Por que está chorando?

Quando acordei, senti um leve aroma perfumado no ar. No primeiro segundo, minha mente tonta não conseguiu identificar o cheiro, mas eu o conhecia de algum lugar. Ele impregnava todo o quarto.

O som abafado da porta se fechando indicava que alguém acabara de sair. Já era dia novamente. Levantei me sentindo estranhamente descansada, fiz minha higiene matinal e, quando estava lutando contra a fila interminável de botões nas costas do meu vestido, a porta se abriu.

Hortência entrou ostentando um sorriso radiante e carregando uma bandeja de café da manhã exageradamente farta.

— Já vi que a sua missão aqui é me deixar gorda igual a uma porca — resmunguei, ajustando a gola.

Ela soltou uma risadinha suave:

— Queria que todas as mulheres nesta casa tivessem o seu bom humor, Helena.

— Também pudera! Vocês não dão o que elas querem — rebati na hora. — Elas passam a noite urrando, berram pedindo por mais e ninguém resolve nada. Pelo amor de Deus, deem um homem para cada uma daquelas mulheres!

Hortência continuou rindo enquanto colocava a bandeja sobre a penteadeira e se posicionava atrás de mim para terminar de fechar meus botões.

— Haverá uma cerimônia muito importante em breve — disse ela, com tom misterioso. — E o Senhor me perguntou se você está pronta para acompanhá-lo.

Um estalo deu na minha cabeça.

— Eu? Vou pedir ajuda na primeira oportunidade que tiver de colocar os pés fora dessa casa! Com certeza! — falei animada, quase me engasgando no meu próprio entusiasmo.

— Sendo assim, irei considerar que você não está pronta, Helena — respondeu ela com serenidade.

Franzi as sobrancelhas, encarando-a pelo espelho. Eu tinha me esquecido por um segundo de que Hortência, acima de tudo, trabalhava para ele.

— Não! Por favor, não faça isso, Hortência — virei-me, segurando suas mãos em tom quase suplicante. Era a minha chance de ouro para escapar.

— Fique calma. Lá fora, ninguém irá reconhecer você, e você não conhecerá a ninguém. Mas, entre você e as outras, acho que você é a melhor escolha para acompanhá-lo. Ele achou estranho a princípio, mas eu o incentivei a aceitar sua companhia.

— Hortência! Você ficou louca?! — exgradei, sobressaltada. — Ele aceitar a minha companhia? Eu nunca iria querer ser acompanhada por esse sequestrador idiota! Quero mais é que ele se exploda. Ele vai achar que estou querendo cortejá-lo como as outras!

— Vejo que me enganei completamente a seu respeito — provocou ela, terminando o último botão. — Pensei que, entre todas, você seria a que mais o agradaria. É fina, culta, educada, divertida... Além disso, vocês falam línguas totalmente diferentes. Será bom para irem se acostumando um com o outro.

Pensar em línguas diferentes reacendeu minha chama. Ótimo. Posso xingá-lo de todos os nomes e ele não vai entender nada. Mas logo me veio a dúvida: E como diabo vou pedir socorro se ninguém me entender?

— As outras pelo menos são humanas? — ironizei. — Se eu sou tudo isso, nem quero imaginar o resto.

— Acho você mais bela que as demais — Hortência disse, ajeitando meu colar. — Você tem uma semelhança maior com as mulheres do nosso país do que as outras.

— Para mim tanto faz. Isso tudo tem horas contadas mesmo.

Sentei-me na cadeira da penteadeira e comecei a devorar uma fruta roxa estranha, mas incrivelmente saborosa, que sempre vinha no café. Hortência pegou a escova e começou a desembaraçar meus cabelos com movimentos suaves.

— Você gosta dele, não gosta? — perguntei de repente.

Ela parou a escova, confusa:

— De quem eu gosto?

Dei uma risada, me sujando levemente com o suco roxo da fruta. A expressão de dúvida no rosto dela era cômica.

— Do meu cabelo!

— Ah... — ela assentiu, voltando a pentear. — Acho seus cabelos lindíssimos. Sua mãe deve ter cuidado muito bem deles.

