Capítulo 6

Acordei no domingo com o quarto cheirando a álcool e suor, uma mistura enjoativa que grudava no ar mesmo com a janela entreaberta. Lucas dormia de bruços, a boca ligeiramente aberta, um fio de baba escorrendo pro travesseiro, completamente alheio ao estrago que tinha feito no dia anterior. Fiquei ali, deitada de lado, olhando pra ele por um longo minuto, tentando entender como um homem podia parecer tão inofensivo dormindo e, ainda assim, ter passado a tarde inteira me deixando com aquela sensação de areia movediça no peito.

Ju.

O nome ainda ecoava na minha cabeça, mesmo várias horas depois. Fiquei repassando a cena inteira, o jeito como ele tinha falado, a naturalidade doentia daquilo, a desculpa esfarrapada do tal Juliano que nem fazia sentido dentro da minha própria lógica. Fiquei pensando também na ligação, na voz alterada dele perto do lago, no "e você quer que eu faça o quê?" que parecia carregar um peso que ia muito além de qualquer fornecedor de mármore ou reunião de trabalho.

Eu precisava descobrir a verdade. Não dava mais pra viver enfiando a cabeça debaixo do travesseiro, fingindo que aquelas peças soltas não formavam nenhum desenho.

Fiquei sentada na beira da cama por um bom tempo, olhando pro quarto que nós dividíamos havia quase dois anos, reparando em detalhes que eu nunca tinha parado pra observar direito: o relógio que ele ganhou dos pais no aniversário de trinta anos, jogado displicente em cima da cômoda; a camisa que ele tinha usado no dia anterior, largada no chão perto do closet, o bolso ainda com um guardanapo de papel amassado dentro, do tipo que não combinava com o restaurante italiano onde tínhamos almoçado; a nossa foto na moldura da cabeceira, tirada durante uma viagem à praia no ano passado, nós dois sorrindo, abraçados. Parecíamos tão felizes.

Onde exatamente as coisas tinham começado a desandar? Eu não conseguia apontar um dia específico, um marco claro, só uma sucessão de pequenos deslizes que, sozinhos, pareciam bobagem, mas juntos formavam um retrato que eu já não conseguia mais ignorar.

Levantei devagar, tomei banho, me vesti sem fazer barulho, e antes de sair, escrevi um bilhete rápido, deixando em cima da mesa da cozinha: Fui na Camila, te amo, se cuida. Ele nem ia perceber a hora que eu saí, do jeito que estava roncando.

                                                                   ─── ⋆⋅☆⋅⋆ ───

Camila morava num apartamento pequeno e aconchegante na Vila Mariana, cheio de plantas e quadros que ela mesma pintava nos fins de semana. A gente se conhecia desde os seis anos de idade, criadas na mesma rua, no mesmo interior de Minas Gerais, e mesmo depois que ela também se mudou pra São Paulo, alguns anos atrás, continuávamos tão próximas quanto sempre fomos. Era ela quem eu já tinha decidido, sem nem precisar perguntar, que seria minha madrinha de casamento.

— Você tá com uma cara — ela falou, assim que abriu a porta, ainda de pijama, o cabelo preso num coque torto. — Aconteceu alguma coisa?

— Um monte de coisa — respondi, entrando e me jogando no sofá dela como quem já fazia aquilo mil vezes, porque, de fato, já tinha feito.

Ela foi até a cozinha, preparou café pra nós duas, e voltou com as canecas fumegantes, sentando de pernas cruzadas no tapete na minha frente, no maior estilo "agora me conta tudo" que só amiga de infância sabe fazer.

Contei tudo. A toalha molhada naquela noite estranha, semanas atrás. A mensagem de madrugada dizendo que ele ia chegar tarde. A ligação alterada no jardim do salão. O nome escapando na mesa do restaurante, na frente dos pais dele, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

— Angel — Camila falou, séria, segurando minha mão. — Isso não é implicância sua, não. Isso é muita coisa junta.

— Eu sei — suspirei, sentindo os olhos arderem. — E o pior não é nem isso tudo especificamente. É que ele continua carinhoso, sabe? Me abraça, me beija, fala que me ama, faz esses gestos bonitinhos... mas ao mesmo tempo parece tão distante. Como se o corpo dele tivesse ali, mas a cabeça em outro lugar completamente diferente. A gente não conversa mais de verdade há semanas. Nem sobre o casamento ele quer falar direito.

— Isso é o pior tipo de solidão que existe — ela comentou, baixinho. — Estar ao lado de alguém e se sentir sozinha assim mesmo.

Fiquei quieta por um segundo, sentindo aquela frase entrar fundo, porque era exatamente aquilo, exatamente a palavra que eu não tinha conseguido encontrar sozinha.

— Lembra quando a gente era mais nova e eu dizia que só ia casar com alguém que me olhasse do jeito que meu avô olhava pra minha avó? — perguntei, um sorriso triste brotando no rosto. — Tipo, aquele olhar de quem realmente enxerga a outra pessoa, sabe? Às vezes eu olho pro Lucas e sinto que ele olha através de mim. Como se eu fosse só mais um item da lista de coisas que ele precisa administrar no dia.

