Mundo de ficçãoIniciar sessãoA dor era uma coisa curiosa.
Ela não desaparecia de verdade. Apenas mudava de lugar, de intensidade, de forma. Às vezes ficava escondida por um tempo e depois voltava como um lembrete irritante de que meu corpo ainda não tinha esquecido o que tinha acontecido.
Naquela manhã, cada passo que eu dava parecia puxar os pontos que Bianca tinha feito no meu ombro.
Mesmo assim, eu estava no escritório.
Meu escritório principal ficava no topo do edifício Sinclair, um prédio comercial de vidro e aço no centro de Silverport. Durante o dia, aquele lugar parecia o quartel-general de qualquer grande empresa respeitável. Secretárias bem vestidas, executivos andando com pastas, telefones tocando, reuniões acontecendo em salas de vidro.
Tudo muito limpo.
Muito elegante.
Muito legal.
A Rede Sinclair de Hotéis ocupava boa parte do prédio. Era o rosto público da família. Uma cadeia de hotéis de luxo espalhados por várias cidades do país, conhecida por atendimento impecável e arquitetura sofisticada.
Era também a melhor fachada possível para o resto dos meus negócios.
Eu estava sentado atrás da minha mesa, olhando pela janela enorme que dava para o centro da cidade.
Silverport era bonita vista de cima.
Arranha-céus modernos, avenidas largas, o porto ao fundo e o mar além dele. À distância, ninguém imaginaria quantos segredos aquela cidade escondia.
Ou quantas guerras silenciosas aconteciam ali.
A porta do escritório se abriu.
— Você deveria estar deitado.
Reconheci a voz antes mesmo de olhar.
— Você também deveria bater antes de entrar.
Conrad entrou mesmo assim.
Meu irmão mais novo era muitas coisas. Inteligente, calculista, extremamente competente… e completamente incapaz de respeitar portas fechadas.
Ele se aproximou da mesa com uma pasta na mão.
— Estou falando sério — disse ele. — Você levou um tiro ontem.
— Foi de raspão.
— Foi profundo.
— Já estou bem.
Ele cruzou os braços.
— Você mal consegue levantar o braço direito.
Levantei o braço alguns centímetros.
A dor veio imediatamente.
Desci o braço novamente.
— Viu? — disse ele.
— Eu consigo.
Conrad soltou um suspiro irritado e se sentou na cadeira à minha frente.
— Você é impossível.
— E você fala demais.
Ele abriu a pasta que tinha trazido.
— Temos problemas.
— Eu já imaginei.
Ele espalhou alguns mapas e documentos sobre a mesa.
Entre eles estava um mapa detalhado do Distrito Portuário de Silverport.
Ou, como a maioria de nós chamava…
Porto Velho.
Meu território.
Ou pelo menos era.
— Depois da emboscada — disse Conrad — as outras famílias começaram a se mover rápido.
Aproximei a cadeira da mesa para olhar melhor.
Algumas áreas do mapa estavam marcadas em vermelho.
— Quem? — perguntei.
— Todos.
Isso não me surpreendeu.
Silverport tinha três famílias principais além da minha.
Famílias antigas, com raízes profundas na cidade.
E todas elas odiavam dividir território.
— Os Moretti tomaram os dois galpões do lado leste — disse Conrad.
Ele apontou no mapa.
— Os Koval estão usando o antigo terminal de carga.
— E os Alvarez?
Conrad me olhou.
— Ainda não apareceram.
Isso era estranho.
Os Alvarez raramente ficavam fora de uma oportunidade como aquela.
— Então estão esperando — murmurei.
Conrad assentiu.
— Provavelmente.
Fiquei alguns segundos em silêncio observando o mapa.
Aquela emboscada não tinha sido aleatória.
Alguém tinha planejado aquilo.
Alguém tinha reunido homens suficientes para nos atacar.
Quinze homens.
Talvez mais.
E ainda havia reforços escondidos.
Aquilo tinha sido organizado.
— Eles queriam que eu morresse — falei.