Coff, coff! — me engasguei com o suco. — Minha mãe? Cuidar dos meus cabelos? Não! Eles são naturais e puxaram aos dela. O meu e o da Louise.

Não queria desmerecer a dona Juliana, mas a vida da minha mãe sempre foi uma correria louca para manter a casa funcionando; ela não tinha tempo para ficar fazendo penteados na gente.

— Louise? Nome bonito — comentou Hortência.

Sorri no automático. Tudo na minha irmã era bonito.

— É Heloise, mas chamamos de Louise. Sapeca igual a uma peste! Se ela estivesse aqui no meu lugar, este casebre já teria vindo abaixo faz tempo.

— Ela é pior que você?

Assenti, pegando um pedaço de pão recheado e falando com a boca meio cheia:

— Muito, mas muito pior! Sabe aqueles furacões de areia que dão no deserto e levam tudo pelos ares? — Vi Hortência levar a mão à boca, assustada. — A Louise é infinitamente pior!

— Que bom que o Salim escolheu você e não ela — Hortência suspirou aliviada. — Alah nos abençoou nessa escolha.

Parei com o pão no meio do caminho. Salim. Finalmente um nome para o homem que me mantinha naquele cativeiro de luxo.

— Ninguém aguentaria ter que recolher os cacos das coisas neste quarto todos os dias — continuou ela.

Tomei um gole do chá condimentado. Havia uns caroços e borras no fundo da xícara que eu costumava mastigar no final; com o passar dos dias, tinha começado a gostar daquilo.

— Na verdade, prefiro que ele tenha me trazido no lugar dela. Minha irmã é muito mais sensível e já passou por alguns traumas pesados. Eu aguento o tranco.

Hortência terminou de fazer uma trança embutida enorme no meu cabelo e sentou-se na borda da cama.

— Acho muito bonito o jeito como você fala da sua família, Helena. Vejo um amor verdadeiro nos seus olhos.

Olhei-me no espelho, admirando o penteado impecável.

— Linda é essa trança que você faz. Nossa, preciso aprender a fazer uma dessas!

— É fácil. As outras mulheres não gostam que eu prenda o cabelo delas; nem deixam que eu as toque. Fazem de tudo para chamar a atenção dele a qualquer custo. Com você é diferente... Como ainda não o conhece, posso continuar sendo sua amiga. Mas, quando as mulheres o conhecem, tudo nelas muda.

— Pois eu não faço a menor questão de conhecê-lo! Ele pode ficar todinho para elas. Faço questão de doar cada milímetro do corpo dele para cada uma daquelas malucas.  — levantei-me dando de ombros.

Hortência riu do meu biquinho de deboche.

— Eu só quero sair daqui, ver minha família e tocar música para eles.

— Você dança? — perguntou ela, curiosa.

— Às vezes, nas festas de família — respondi, um pouco tímida. — Sou uma mistura de brasileira com chileno, sabe, Hortência? A festa está no sangue! Minha mãe é organizadora de eventos.

— E o que você dança?

— Samba, pagode, funk... O que tocar, eu tô dançando!

— O Senhor vai adorar saber disso...

— Oxe! Nem ouse abrir a boca sobre isso para ninguém! — coloquei as mãos nos quadris, igualzinha à minha avó Paula, baiana nata.

— Por que não? Os homens ficam felizes quando as mulheres dançam para eles. Eles dão muitos presentes!

— KKKKKK! Me poupe, Hortência! Dançar para ganhar presente? Eu tenho uma mãe bilionária, um pai milionário e ainda tenho o tio Júlio, que me dá o que eu quiser! Dançar para agradar homem? Tá doida?

Hortência se levantou, visivelmente desconfortável com minha resposta.

— Helena, hoje você poderá caminhar pelo jardim e pela casa. Apenas deste lado! O outro lado pertence às outras mulheres... por enquanto.

Meus olhos lacrimejaram no mesmo instante, como os de uma criança diante de um brinquedo novo. Fazia mais de um mês que eu não via a luz do sol sem ser através de uma janela.

