Capítulo 2

O elevador desceu em silêncio por alguns segundos, um silêncio que parecia mais pesado do que deveria. 

Júlia ficou de frente para o painel de botões, mas eu via, pelo reflexo do metal escovado, o jeito como os olhos dela deslizavam de Lucas para mim e voltavam para Lucas, rápido demais para ser inocente. Ele, por sua vez, olhava fixo para o número dos andares descendo, as mãos enfiadas nos bolsos, e eu senti algo estranho no ar, uma tensão que eu não sabia explicar, só sentir. 

— Angélica, que anel lindo — disse Júlia de repente, com aquela voz suave, quase infantil, os olhos grudados na minha mão esquerda. — Deve ter custado bem caro, né? O Lucas tem bom gosto. 

— Foi ele quem escolheu — respondi, sorrindo, mantendo a educação de sempre, mesmo sentindo alguma coisa por trás daquelas palavras que não me soava como elogio. Havia um desprezo fininho escondido no tom dela, do tipo que só outra mulher percebe. 

— Que sortuda você — ela sorriu de volta, um sorriso perfeito demais, e desceu no andar seguinte sem dizer mais nada, deixando atrás de si um perfume doce e enjoativo. 

Assim que as portas se fecharam, olhei para Lucas, ainda intrigada com aquele desconforto, mas ele já estava de novo no celular, alheio, como se nada tivesse acontecido. 

Chegamos ao estacionamento, e ele destravou o carro, mas parou de repente, batendo a mão na testa. 

— Ai, esqueci uma coisa lá em cima. Espera aqui, já volto. 

— Quer que eu vá com você? 

— Não precisa, é rapidinho. 

Fiquei encostada no carro por uns bons dez minutos, olhando o celular, checando e-mails do trabalho para distrair o tempo. Quando ele voltou, andando rápido, ajeitando a gola da camisa, reparei em algo estranho: a boca dele estava um pouco vermelha, um vermelho avermelhado demais para ser natural, quase como se tivesse acabado de comer alguma coisa ou passado batom sem querer em algum lugar. 

— O que aconteceu na sua boca? 

— Nada, Angel — ele riu, entrando no carro, ligando o motor. 

Eu quis insistir, quis perguntar de novo, mas alguma coisa em mim, cansada demais para brigar, cansada demais para desconfiar, deixou aquilo passar. Fiquei calada o caminho todo até em casa, olhando pela janela, sentindo um incômodo que eu não conseguia nomear. 

No dia seguinte, o escritório estava em polvorosa. 

Josué, o dono da empresa, um homem de sessenta e cinco anos, cabelos grisalhos impecavelmente penteados e um porte que impunha respeito só de entrar na sala, reuniu toda a equipe de projetos no auditório do décimo segundo andar. Ao lado dele, de terno azul-marinho, estava Antônio. 

— Bom dia a todos — começou Josué, com aquele sorriso orgulhoso de pai que eu reconheceria em qualquer lugar. — Muitos de vocês já devem ter ouvido rumores, então vou direto ao ponto. Este é meu filho, Antônio. Ele estará conosco aqui em São Paulo pelas próximas semanas, acompanhando de perto o projeto de Alphaville junto com a equipe da Angélica. 

Um murmúrio baixo tomou conta da sala. Ao meu lado, Renata cutucou meu braço, sussurrando: 

— Meu Deus, esse homem devia ser proibido por lei. 

— Concordo plenamente — sussurrou outra colega, do outro lado. 

Eu segurei o riso, lembrando do apelido que tinha dado a ele por dentro, ainda achando graça daquele encontrão do dia anterior. Trator. Ele continuava parecendo exatamente aquilo, um trator bonito demais, arrasando com tudo que encontrava pela frente sem pedir licença. 

Foi então que percebi que ele estava olhando para mim. 

Não foi um olhar rápido, casual, do tipo que se dá sem querer. Foi um olhar direto, fixo, que durou segundos demais para ser confortável, e que só se desviou quando Josué terminou a apresentação e pediu que todos voltassem ao trabalho. 

A manhã inteira, Antônio circulou pela sala de projetos, revisando plantas, questionando prazos, fazendo perguntas técnicas que pegavam alguns colegas de surpresa. Quando chegou até minha mesa, cruzou os braços, olhando para o render que eu tinha acabado de finalizar. 

— Essa inclinação do telhado verde. Você calculou o peso da estrutura de sustentação ou só achou bonito? 

— Calculei, sim — respondi, mantendo o tom firme. — E se você tivesse lido o memorial descritivo que já está anexado ao projeto, saberia disso sem precisar perguntar. 

Ele arqueou uma sobrancelha, quase surpreso, e por um segundo achei que tinha ido longe demais. Mas então ele deu um meio sorriso, o primeiro que eu via nele, e seguiu andando sem responder, como se aquilo tivesse sido, de alguma forma estranha, engraçado para ele. 

Do outro lado da sala, vi Lucas se aproximando dele com um copo de café fumegante nas mãos. 

— Antônio, trouxe um café pra você. Expresso, sem açúcar, do jeito que os executivos gostam — disse ele, com aquele sorriso ensaiado que eu conhecia bem demais. 

— Não bebo café depois das dez — respondeu Antônio, seco, sem sequer olhar para o copo. 

Lucas ficou parado ali por um segundo, sem graça, antes de forçar uma risada e recolher o copo, murmurando algo sobre "só estar sendo gentil". Eu senti o rosto esquentar de vergonha alheia, aquele tipo de constrangimento que só quem observa de fora consegue sentir com tanta clareza. Foi a primeira vez que reparei, de verdade, como ele parecia sempre em busca de uma plateia, como cada gesto dele carregava um pingo a mais de teatro do que o necessário, como se a intenção nunca fosse só ser gentil, mas ser visto sendo gentil.

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