CAPÍTULO 7

Depois da porta fechar: POV Adrian

Saí da sala de Rachel sem olhar para trás.

Não por indiferença, mas porque eu já tinha visto o suficiente. O ajuste mínimo da postura quando me aproximei. A pausa curta antes das respostas. O cuidado excessivo em manter tudo correto.

Ela achava que tinha controle.

A maioria acha.

Caminhei pelo corredor com passos tranquilos, cumprimentando quem precisava ser cumprimentado, ouvindo metade do que diziam. Por fora, tudo seguia como sempre. Por dentro, eu já reorganizava o tabuleiro.

Rachel Miller não era impulsiva. Não era carente. Não era fraca. E exatamente por isso tinha despertado algo que não aparecia com frequência: interesse sustentado.

Não desejo mulheres que se entregam rápido.

Desejo as que resistem bem.

Entrei no elevador e apertei o botão do estacionamento. As portas se fecharam com um silêncio limpo. Usei o espelho para ajeitar a gravata, mas o reflexo que me veio à mente não foi o meu.

Foi o dela.

A forma como segurava a caneta como se aquilo fosse um limite físico entre nós. A aliança exposta, quase deliberada. Não como orgulho — como aviso. Rachel não queria ser confundida. Queria permanecer no lugar certo.

Homens como Eduard gostam de mulheres assim. Organizadas. Confiáveis. Previsíveis.

E é exatamente por isso que deixam de vê-las.

No carro, liguei o motor sem pressa. Não havia urgência. Pressa denuncia intenção — e eu não precisava que ninguém percebesse a minha.

Passei o resto da tarde em reuniões irrelevantes, assinando documentos, respondendo perguntas que poderiam ser resolvidas sem mim. Em cada intervalo, minha mente voltava ao mesmo ponto: o momento exato em que ela percebeu que estávamos sozinhos.

Aquele segundo.

Poucos notam. Menos ainda sabem usar.

À noite, aceitei um convite que normalmente recusaria. Bar discreto. Luz baixa. Gente demais tentando parecer interessante. Foi ali que conheci a mulher que não me deixou nenhum nome para lembrar.

Ela me reconheceu antes mesmo de eu falar. Não pelo rosto, mas pelo tipo. Mulheres sabem. Sentou-se perto demais, riu demais, tocou meu braço como se fosse íntima.

Eu deixei.

Não havia motivo para negar algo tão simples.

Ela era linda, tinha o corpo certo, correspondia com facilidade. Tudo funcionava como deveria.

Fui com ela porque era fácil.

Porque eu podia.

Porque, normalmente, isso bastava.

O quarto do hotel era silencioso demais para duas pessoas que mal se conheciam. Ela se moveu com expectativa, com aquela urgência treinada de quem quer agradar rápido. Beijos, mãos, proximidade. Tudo correto. Tudo funcional.

Mas em nenhum momento foi… suficiente.

Eu sabia exatamente o que estava fazendo. O ritmo certo, a atenção precisa, o tipo de toque que faz uma mulher relaxar antes mesmo de perceber que cedeu. Ela reagia como todas reagem quando são conduzidas com segurança, respiração alterando, corpo respondendo, aquela entrega que não exige esforço quando quem está no controle entende o caminho.

Eu a fiz se sentir desejada. Vista. Importante por alguns minutos.

Era isso que eu oferecia.

Enquanto ela falava depois — algo sobre trabalho, sobre a cidade, sobre nada — minha mente não estava ali. Estava presa em outra imagem.

Rachel.

Na forma como ela se continha.

No silêncio que ela sustentava.

No desejo que ainda não tinha sido tocado.

A mulher ao meu lado se aproximou mais, satisfeita, esperando algo que eu não tinha intenção de dar. Carinho prolongado. Permanência. Continuidade.

Eu me afastei antes que isso fosse pedido.

— Já vai? — ela perguntou, surpresa demais para esconder a expectativa.

— Preciso sair cedo — respondi, simples.

Não era mentira. Só não era sobre ela.

