Capítulo 5

O sábado finalmente chegou, e com ele a visita ao salão de festas de Itu, dessa vez com Roberto e Marisa, os pais de Lucas, que tinham feito questão de nos acompanhar. Lucas até que deu uma animada para conhecer o local, disse que "ia ser um dia perfeito", e eu, ainda tentando afastar os pensamentos estranhos que vinham me perseguindo desde a noite do sumiço dele, me agarrei àquela expectativa como quem se agarra a um salva-vidas. 

Fiquei feliz por ter os sogros ali, mas por um segundo, enquanto arrumava a bolsa naquela manhã, senti uma pontinha de saudade dos meus próprios pais, lá no interior de Minas, longe demais pra participar desses momentos comigo. Queria muito que eles também pudessem estar presentes em cada passo até o dia do casamento, e não só por ligação de vídeo ou fotos que eu mandava depois. 

Chegamos ao local por volta do meio-dia, o sol forte demais pra um dia de outono, o jardim ainda mais bonito do que eu lembrava das fotos. Fomos recebidos por uma mulher chamada Vânia, dona do espaço, que nos levou pelo tour completo enquanto Marisa comentava, encantada, sobre cada detalhe, e Roberto seguia mais quieto, com aquele jeito discreto que eu sempre gostei nele. 

Lucas, por outro lado, parecia ter decidido que aquele era o momento de se apresentar ao mundo. 

— Sabe, Vânia, eu trabalho como coordenador numa das maiores incorporadoras de alto padrão do Brasil — ele comentou, ajeitando a gola da camisa, com aquele tom de quem estava concedendo uma entrevista. — Estamos fechando um contrato internacional gigantesco agora, o próprio filho do dono veio pessoalmente acompanhar de perto, por conta da minha equipe. 

Não era bem assim que as coisas tinham acontecido, mas resolvi não corrigir, sorrindo educadamente enquanto Vânia assentia, impressionada. 

— Nossa, que demais! Deve ser um trabalho e tanto. 

— Nem imagina — ele riu, se ajeitando ainda mais, como um pavão estufando as penas. — Ontem mesmo resolvi um problema que ninguém mais na empresa conseguia resolver. Às vezes acho que sou o único ali que realmente entende do negócio. 

Marisa trocou um olhar orgulhoso com Roberto, e eu apertei os lábios, engolindo o comentário que insistia em subir pela garganta. Aquele projeto de Alphaville, na verdade, era meu, da minha equipe, mas puxar aquele fio ali, na frente de todo mundo, ia soar como ciúme profissional, então preferi deixar quieto, mais uma vez. 

No meio da visita à área externa, o celular de Lucas vibrou no bolso. Ele olhou o número, franziu a testa, e se afastou alguns passos. 

— Já volto, é do trabalho — disse, andando na direção do jardim mais afastado, perto do lago. 

Esperei alguns segundos, fingindo interesse na explicação de Vânia sobre o cardápio de bebidas, e então, sob o pretexto de ir ao banheiro, me afastei devagar em direção ao mesmo caminho que ele tinha seguido, escondendo-me atrás de uma cerca viva alta o suficiente pra me cobrir. 

A voz dele chegava alterada, tensa, diferente de qualquer coisa que eu já tivesse escutado antes. 

— E você quer que eu faça o quê?? — ele praticamente gritou no telefone, a mão livre batendo no ar, como se a pessoa do outro lado pudesse ver o gesto. — Sair no meio disso agora, sem dar satisfação nenhuma pra ninguém? Não dá, já expliquei minha posição, você tem que entender isso! 

Fez uma pausa, ouvindo o que quer que a outra pessoa estivesse dizendo, o rosto vermelho de raiva. 

— Não, escuta aqui... 

A ligação, pelo visto, caiu, ou a pessoa desligou na cara dele, porque ele ficou parado ali, olhando pro celular por um segundo, respirando fundo antes de guardar o aparelho no bolso com um gesto brusco. 

Voltei correndo, o coração disparado, fingindo que vinha do banheiro, e cheguei perto do grupo bem na hora em que ele também retornava, o rosto ainda tenso, tentando disfarçar com um sorriso que não enganava ninguém que prestasse atenção de verdade. 

— Tudo bem, filho? — perguntou Marisa, notando a mudança. 