Hortência pegou a bandeja e saiu do quarto. Eu a segui, observando a arquitetura imponente da casa: tons de preto, branco e cinza, com uma grande escadaria de mármore negro.

No corredor, ela entregou a bandeja com os restos do café para uma serva de cabelo coberto. A mulher me encarou com curiosidade, mas, ao perceber o olhar severo da governanta, baixou a cabeça imediatamente.

Hortência repreendeu a criada naquela língua estranha. Em seguida, outra serva apareceu trazendo um pedaço de cetim. Hortência o envolveu na própria cabeça como um lenço, prendendo-o sob o queixo.

— Hortência, por que as mulheres não podem mostrar o cabelo aqui?

A criada se retirou rapidamente. Em vez de responder, Hortência veio na minha direção com um lenço azul-celeste e fez o mesmo em mim. Ignorei o silêncio dela e saímos de braços dados.

Assim que passamos pela enorme porta de madeira, meus pés tocaram o caminho de pedras do jardim. O ar fresco foi um alívio. No entanto, ao longe, perto do portão da casa vizinha, duas mulheres cobertas me observavam. Uma tinha olhos verdes marcantes; a outra, olhos azuis.

— Quem são elas? — perguntei.

— Submissas — respondeu Hortência, com uma sombra de amargura no olhar.

As mulheres começaram a cochichar entre si na mesma língua que Hortência usava com os funcionários. O tom parecia agressivo.

— Por que ela fala como se estivesse brigando? Misericórdia, que idioma é esse?

Hortência guiou-me para o lado oposto, conduzindo-me até um canteiro espetacular de tulipas vermelhas. Lá estava o guarda loiro que costumava me vigiar. Ao me ver chegar com a governanta, ele baixou a cabeça imediatamente.

— Safado... — murmurei. — Homem é tudo igual. Quando estou na janela, ele fica me secando. Até mostrei minha calcinha para ele outro dia!

— Helena! Você não fez isso, fez?! — Hortência parou, chocada.

— Fiz! O problema é dele por ter olhado!

Deixei Hortência discutindo em voz alta com o guarda — descobrindo, inclusive, que o homem não era mudo coisa nenhuma, pois falava mais do que homem em mesa de jogo. Aproximei-me das tulipas, sentindo a maciez das pétalas no rosto e inalando o perfume doce das flores.

Hortência voltou aborrecida:

— Você nunca mais ouse olhar para ele! Está me ouvindo, Helena?

— E o que tem eu olhar? Deve ser tão feio quanto o seu Senhor. Nenhum dos dois me interessa, tenha certeza!

Ela resmungou algo que pareceu um xingamento em seu idioma, mas logo abriu um sorriso espontâneo. Caminhamos pelo jardim imenso. Corri pela grama, andei sob o sol e me deixei suar.

Ao meio-dia, uma serva trouxe uma nova bandeja de refeição. Hortência estendeu um tecido branco impecável sobre a grama e organizou o almoço.

— Que língua é essa que você fala com elas, Hortência? — perguntei, pegando uma fruta suculenta.

— Ainda é cedo para você saber dessas coisas, Helena. Mas me prometa que nunca mais vai se mostrar na janela para os guardas.

— Não se preocupe. Eu não gosto de homens! Se você é apaixonada pelo seu Senhor, pode ficar tranquila: eu nunca vou quere-lo para mim.

Hortência quase engasgou:

— Helena! Como assim não gosta de homens? Os homens são os únicos que podem dar uma vida digna para nós, mulheres!

— Isso é machismo pura bucha, Hortência! Eu posso ter a vida que eu quiser, com ou sem homem do meu lado!

Ela soltou uma gargalhada tão alta que o guarda olhou na nossa direção. Constrangida, ela disfarçou. Peguei uma fruta e a entreguei em suas mãos.

— Você nunca come comigo. Fica sempre do meu lado igual a uma estátua. Você come por acaso?

Hortência sorriu e deu uma mordida na fruta.

— Na minha casa, minha mãe sempre priorizou as refeições em família — comentei, nostálgica. — Sentamos todos na mesa enorme da sala de jantar. É sempre uma bagunça deliciosa.

