Capítulo 3

O dia foi corrido, entre reuniões e ajustes urgentes no cronograma do projeto de Alphaville, que tinha ganhado prazos ainda mais apertados desde a chegada de Antônio. 

Às dezoito horas, Lucas apareceu na porta da minha sala, já de blazer no braço. 

— Vai demorar muito, amor? — perguntou ele. 

— Vou, ainda tenho que revisar os ajustes que o Antônio pediu hoje. Acho que levo mais um tempinho. 

— Então deixa que eu vou na frente. Preparo aquele risoto de camarão que você adora, deixo tudo pronto, aí você chega só pra comer e descansar. 

— Ai, que fofo — sorri, sentindo um carinho genuíno por aquele gesto, mesmo depois de tudo. 

— Eu te amo, sabia? — ele se aproximou, beijou minha testa. — Não demora muito, viu. 

Ele saiu, e eu voltei aos meus rascunhos, tentando concentrar toda a energia que sobrava do dia naquele projeto. O escritório foi esvaziando aos poucos, as luzes de várias salas se apagando, até restar só o som baixo do ar-condicionado e o clique constante do meu mouse. 

Foi quando percebi que não estava sozinha. 

Antônio estava encostado no batente da porta da minha sala, os braços cruzados, me observando havia sabe-se lá quanto tempo. 

— Precisa de alguma coisa? — perguntei, sem desviar os olhos da tela. 

— Só estava vendo até que ponto você ia continuar discutindo sozinha com essa planta baixa. Já contei três "não acredito" e um "isso não vai caber aí de jeito nenhum". 

Senti o rosto esquentar na hora. Eu realmente tinha o hábito de resmungar sozinha quando estava concentrada, e não fazia ideia de que ele estava ali ouvindo tudo. 

— Eu não tava falando sozinha, eu tava... organizando os pensamentos em voz alta, é diferente — menti, mal disfarçando o constrangimento. — E de qualquer forma, trat... Antônio, não sabia que você estava aqui. 

Ele arqueou uma sobrancelha, um sorriso de canto se formando devagar. 

— Trat o quê? 

— Nada — respondi rápido demais, voltando os olhos pra tela, torcendo pra ele deixar aquilo pra lá. 

Ele não deixou. Entrou na sala, sentou na cadeira em frente à minha mesa, sem ser convidado, com aquele meio sorriso enigmático de quem sabia perfeitamente que tinha me pego em alguma coisa, mas resolveu, por algum motivo, não insistir. Ficou ali, observando enquanto eu ajustava as medidas da varanda gourmet, fingindo estar concentrada de novo. 

— Você fica tensa quando trabalha — comentou, depois de um tempo. — Franze a testa desse jeito. 

— E você fica bem observador pra alguém que devia estar trabalhando também — retruquei, ainda sem tirar os olhos da tela, mas com um meio sorriso escapando.

Ele riu, um risinho curto, quase contra a vontade, como se não esperasse a resposta. Aquilo, de alguma forma, só me deixou mais à vontade também, o clima entre nós ficando mais leve do que eu esperava.

Quando finalmente terminei os ajustes, já passava das vinte e uma horas. Guardei minhas coisas, desliguei o computador e peguei a bolsa. No caminho para a saída, passei pela sala que tinham reservado para Antônio e bati de leve na porta entreaberta para avisar que estava indo embora. 

— Terminei — falei, passando por ele. — E olha, ainda sobrevivi ao expediente sem perder o bom humor. 

— Vou levar isso em consideração — respondeu, já se levantando, ajeitando o paletó e pegando a própria pasta, como se tivesse decidido, ali mesmo, que também já era hora de ir embora. Seguiu ao meu lado pelo corredor vazio, em direção aos elevadores.

Apertei o botão do térreo, e ele notou, franzindo a testa.

— Você não vai de carro?

— Não hoje. Vou de condução mesmo.

— A essa hora? Sozinha?

— Já fiz esse trajeto muitas vezes, Antônio. Vou ficar bem — respondi, num tom mais leve, ainda tentando entender por que aquela pergunta tinha vindo justamente dele.

— Só perguntei — ele deu de ombros, o rosto voltando àquela expressão fechada de sempre, quando o elevador chegou ao térreo. — Se cuida.

Ele seguiu para a garagem, e eu para a saída, sem trocarmos mais nenhuma palavra. Fiquei parada ali por um segundo, sem saber muito bem o que fazer com aquela frase tão simples e, ainda assim, tão diferente de tudo que eu tinha ouvido de Lucas nos últimos tempos.

Como Lucas tinha ido embora com o carro, peguei o metrô e depois um ônibus até em casa, o trajeto que eu evitava fazer há meses, mas que naquela noite não tive escolha. Fiquei olhando pela janela suja do ônibus, vendo a cidade passar em luzes borradas, pensando no risoto de camarão que ele tinha prometido, imaginando o cheiro que já devia estar tomando conta do apartamento. 

Quando abri a porta, encontrei tudo escuro. 

Nenhum cheiro de comida. Nenhum som. Só o silêncio de um apartamento vazio. 

Fui até o quarto e encontrei a toalha dele jogada em cima da cama, ainda úmida, sinal de que ele tinha tomado banho e saído correndo. Nenhum bilhete. Nenhuma mensagem no celular. 

Liguei para ele. Uma vez. Duas vezes. Na terceira, caiu direto na caixa postal. 

Sentei na beira da cama, olhando para aquela toalha molhada, sentindo um aperto estranho no peito que eu tentava, mais uma vez, justificar. Devia ter surgido alguma coisa urgente no trabalho. Devia ter esquecido o celular em algum lugar. 

Só uma horas depois, quando eu já tinha desistido de esperar acordada, o celular vibrou em cima da cama. 

Amor, desculpa, um amigo me chamou de última hora pra resolver uma parada, vou chegar tarde. Dorme, não me espera. Te amo. 

Fiquei olhando para aquela mensagem por um bom tempo, sentindo algo que não era exatamente raiva, mas também não era mais aquela confiança cega de sempre. Guardei o celular, apaguei a luz e me deitei, tentando dormir, mas só conseguindo fingir. 

Às duas da manhã, ouvi a porta do apartamento se abrir devagar, os passos dele tentando ser silenciosos pelo corredor, o barulho baixo da roupa sendo tirada no escuro. 

Fingi estar dormindo. 

Senti o colchão afundar quando ele se deitou ao meu lado, o cheiro dele diferente, misturado com um perfume que eu não reconhecia. 

E foi ali, deitada no escuro, de olhos fechados, respiração calma demais para ser verdadeira, que uma pergunta começou a se formar dentro de mim, pequena ainda, mas já impossível de ignorar. 

Quem é você, Lucas? E onde foi que você esteve essa noite? 

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