O problema é ela

KNOX KINGSLEY

Corro pelo campus com o celular na orelha em busca da Ariane. O asfalto quente castiga a sola dos meus tênis. 

O Justin está com o relógio. 

O relógio está sendo rastreado. 

Por que a Ariane não atende minhas ligações?!

Tiro o aparelho do ouvido, os dentes trincados, e bloqueio a tela.

— Duque! — alguém grita às minhas costas.

Meus ombros tensionam.

Aperto o celular contra a palma da mão.

Ouço os passos da pessoa se aproximando cada vez mais.

Eles me acharam.

Meu coração martela rápido demais.

— Achei que você tinha ido para casa — a voz continua.

Respiro fundo, forço o pânico a recuar e relaxo o maxilar antes de me virar devagar. 

Dou de cara com o ruivo que me deu esse maldito apelido na faculdade, sem ter ideia de que sou um nobre de verdade, caçado e foragido. 

Solto o ar preso pela boca. 

— Eu fui, mas agora estou procurando a Ari. Você a viu por aí?

Dimitri ergue o canto do lábio, descontraído.

— Ela está no ginásio secundário, duelando com a Hazel. Metade do campus parou para ver a aula de esgrima só por causa disso. 

Hazel Demicke é uma lenda na esgrima, mas o que Dimitri não sabe é que ela e sua família são espiões da KINGS.

Ótimo. Ariane não vai largar o florete para verificar o celular. Ela é tão competitiva e implacável quanto os Demicke. 

— E por que você não está lá assistindo? — indago, enquanto meus olhos correm pelo pátio, buscando desesperadamente qualquer outra alternativa para salvar o Justin.

Dimitri balança a cabeça. Os olhos verdes focados em algo atrás de mim.

— Oi, boa tarde. — Uma voz feminina surge com um sotaque visivelmente estrangeiro.

— Oi. — Dimitri sorri.

Giro o corpo e encaro a mulher de jaqueta jeans, com os óculos escuros no topo da cabeça e segurando a alça de uma mala de rodinhas.

— Sou aluna nova, me chamo Victoria e estou procurando a irmandade Theta Rose. Você sabe onde fica?

— Sou o Dimitri e ele é o Ricky — meu amigo explica e eu curvo os lábios em um cumprimento automático. — Você não parece ser daqui da Carolina do Norte.

— Sou brasileira — Victoria conta.

— O Príncipe aqui vai te levar até a irmandade — digo o apelido do Dimitri.

— Príncipe? — Victoria arregala os olhos verdes, intercalando o olhar entre nós.

— É um apelido. — Dimitri pega a mala da mão dela. — O Ricky é o Duque.

— Ah… então eu seria a plebeia desse reino? — Victoria ri baixinho.

Dimitri endireita os ombros, atento a cada movimento dela.

— Tenho certeza de que ele vai inventar algo para você. — Lanço uma piscadela para o meu amigo. — Tenho que ir. E seja bem-vinda, Victoria.

— Pode me chamar de Vicky.

— Vicky — repito, apenas por cortesia.

Nem dou tempo para o meu amigo retrucar, apenas sigo pelo campus em direção às quadras cobertas de tênis. 

Mesmo que eu já tenha tido meu treino hoje, eu preciso reorganizar meus pensamentos. O banho não bastou para me acalmar.

E nem perder a toalha com a Enola me vendo.

Que humilhação.

Um duque da minha linhagem, treinado para manter a compostura sob o fogo inimigo, totalmente desestabilizado pelo olhar de uma mulher. 

Não uma mulher qualquer. 

A irmã do meu amigo.

Mas pelo menos ela não viu o meu ombro. Isso é o que importa.

Paro ao chegar próximo da entrada da quadra de tênis, o eco abafado das instalações me envolve.

Meu pai me ensinou muitas coisas para sobreviver, mas esse esporte para mim e para ele era apenas um hobby. Assim como meu irmão e minha mãe, amavam montar quebra-cabeças.

Ouço o impacto da bola na parede. Rápido. Preciso.

Avanço pelo batente da porta e meu coração dá um solavanco involuntário. 

A garota de cabelo cacheado e mechas rosas encara a parede com uma determinação feroz, movimentando o braço com tanta força que a bolinha verde vai e volta sem trégua.

Forço minhas pernas a andar.

Quando Clover percebe minha presença, ela interrompe o movimento no ar e me analisa de cima a baixo. Com aquele olhar cirúrgico de sempre.

— O que faz aqui? — Minha voz sai firme.

Clover respira fundo, o peito sobe e desce rápido sob o top esportivo, a testa brilhando de suor.

— Fui transferida de última hora. Parece que algumas coisas não estão tão certas por aqui. — Ela inclina a cabeça. — E você parece que viu… um fantasma. É só a surpresa da minha presença ou existe outro motivo, senhor duque?

Clover Vydor é uma agente da KINGS. Ela acompanhou minha saída da Europa e esteve comigo na Itália nas férias. Além de ser uma boa parceira de tênis.

Olho por cima do ombro, tendo a certeza de que estamos sozinhos.

— O rastreador do relógio foi reativado. — Noto que os olhos dela descem imediatamente para o meu pulso esquerdo. — E o Justin levou junto com meu anel.

Clover dá um passo para trás, a expressão endurece em segundos.

— Nem vou perguntar o motivo. — Ela me estende sua raquete de tênis e retira o celular do bolso da saia esportiva. — Ariane não deveria estar com você?

— A Ariane que me prendeu no banheiro porque eu conversei com a irmã do Justin?

Clover solta um riso curto, seco, enquanto os dedos voam pela tela do aparelho.

— Enola Harrington é uma das pessoas de quem você deveria manter distância. Até mesmo o próprio Justin.

— Mas por quê? — Enrugo a testa.

— Knox, eu sou nova aqui. Mas meu pai é o treinador do time de futebol americano no qual o Justin j**a. Eu sei algumas coisas a mais… — Clover para de digitar e me encara. — A Enola tem fama de descobrir coisas que não deveria saber.

Meu estômago aperta.

— Ela faz jornalismo.

— E é boa nisso. Boa demais. — Clover bloqueia a tela do celular. — Se Enola descobrir que você é o duque desaparecido, sua segurança estará em risco. Então eu não julgo a Ariane por ter te prendido no banheiro.

Engulo o seco, sentindo o peso das palavras dela.

— Tá bom. Então…

— Já notifiquei meu pai. Ele vai colocar outros agentes para ficar de olho no Justin. 

Passo a mão sobre o cabelo clareado.

— Quer jogar para desestressar? — Clover, pega sua raquete da minha mão.

Sorrio de canto. Porque eu não posso fazer mais nada.

Preciso confiar nos agentes da KINGS.

— Quero.

Pego uma outra raquete.

Mas a imagem da Enola abrindo aquela porta continua presa na minha cabeça.

E, pela primeira vez desde que cheguei à Northwood, não sei qual dos dois problemas vai me destruir primeiro.

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