— Acho que eu ia gostar de conhecer sua mãe. Parecer ser uma mulher muito sábia.

— A dona Juliana? Ela é fantástica! Estranho é ela estar demorando tanto para me achar aqui...

O sorriso de Hortência vacilou.

— Sua mãe não vai te encontrar, Helena. Desculpe te decepcionar, mas ninguém vai te achar aqui. E, mesmo se acharem, ninguém teria coragem de enfrentar o meu Senhor para resgatar você.

Engoli o biscoito a seco. Minha mãe sempre disse que eu era extremamente observadora, e agora eu precisava usar essa qualidade mais do que nunca para sobreviver.

Caminhamos mais um pouco, aproximando-nos da ala onde as outras mulheres ficavam. Elas se amontoavam nas grades para me ver, falando alto, apontando e lançando olhares cheios de raiva. A mulher de olhos verdes segurava as grades com tanta força que os nós de seus dedos estavam brancos.

Se elas estavam com raiva, eu entendia. Estar preso contra a vontade é um inferno. Se para mim, com um mês, já era insuportável, me perguntei há quantos anos elas estavam ali.

Hortência trocou palavras ríspidas com elas. Senti uma onda de aperto no peito, abracei o braço de Hortência e dei as costas. Ao me virar, encarei o prédio principal. Não era uma casa; era um verdadeiro palácio, como os de filmes orientais.

— Gostou? — perguntou Hortência, vendo meus olhos passearem pela arquitetura.

— É lindo... Mas os dois lados da propriedade têm acesso entre si?

— Tinham. Mas o Senhor mandou selar as passagens há algum tempo. E acredite: você não iria gostar nada de conviver com elas do outro lado.

— Nem eu. Já me basta a Louise e o Saulo brigando o dia todo em casa. Aturar mulher ciumenta agora seria demais.

Um carro preto luxuoso, de vidros com insulfilm escuro, entrou na garagem lateral. O guarda no portão me encarou fixamente, fazendo um sinal discreto para que entrássemos.

Dentro de casa, vi criadas correndo para se esconder de nós. Uma delas, que descia as escadas, deu meia-volta e se trancou em um quarto.

— Vamos para o seu quarto agora — disse Hortência.

— Ué? Você não disse que eu podia andar pela casa à tarde?

— É melhor ir para o seu quarto agora — sentenciou ela, num tom que não admitia réplica.

Subi as escadas pisando fundo. Na sala principal, havia um piano de cauda maravilhoso. Se as mulheres do outro lado podem tocar e cantar, por que eu não posso?

Entrei no quarto e me joguei na cama. O ambiente cheirava a lavanda fresca, bem diferente do aroma amadeirado e com toques de canela daquela manhã. Senti o lenço apertando meu pescoço, arranquei o pano e o arremessei longe.

Deitada ali, a ficha caiu. A saudade da minha casa, do abraço da minha mãe, dos meus irmãos, dos meus avós e tios veio como uma onda devastadora. As lágrimas rolaram sem controle. Peguei meu diário na gaveta e comecei a escrever desordenadamente, desabafando sobre a falta que todos me faziam.

Hortência entrou no quarto e me viu chorando.

— Helena... por que está chorando? É pelo que as outras disseram? Não se preocupe, elas não têm o amor dele...

— Eu quero que elas, ele e todo mundo neste lugar se danem! — gritei, copiosamente. — Eu quero ir para a minha casa! Eu não quero homem nenhum! Não nasci para bajular ninguém!

Hortência ficou estática, assustada com o meu surto. Quando percebeu a gravidade do meu colapso, aproximou-se e me acolheu em um abraço forte.

Mais tarde, tranquei-me no banheiro. Entrei debaixo do chuveiro de roupa e tudo, deixando a água quente misturar-se com minhas lágrimas. Hortência entrou logo em seguida trazendo uma xícara fumegante numa bandeja.

Ao me ver encharcada, ela se aproximou, desligou a água e começou a passar a mão carinhosamente pelos meus cabelos, cantarolando uma cantiga numa língua desconhecida. A melodia era suave, estranhamente familiar, e trouxe uma onda súbita de paz ao meu peito.