— Sim.
— E quando não conseguiram…
Conrad terminou a frase.
— Resolveram tomar o porto.
Passei a mão pelo rosto.
A dor no ombro latejou novamente.
— Quantos homens temos disponíveis?
— Nos galpões?
— No total.
Conrad pensou por um momento.
— Cinquenta.
— Armados?
— A maioria.
— Leais?
Ele deu um pequeno sorriso torto.
— Esperamos que sim.
Balancei a cabeça.
— Isso não vai virar uma guerra aberta — falei.
— Não?
— Ainda não.
Guerras abertas chamam atenção.
Polícia.
Políticos.
Imprensa.
Nada disso era bom para os negócios.
Especialmente para os negócios legais.
Olhei novamente pela janela.
Durante o dia eu era o CEO da Sinclair Hotels.
Participava de reuniões.
Assinava contratos.
Falava com investidores.
Durante a noite…
Bem.
Durante a noite eu cuidava de outros tipos de negociações.
Eu nunca gostei muito da palavra mafioso.
Parecia exagerada.
Dramática demais.
Eu preferia algo mais simples.
Homem de negócios.
Conrad fechou a pasta lentamente.
— Então o que vamos fazer?
Eu fiquei em silêncio por alguns segundos.
Pensando.
Calculando.
— Primeiro — falei — vamos recuperar informação.
— Já estamos fazendo isso.
— Quero nomes.
— De quem?
— De quem organizou a emboscada.
Conrad assentiu.
— Também pensei nisso.
— Aquilo foi planejado.
— Concordo.
— E alguém dentro do nosso território sabia.
Conrad ficou quieto.
— Você acha que temos um traidor.
Não era uma pergunta.
— Acho — respondi.
Ele apoiou os cotovelos na mesa.
— Já pensei em alguns nomes.
— Depois conversamos sobre isso.
Ele assentiu lentamente.
— E o porto?
Olhei novamente para o mapa.
Porto Velho não era apenas território.
Era estratégico.
Bebidas importadas.
Eletrônicos.
Obras de arte.
Relógios.
Qualquer coisa que entrasse na cidade sem passar pelos canais oficiais acabava passando por ali.
Quem controlava o porto…
Controlava metade do dinheiro da cidade.
— Vamos deixar eles acharem que ganharam — falei.
Conrad franziu a testa.
— Temporariamente.
— Você quer esperar.
— Quero observar.
— Enquanto eles se acomodam?
— Exatamente.
Ele pensou por alguns segundos.
Então um pequeno sorriso apareceu no rosto dele.
— Você vai deixar eles relaxarem.
— E então pegar tudo de volta.
— Com juros.
Eu também sorri levemente.
— Com juros.
Conrad fechou a pasta e se levantou.
— Certo.
Ele caminhou até a porta.
Mas antes de sair, se virou novamente.
— Ah.
— O quê?
— A médica.
Bianca.
A imagem dela apareceu na minha mente imediatamente.
Os olhos firmes.
A coragem absurda de discutir comigo enquanto eu estava sangrando no sofá.
— O que tem ela? — perguntei.
— Você realmente vai manter aquele acordo?
— Vou.
Conrad arqueou uma sobrancelha.
— Só para ir em um casamento?
— Foi o combinado.
Ele ficou me observando por um momento.
— Você é um homem estranho, Alexander.
— Já me disseram isso antes.
Ele abriu a porta.
— Só espero que essa médica valha a dor de cabeça.
Quando ele saiu, fiquei sozinho novamente no escritório.
Olhei para o telefone sobre a mesa.
E pensei no celular pré-pago que eu tinha deixado para ela.
Bianca Halcrow.
A única pessoa naquela cidade que tinha coragem suficiente para me enfrentar enquanto eu estava armado.
Um pequeno sorriso apareceu no meu rosto.
Algo me dizia que aquele acordo ainda ia causar muitos problemas.
E, curiosamente…
Eu não estava nem um pouco incomodado com isso.