— Tudo ótimo, mãe. Só um probleminha bobo do trabalho — respondeu, mas o resto do tour foi diferente. Ele ficou calado, respondendo com monossílabos, o brilho de antes completamente apagado. 

Eu não perguntei nada. Fiquei ali, guardando aquela cena por dentro, mais uma peça de um quebra-cabeça que eu ainda não sabia montar. 

Depois do tour, fomos todos almoçar num restaurante perto do centro da cidade, uma cantina italiana que Roberto tinha escolhido. O clima foi melhorando aos poucos, ajudado pelo vinho que o garçom trouxe logo no início, e que Lucas foi bebendo taça atrás de taça, num ritmo que me deixou de olho, já que ele que tinha dirigido até ali. 

— Amor, você vai dirigir de volta assim? — sussurrei, baixinho, no meio do segundo prato, quando ele já pedia a quarta taça. 

— Relaxa, Angel, eu seguro bem — ele riu, passando o braço pelo meu ombro. — E se não der, você dirige, não é? Você é a chefe agora. 

Os pais dele riram do comentário, achando graça, e eu ri também, mesmo sentindo que aquilo não era exatamente uma piada, era um plano B disfarçado de brincadeira. Guardei as chaves na bolsa quando ele não estava olhando, já resignada com o meu papel na volta pra casa. 

A sobremesa veio, e com ela mais uma taça de vinho, e Lucas foi ficando cada vez mais solto, contando histórias exageradas sobre o trabalho, rindo alto demais das próprias piadas, o tipo de comportamento que eu reconhecia bem quando ele bebia mais do que devia. Marisa contava, orgulhosa, sobre quando ele era criança e já demonstrava ser "o mais inteligente da turma", e Roberto só observava, silencioso, de vez em quando balançando a cabeça de um jeito que eu não sabia se era concordância ou cansaço de décadas ouvindo a mesma história. 

Foi no meio de uma dessas histórias, já perto do fim do almoço, que ele se virou pra mim, os olhos meio vidrados pelo álcool, e disse, num tom carinhoso, quase bobo: 

— Ju, passa o guardanapo aí pra mim? 

A mesa inteira ficou em silêncio por um segundo. Marisa parou de falar no meio da frase. Roberto ergueu os olhos do prato. 

Meu corpo travou. 

— Como? — perguntei, tentando manter a voz calma, mesmo sentindo o chão se mexer debaixo de mim. 

Lucas piscou, confuso, olhando pra mim como se tentasse entender o que tinha acabado de sair da própria boca. 

— O quê? Eu não... — ele riu, sem graça, esfregando o rosto com a mão. — Desculpa, amor, confundi com o Juliano, um fornecedor que tenho falado a semana inteira sobre uns acabamentos. Deve ter ficado grudado na cabeça. Esse vinho tá mais forte do que parece. 

— Ah, sim... — respondi, forçando um sorriso, passando o guardanapo pra ele, enquanto por dentro alguma coisa gelava devagar, centímetro por centímetro. Não acreditei em uma palavra sequer daquela desculpa, mas não era ali, na frente dos sogros, no meio de um restaurante lotado, que eu ia fazer a cena que aquilo merecia.

Marisa riu, aliviando o clima, comentando algo sobre como o vinho da casa realmente era traiçoeiro, e a conversa voltou ao normal, como se nada tivesse acontecido. Mas eu fiquei ali, sorrindo no automático, sentindo aquele nome martelando dentro da minha cabeça.

Ju. 

Não fazia sentido. "Ju" de Juliano seria "Juba", talvez, algo masculino, ríspido, sem afeto nenhum. Mas o jeito como ele tinha falado, aquele carinho automático na voz, era o tipo de apelido que só sai assim, sem pensar, de quem já chamou alguém assim centenas de vezes antes. E definitivamente não parecia carinho reservado pra um fornecedor de acabamentos. 

Dirigi de volta pra São Paulo em silêncio, Lucas cochilando no banco do carona, a cabeça encostada no vidro, e eu com as duas mãos firmes no volante, encarando a estrada, tentando não deixar meus pensamentos me tirarem da pista. 

Não era mais intuição, nem paranoia, como eu tinha dito pro Antônio dias atrás, tentando amenizar o que já sentia por dentro. Era certeza. A certeza incômoda de quem finalmente parou de se enganar.

Pela primeira vez em semanas, eu não empurrei aquela sensação de volta pra gaveta.

Eu confiei nela.

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