Mundo de ficçãoIniciar sessãoKNOX KINGSLEY
Aqueles homens de terno estão perigosamente perto do Justin.
Meu peito aperta.
Por que o treinador Vydor continua ali parado, sem mover um dedo para tirar o irmão da Enola da linha de fogo? Ele deveria estar protegendo os alunos, não agindo como se tudo fosse normal.
Sinto a respiração quente da Enola colada contra a curva do meu pescoço. O calor dela é um contraste absurdo com o concreto frio da arquibancada.
Desvio o olhar do campo por um segundo, forçando-me a encará-la.
Estamos perto demais. Perto o suficiente para eu contar os seus cílios na penumbra.
E eu estou completamente hipnotizado por essa jornalista.
Os seus olhos azuis estão muito arregalados, brilham com uma mistura intensa de espanto e uma curiosidade aguçada.
Essa mente investigativa da Enola é um perigo real para mim.
Meu coração se acelera contra o peito, batendo tão forte que tenho medo de que ela consiga ouvir.
Reparo em cada milímetro do contorno do rosto dela, descendo até a boca entreaberta, que puxa o ar com dificuldade.
Automaticamente, a lembrança da Enola bebendo o chá com canudo invade minha cabeça sem autorização alguma.
— Você tem que me soltar — sussurra, a voz sai um pouco trêmula.
Ela levanta a mão e toca o meu braço, os dedos frios deixam um rastro elétrico na minha pele.
— Desculpa — peço, o tom escapa mais rouco do que eu planejava.
Preciso lutar contra cada instinto do meu próprio corpo para conseguir recuar e me afastar dela.
Pisco para cessar o efeito que ela tem sobre mim, e viro o rosto em direção ao gramado.
Solto o ar pesadamente pela boca ao notar que os capangas estão guardando o celular no bolso interno do paletó. E giram os calcanhares para começar a sair do campo.
Por que eles estão indo embora do nada?
Eles receberam uma ordem?
Ou perceberam que o Justin não era quem procuravam?
— Você é muito irresponsável! — A voz estridente da Ariane corta o ar vindo da lateral do campo.
Eu e Enola nos entreolhamos rapidamente, compartilhando a mesma tensão, e saímos debaixo da estrutura de concreto em direção ao gramado ralo.
Minha amiga e secretamente minha guarda-costas, está vestida com o uniforme branco de esgrima. Ela está na ponta dos pés, o corpo rígido de fúria, encarando o Justin.
O irmão da Enola apenas mantém um sorriso cínico e relaxado nos lábios, os braços cruzados, achando graça da situação. Ele não tem a menor ideia do risco que correu.
— Você não pode sair por aí roubando as coisas dos outros desse jeito! — ela esbraveja, o rosto vermelho de raiva.
— Ele é meu amigo, General. Relaxa — Justin retruca, a voz cheia de deboche. Ele desvia os olhos para mim e franze o cenho. — Ricky, fala para a sua prima que ela é muito estressadinha.
— Eu estou bem aqui na sua frente! — Ariane explode e semicerra os olhos castanhos, que parecem lâminas frias em direção a ele.
— Desculpa, mas você é tão tampinha que eu nem tinha te visto — Justin provoca.
Ele leva a mão esticada até a testa, simulando um marinheiro procurando terra firme em alto-mar.
Ariane rosna baixinho. Consigo ver os dedos dela apertando com força o meu relógio e o meu anel contra a palma da mão.
— Tá tudo bem agora, né? — Dou um passo para ficar entre os dois.
— Tudo bem? Você acha que está tudo bem, Ricky? — Ariane se vira para mim e me lança um olhar duro.
Eu sei que foi um erro. Mas se ela não tivesse me prendido no banheiro, o Justin não pegaria os meus pertences sem eu ver.
— Ari, para de implicar com o meu irmão — Enola pede, tentando acalmar os ânimos.
Ariane bufa e endireita a postura.
— Vou voltar para a minha aula e não quero ser interrompida de novo por palhaçada. Entendeu bem, Ricky? — ela avisa, gira o corpo e sai pisando firme.
Balanço a cabeça.
— Ela deve me odiar — resmungo para tentar disfarçar algo.
Vai que a Enola entendeu que aqueles homens estavam atrás do Justin por conta do meu relógio?
Ela é jornalista, esperta e linda… e o que eu estou falando?
Não posso ficar perto dela.
E, por algum motivo que aperta meu peito, aceitar esse distanciamento dói muito mais do que deveria.
Justin me dá um tapinha amigável no ombro e solta uma risada limpa, quebrando o meu transe.
— Não, cara. Ela me odeia. E levou seu relógio e anel embora.
— Deixa para lá. — Dou de ombros, fingindo desinteresse para não levantar mais suspeitas.
Enola dá um passo à frente e fica exatamente no espaço entre mim e o irmão dela.
— Que tal a gente comer alguma coisa?
O olhar afiado da jornalista parece estar atento a tudo.
— Vou para casa — recuso e dou um passo para trás.
Por que?
Porque aqueles homens podem estar achando que o Justin sou eu.
Porque aqueles homens não podem chegar perto dos meus amigos.
Porque a jornalista é encantadora e eu… só queria ter mais alguns minutos com ela.
Mas não posso.
Minha realidade não permite esse capricho. Não posso deixá-los em perigo por puro egoísmo meu.
Giro nos calcanhares e sigo para a Delta Ridge. Pelo canto do olho, vejo Enola e Justin virando à esquerda para ir em direção à lanchonete principal do campus.
Solto um suspiro longo, o ar sai pesado dos meus pulmões.
Será que, depois desse quase flagrante, eu vou ser obrigado a arrumar minhas malas e ir embora?
De repente, meu celular vibra de forma agressiva dentro do bolso da calça.
Suspiro e puxo o aparelho. Assim que desbloqueio a tela e clico na notificação de uma mensagem vinda de um número privado, meu estômago despenca instantaneamente.
— Aproveite o campus enquanto pode. Seu tempo está acabando e você vai voltar para onde pertence — leio baixinho, sem acreditar que isso esteja acontecendo.
Instintivamente, ergo a cabeça e olho para trás, varrendo os arredores com os olhos semicerrados.
O campus parece perfeitamente normal. Universitários caminhando, conversando sobre as aulas, atletas rindo alto perto de um grupo de líderes de torcida.
Enola já sumiu do meu campo de visão, mas a amiga dela, Sloane, está logo ali na calçada de braços dados com o namorado. Ele é o capitão do time de futebol americano e um babaca, segundo o Justin.
Nenhuma ameaça por perto.
Tudo normal nesta faculdade.
Exceto para mim.