— E antes ele não te olhava assim?

— Não sei mais dizer — admiti, sentindo um nó se formar na garganta. — No começo eu juraria que não, que ele me olhava de verdade. Mas agora, pensando bem, acho que talvez eu só tenha visto o que eu queria ver mesmo. Fui empurrando, empurrando, até virar essa bola de neve toda que eu carrego agora.

Camila me abraçou, sem dizer nada por um momento, só deixando que eu ficasse ali, quieta, sentindo o cheiro do café se misturar com aquele silêncio confortável que só amizade de verdade proporciona.

— Cheguei a pensar em desistir do casamento — admiti, baixinho, e só de falar em voz alta aquilo pareceu mais real e mais assustador do que quando era só um pensamento solto dentro da minha cabeça. — Mas eu o amo tanto que não consigo simplesmente desistir assim. Ainda mais que eu nunca vi ele com outra pessoa de verdade, nunca ouvi da boca dele que não me ama mais. Só tenho pedaços soltos, um nome estranho, um telefonema que eu nem ouvi direito. Não é prova de nada, Camila. É só... um pressentimento ruim que não larga do meu peito.

— Você já tentou conversar com ele sobre isso? Direto, sem rodeio, olho no olho?

— Já tentei, várias vezes — suspirei, revirando a caneca entre as mãos. — Toda vez que ele dá uma bola fora, eu questiono na hora. E toda vez é a mesma coisa: ele ri, fala que eu tô enxergando fantasma onde não tem nada, que eu sou boba de desconfiar dele desse jeito. E, sei lá, do jeito que ele fala, tão convencido, tão calmo, eu acabo achando que sou eu mesma que tô ficando louca. Depois de um tempo, você para de perguntar, porque a resposta sempre vem embrulhada nesse pacotinho de "você tá exagerando", e cansa, sabe? Cansa duvidar de si mesma o tempo inteiro.

— Isso tem nome, Angel — Camila falou, séria, apertando minha mão de novo. — E não é "exagero", não.

Fiquei quieta, sentindo o peso daquela frase se acomodar em algum lugar dentro do peito, um lugar que eu ainda não sabia bem como lidar.

— E o que você quer fazer, então? Quer ter certeza antes de qualquer decisão?

— Quero — respondi, sem hesitar dessa vez. — Não dá mais pra viver desconfiando sem provas. Ou eu descubro que tô certa e aí eu sei o que fazer, ou descubro que tô errada e paro de me torturar à toa.

Camila se levantou, foi até o quarto, e voltou com o próprio celular na mão, já digitando alguma coisa.

— Outro dia vi um vídeo sobre isso. Tem uns aplicativos que clonam W******p, mas é osso, porque geralmente precisa escanear um QR code direto no aparelho da pessoa, e se ele usa W******p Web em algum computador, ele recebe um aviso de sessão ativa. É bem arriscado, ele ia perceber rapidinho.

— E tem outra forma?

— Tem uns rastreadores também — ela mostrou a tela, uma loja online cheia de dispositivos pequenos, do tamanho de uma moeda. — Você gruda um desses discretamente na bolsa dele, no carro, na carteira, sei lá, e consegue ver a localização em tempo real pelo aplicativo. Não invade mensagem nem nada, só mostra onde a pessoa esteve.

Fiquei olhando aquilo, sentindo um misto de alívio e culpa ao mesmo tempo, como se estivesse prestes a atravessar uma linha que eu nunca imaginei que fosse cruzar um dia.

— Ele sempre fala que vai almoçar ou jantar com fornecedor — falei, pensativa. — Se eu colocasse um rastreador no carro dele, ao menos eu saberia se esses compromissos são reais ou não. Não ia nem precisar ver mensagem nenhuma. Só... confirmar se ele realmente está onde diz que está.

— Não é loucura nenhuma, Angel — Camila apertou minha mão de novo. — Loucura é continuar vivendo apagando incêndio dentro da própria cabeça sem nunca checar se o fogo é de verdade.

Fiquei o resto da manhã pensando naquilo, revirando a ideia de todos os ângulos possíveis, enquanto Camila já tinha aberto três abas diferentes comparando preços e avaliações dos rastreadores. Ainda não tinha certeza se ia realmente fazer aquilo, mas pela primeira vez em semanas, senti que tinha um plano, um caminho concreto, em vez de só ficar remoendo suspeitas soltas dentro do peito.

— Compra — falei, de repente, surpreendendo até a mim mesma com a firmeza da própria voz. — Compra logo antes que eu desista.

Camila sorriu, já com o dedo pairando sobre o botão de finalizar a compra.

— Feito. Chega em alguns dias. E quando chegar, a gente coloca juntas, tá?

Assenti, sentindo o estômago revirar com a mistura de alívio e medo do que estava por vir, sem fazer ideia ainda de que aquele pequeno aparelho, do tamanho de uma moeda, ia acabar revelando muito mais do que eu jamais poderia imaginar.