Ela adormeceu acreditando que tinha vivido algo intenso. E, para ela, talvez tivesse sido. Eu deixei tudo organizado: espaço, roupa no lugar, nenhuma promessa implícita.

Saí como sempre saio.

Sem culpa.

Sem apego.

Sem levar nada comigo.

No elevador, foi Rachel que voltou a ocupar meus pensamentos — não como fantasia, mas como desafio. Porque eu sabia agradar mulheres. Sabia conduzir corpos. Sabia sair sem deixar marcas.

O que me incomodava era exatamente isso: com Rachel, eu não queria apenas reação.

Queria escolha.

E isso exigiria tempo.

A viagem deixou de ser apenas logística naquela mesma manhã.

No escritório, abri a agenda com a precisão de quem não improvisa quando algo importa. São Paulo não era o destino — era o meio. Três dias eram suficientes para alterar dinâmicas, testar resistências, criar dependência funcional.

Rachel precisava estar ocupada. Necessária. Central.

Por isso ajustei a agenda de forma quase invisível. Reuniões em que a presença jurídica dela não era opcional. Jantares de trabalho onde decisões surgiriam fora do horário formal. Deslocamentos que exigiam alinhamento rápido, troca de impressões, silêncio compartilhado.

Nada que pudesse ser apontado como excesso.

Tudo defensável.

Tudo profissional.

Eduard aparecia em todos os compromissos-chave. Isso era importante. A presença dele não atrapalhava — legitimava. Homens confiantes demais servem como álibi perfeito. Eles ocupam espaço, falam alto, acreditam que isso basta.

Enquanto isso, eu observava Rachel.

O modo como ela se preparava além do necessário. A atenção redobrada aos detalhes. A tentativa clara de se manter neutra, correta, impermeável. Mulheres que fazem isso geralmente já perceberam que algo saiu do eixo — só ainda não decidiram o que fazer com isso.

No dia seguinte, confirmei o hotel. Quartos no mesmo andar. Não por conveniência — por dinâmica. Proximidade controlada cria familiaridade sem invasão. Familiaridade é sempre o primeiro passo.

Enviei as instruções para a equipe com objetividade. Horários rígidos. Pouca margem para dispersão. Eu não precisava pressionar Rachel. Precisava apenas garantir que ela estivesse comigo o suficiente para parar de pensar em como evitar.

Na véspera da viagem, passei novamente pela sala dela sem entrar. Observei pelo vidro: postura impecável, concentração forçada, a mesma tentativa de normalidade que já tinha aprendido a reconhecer.

Ela ainda acreditava que fidelidade era apenas uma escolha diária.

Não era.

Era contexto.

E o contexto estava prestes a mudar.

No aeroporto, quando sentei ao lado dela, confirmei o que já suspeitava. O corpo reage antes da mente aceitar. Sempre. O toque acidental foi mínimo, mas suficiente. Não para provocá-la — para medir.

Ela se ajustou. Corrigiu. Se fechou.

Boa resposta.

Não definitiva.

Quando falei sobre o ritmo de São Paulo, não estava avisando. Estava preparando. Pessoas que sabem o que vem à frente lidam melhor quando perdem o controle depois.

O hotel foi a confirmação final de que tudo estava no lugar certo. Três chaves, mesmo andar. Agenda compartilhada. Nenhuma brecha para interpretações externas.

Quando disse quero todos pontuais, não era sobre horário. Era sobre alinhamento. Mostrar como eu funciono antes de exigir qualquer coisa que não seja dita.

Rachel percebeu.

Eduard não.

E isso me deu exatamente a informação que eu precisava.

Não havia pressa.

A sedução não estava no gesto, no toque ou na palavra errada. Estava no acúmulo. Na repetição. No momento em que Rachel deixaria de se perguntar se algo estava acontecendo — e começaria a se perguntar quando.

A viagem não era um risco.

Era um terreno preparado.

E eu nunca entro em um terreno sem saber onde cada passo pode me levar.

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