso em comum, Enola. — O tom de voz dele agora é absurdamente firme, totalmente calculado.

Meu estômago dá uma reviravolta dolorosa.

Eu já tinha visto esse cara de longe em festas e nos corredores, sempre agindo como o atleta perfeito e simpático que todo mundo ama.

Mas aqui perto, de máscara caída, fica claro que ele passa vinte e quatro horas por dia se forçando a interpretar um papel.

— Então, você vai muito à Europa? — Levo o canudo à boca e sugo o restinho do meu chá, fazendo aquele barulho característico de copo vazio.

Por um milésimo de segundo, os seus olhos azuis se estreitam tanto que parecem duas frestas de gelo.

Peguei o ponto sensível.

Logo em seguida, a máscara educada volta para o lugar com uma velocidade cirúrgica.

— Itália, apenas.

Preciso fazer ele falar mais do que duas palavras.

— Meu irmão já viveu em Roma. Fez um intercâmbio na época da escola. Ele já te contou alguma vez sobre isso? — Ele apenas nega com um movimento curto de cabeça. — Você já visitou Roma?

O desespero me atinge. Estou ficando sem assunto.

Por que esse tenista certinho se recusa a abrir a boca para me dar uma frase inteira? Ele consegue ser mais esquisito e fechado do que a prima dele.

— Fiquei uns dias lá com meu tio — ele responde, soltando as palavras a contragosto.

— O pai da Ariane?

Anda, Ricky D’Ambrosio, se esse for o seu nome, me dá um detalhe útil para eu trabalhar!

— Ricky! — Um grito agudo corta o ar do gramado, interrompendo o meu quase interrogatório.

O tenista gira o corpo na direção do chamado e eu localizo a prima dele correndo na nossa direção com uma expressão de pura urgência.

Olhando o desespero da garota, parece até que tem um incêndio de grandes proporções acontecendo no bloco de Humanidades e o Ricky é o único bombeiro da cidade escalado para apagar o fogo.

O Ricky, bombeiro…

A minha mente traiçoeira projeta a imagem dele em um segundo: sem camisa, com os músculos do abdômen brilhando de suor, fuligem espalhada pelo rosto esculpido e as mãos grandes controlando uma mangueira de alta pressão…

Balanço a cabeça com força, e minhas bochechas ardem instantaneamente de vergonha.

Meu Deus, de onde veio isso?

— Oi, Ari — Ricky murmura, a voz visivelmente hesitante com a interrupção.

Ariane para do lado dele e me oferece um meio sorriso totalmente protocolar e sem um pingo de simpatia real. O cabelo castanho-escuro preso em um rabo de cavalo alto balança de um lado para o outro enquanto ela estende o braço e agarra o pulso dele com força.

Não a mão. O pulso. Como se estivesse fazendo uma escolta de segurança.

— Preciso do meu primo. Tchau, Enola! — Ela não espera que eu reaja.

Só pega ele e vai embora, como se minha presença ali nunca tivesse importado.

Ricky pode ser o duque. O perfil se encaixa. O sotaque forçado chama a atenção igual ao anel de sinete em seu dedo.

Ariane é esquisita. Uma boa esgrimista. Capaz de proteger qualquer pessoa a seu alcance.

Ou eles só são primos. Talvez Ricky tenha vivido em Miami por pouco tempo e o resto na Itália, e Ariane é superprotetora com ele.

O país é grande. O duque pode estar em qualquer lugar.

Por que seria justo aqui?

O passo dele falha por meio segundo antes de continuar andando.

Quando ele já está quase fora do meu campo de visão, Ricky vira o rosto.

Não para ela.

Para mim.

Ele sustenta o olhar. Tempo demais.

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