Depois de resolvido aquele assunto mais pesado, a conversa foi escorregando, naturalmente, pra coisas mais leves, do jeito que só amizade antiga consegue fazer, pulando de tema em tema sem esforço nenhum.

— E aí, as coisas no trabalho, como andam? — Camila perguntou, servindo mais café.

— Uma loucura, mas divertida — contei, e acabei falando sobre o projeto de Alphaville, sobre os fornecedores, sobre as fofocas do escritório, até chegar, quase sem querer, no assunto do Antônio.

— Peraí, quem é esse Antônio? — ela arregalou os olhos, sentindo o cheiro de fofoca boa a quilômetros de distância.

— Ah, é o filho do dono da empresa. Veio do Rio pra acompanhar nosso projeto. As meninas do escritório inteiro estão derretidas por ele, mas o cara é gelado que só, tipo, super bonito só que com a personalidade de porta de geladeira mesmo. Já rejeitou umas três meninas que tentaram chegar nele.

— Bonito como assim? Mostra foto.

— Eu nem sigo ele em rede nenhuma — falei, rindo. — Mas peraí, deixa eu ver se acho.

Peguei meu celular, entrei no I*******m, e digitei o nome dele na busca. O perfil apareceu rapidinho, foto de perfil séria, aquele mesmo olhar fechado de sempre, mas quando cliquei pra ver mais, uma tarjinha de cadeado apareceu na tela.

Esta conta é privada.

— Ah, não! — Camila quase gritou, se debruçando pra ver minha tela. — Cadê a graça de ser bonito assim e ter I*******m privado? Isso é crime.

— Ele deve ser desconfiado igual a personalidade dele mesmo — ri, tentando ver alguma coisa através da foto de perfil minúscula, sem sucesso nenhum.

— Peraí, deixa eu ver do meu celular — Camila esticou o braço, pegando o próprio aparelho, e digitou o nome dele na busca também. — Olha, tem seguidor em comum entre a gente! O Rodrigo, meu vizinho, segue ele. Deixa eu ver se tem foto marcada com ele no perfil dele.

Entrou na conta do Rodrigo e foi passando o dedo na tela em busca de fotos marcadas, enquanto eu me inclinava pra perto, curiosa demais pra fingir desinteresse. Entre fotos de eventos corporativos e paisagens de viagens, uma imagem chamou atenção das duas ao mesmo tempo: uma foto de grupo num coquetel corporativo, Rodrigo no centro cercado de colegas, rindo pra câmera e no canto direito, ligeiramente afastado da aglomeração, Antônio. Ele estava com uma taça de vinho na mão, ao lado de uma mulher elegante, morena, sorrindo pra câmera enquanto ele olhava pra algum ponto fora do enquadramento, com aquela expressão fechada de sempre.

— Ixi — Camila arqueou a sobrancelha, olhando pra mim de um jeito que eu conhecia bem demais. — Quem será essa aí?

— Sei lá, deve ser uma amiga — respondi rápido demais, sentindo um incômodo esquisito crescer no peito, um incômodo que eu preferi não examinar de perto.

— Você ficou estranha agora — Camila riu, guardando o celular, com aquele sorriso de quem tinha acabado de descobrir alguma coisa muito mais interessante do que qualquer rastreador de carro.

— Não fiquei nada — revirei os olhos, dando um gole no café já frio, tentando parecer o mais desinteressada possível, mesmo sabendo que ela não tinha acreditado em uma palavra sequer do que eu tinha acabado de dizer.

— Angel, você tem noivo, lembra? — ela provocou, cutucando meu braço, aquele sorriso maroto que eu conhecia desde os seis anos de idade não saindo do rosto dela. — Não que eu esteja reclamando de te ver curiosa por alguém de novo, viu, faz tempo que eu não te via com esse brilho no olho, nem que seja só curiosidade besta de fofoca.

— É só fofoca mesmo — insisti, ainda tentando disfarçar, embora sentisse que a mentira soava cada vez mais fraca a cada vez que eu repetia. — O cara é chato, arrogante, e eu tenho mais o que fazer da vida do que ficar analisando foto de I*******m de colega de trabalho.

— Tá, tá, se você diz — ela ergueu as mãos, se rendendo, mas ainda rindo baixinho. — Só acho engraçado como você lembra o nome dele rapidinho, sendo que outro dia nem lembrava o nome do estagiário novo que trabalha do seu lado há dois meses.

Fiquei o resto da tarde na casa dela, conversando sobre outras bobagens, sobre o vestido de madrinha que ela ainda precisava escolher, sobre uma viagem que estávamos planejando fazer juntas assim que a poeira daquele mês maluco baixasse um pouco. Quando finalmente me despedi, já perto do fim da tarde, levava comigo duas coisas bem diferentes: a decisão já tomada de instalar aquele rastreador assim que chegasse, e uma sensação estranha, ainda sem nome definido, martelando baixinho no fundo do peito, toda vez que eu lembrava daquele terraço, daquela taça de vinho, e do jeito como Antônio parecia sempre estar olhando pra algum lugar longe demais pra ser alcançado.

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