Ela me ajudou a me enxugar e me vestiu com um roupão rosa-bebê.

— Eu odeio rosa — resmunguei, fraca.

— Tem certeza? Todos nós sabemos que é a cor preferida de toda garota ocidental.

— Eu não sou como toda garota ocidental.

Ela me levou para a cama, fez-me beber todo o líquido quente da xícara e começou a massagear meus pés com um óleo essencial. Em poucos minutos, meus olhos pesaram e adormeci profundamente.

Tive um sonho confuso. Minha mãe estava sentada na plateia de um teatro enorme assistindo a um concerto. Ao lado dela estavam Saulo, Heloise, Helena, Saymon e meu pai. Procurei por mim na plateia e no palco, mas eu não estava lá. Havia apenas uma escuridão densa e vozes ecoando ao fundo.

Acordei sobressaltada, com o coração na boca.

Na penumbra do quarto, vi a sombra de alguém cruzando a porta de saída. O ambiente estava impregnado por um perfume marcante de canela e madeira. Sobre a penteadeira, havia um arranjo exuberante de tulipas vermelhas.

Fiquei sentada na cama, tentando recuperar o fôlego e processar o pesadelo.

Pela manhã, Hortência entrou trazendo o café.

— Bom dia, Hortência — cumprimentei, tentando parecer normal.

— Bom dia, minha querida. Como você está? Soube que teve pesadelos a noite toda...

Encarei-a imediatamente:

— Como assim "soube"?

— Coisas que um semblante cansado revela... — desconversou ela.

— Não inventa desculpas, Hortência! Você não quer me dizer que ele esteve aqui... não é? — olhei para o roupão amassado no meu corpo.

— Não se preocupe. O meu Senhor jamais faria o que você está pensando sem a sua permissão.

— Acho bom! Porque, na primeira oportunidade...

— ...você arrancaria as bolas dele — completou Hortência, sem piscar.

— Que bom que você já decorou!

— E depois se lamentaria por ele não poder lhe dar filhos — brincou ela.

— E quem em sanidade mental quer dar filhos a um sequestrador?! Aquelas malucas querem isso? — apontei para a janela.

— Sim. Elas querem. A primeira que engravidar dele se tornará a primeira esposa.

— Que idiotice! Pois de mim ele não ganha nem um dente de leite.

— Vá logo se arrumar, Helena, antes que Alah desça pessoalmente para te castigar por tantas blasfêmias!

Enquanto eu escovava os dentes no banheiro, vi pelo espelho uma serva trocar os lençóis da minha cama, substituindo a colcha rosa por uma de tom azul-claro.

Minutos depois, Hortência veio ao meu encontro. Pegou a escova da minha mão sem dizer uma palavra e começou a pentear meus cabelos em absoluto silêncio.

— O Senhor liberou a casa para você conhecer — disse ela finalmente. — Você pode andar por quase todos os cômodos... mas não ouse ir à cozinha. E não abuse, pois o castigo pode ser severo.

Abri um sorriso de orelha a orelha. Descemos as escadas e encontramos uma fileira de criadas a postos. Todas usavam lenços cobrindo os cabelos.

— Hortência, o que é isso?

— O Senhor quer que você conheça os criados. A partir de hoje, você não poderá mais ficar a sós comigo na casa; qualquer ordem para eles deve ser dada por meu intermédio.

— E por que isso?

— Acho que ele suspeita que temos algum envolvimento amoroso — Hortência deu de ombros. — Não sei o que passa na cabeça dele.

— KKKKKK! Eu e você?! Esse homem é completamente louco! — gargalhei.

Uma das criadas me encarou com desdém, avaliando-me de cima a baixo como garotas maldosas da escola. Logo em seguida, porém, todas se curvaram em uma reverência profunda.

— Quem são eles, Hortência? Meus súditos? — brinquei, apontando o indicador.

— Todos estão aqui para servir à vontade do nosso Senhor.

Nosso não. Ele não é meu senhor e nunca será — afirmei com firmeza.

Hortência olhou para mim com um leve sorriso nos lábios e respondeu.

— Veremos.

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