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CAPÍTULO 1 - ESPERANÇA

       O rangido das tábuas do assoalho sob meus pés era a sinfonia matinal mais comum na Casa Grande da alcateia Silver Moon. Eu me movia como uma sombra, invisível para quase todos, exceto quando minha presença era absolutamente necessária – o que geralmente significava mais trabalho. O sol de 1980 mal espreitava por trás dos picos nevados, mas a cozinha já fervilhava de vida. O aroma de café forte e bacon frito se misturava com o cheiro úmido de pinho trazido pelos guerreiros que já voltavam da patrulha matinal.

Eu era Lyra Silverbane, e aos dezenove anos, minha vida não era exatamente o que as histórias de Lunas predestinadas costumavam contar. Na verdade, estava bem longe disso. Minha pele era pálida, quase transparente, e meus cabelos castanhos claros viviam em um rabo de cavalo desgrenhado. Meus olhos, de um cinza tão desbotado que pareciam vazios, raramente encontravam os de alguém. Era mais fácil assim. Evitar olhares significava evitar perguntas, e evitar perguntas significava não ter que explicar a ausência da minha "loba".

Desde pequena, sabia que era diferente. Outras crianças lobisomens, aos sete ou oito anos, já demonstravam os primeiros sinais: um brilho mais intenso nos olhos, um rosnado instintivo, a primeira transformação lúdica em um filhote desajeitado. Eu? Nada. Eu era apenas... Lyra. Humana demais para pertencer, mas condenada a viver entre eles. Meus pais, tão envergonhados, me entregaram à Casa Grande quando eu era apenas uma menina, esperando que eu "encontrasse meu propósito" servindo a alcateia. Meu propósito, aparentemente, era polir os talheres de bronze e garantir que o Alfa nunca ficasse sem seu chá de ervas preferido.

A vida era uma rotina exaustiva de limpeza, cozinha e silêncio constante. Não era permitido falar a menos que fosse perguntado, e eu raramente era. Era uma existência quase monástica, mas havia uma migalha, uma única migalha de esperança que me impedia de desaparecer completamente.

Caleb.

Ele era o herdeiro, o filho do Alfa, o futuro líder da alcateia. E, inacreditavelmente, o meu. Pelo menos, de acordo com a marca em meu pulso. A pequena tatuagem natural de uma lua crescente com espinhos. O símbolo de Luna. Não importava que eu não tivesse uma loba, que fosse frágil e sem habilidades. O destino havia me escolhido para ele.

Eu o via todos os dias. Ele era o oposto de mim em todos os sentidos. Alto, musculoso, com cabelos loiros que pareciam banhados pelo sol e olhos azuis penetrantes. Sua risada era barulhenta, sua presença preenchia qualquer ambiente. Quando ele entrava na cozinha para pegar um lanche rápido depois do treino, meu coração batia um ritmo descompassado, quase doloroso. Eu sempre o observava, disfarçadamente, através das panelas fumegantes. Ele nunca me olhava. Ele nunca me via, de verdade. Mas a esperança era teimosa.

Eu me agarrava àquelas poucas memórias. Caleb, com dez anos, e eu, com oito, sentados na beira do riacho, comendo maçãs roubadas da dispensa.

"Você vai ser minha Luna, Lyra", ele disse, jogando uma pedrinha na água. "Meu pai diz que o destino nunca erra."

"Mas eu não tenho uma loba", eu respondi, a voz já embargada pela preocupação.

Ele me olhou com aqueles olhos azuis, então tão cheios de uma inocência que hoje parecia mentira. "Não importa. Eu serei forte o suficiente por nós dois. Vou te proteger. Sempre."

Aquelas palavras, sussurradas há anos, eram o meu tesouro mais precioso. Eu as repetia em minha mente em cada tarefa monótona, em cada olhar frio que recebia. Elas eram o meu escudo contra a solidão.

Hoje era o dia da Cerimônia de Ascensão. A Noite da Lua Cheia. O dia em que Caleb seria oficialmente reconhecido como o próximo Alfa. E, por extensão, o dia em que eu seria apresentada como sua Luna. Aquele pensamento era um misto de terror e êxtase. Terror porque eu sabia o que os outros diriam, o que pensariam de uma Luna tão "quebrada". Êxtase porque, finalmente, eu seria vista. Eu teria um lugar. Eu seria dele.

A fofoca corria solta na Casa Grande. As outras fêmeas, com suas lobas fortes e personalidades vibrantes, falavam da beleza de Caleb, de sua força. Algumas delas, como Selina, uma loba de linhagem pura e olhos tão afiados quanto garras, mal escondiam o desprezo por mim. Selina era alta, com longos cabelos escuros e um sorriso que prometia problemas. Ela sempre zombava de minha "invisibilidade", e Caleb... bem, Caleb nunca a impedia. Ele nunca me defendia.

Essa era a parte difícil da esperança. Ela era frágil, construída sobre promessas antigas e olhares rápidos que talvez eu estivesse imaginando. Mas eu não podia perdê-la. Não agora.

Enquanto arrumava a mesa do café da manhã dos Alfas, senti uma pontada familiar na base do meu pescoço. Era a conexão, o vínculo, respondendo à proximidade de Caleb. Ele havia acabado de entrar na sala de jantar. Fechei os olhos por um segundo, absorvendo a sensação. Era como uma corda esticada entre nós, vibrando. Para ele, talvez fosse apenas um incômodo sutil. Para mim, era a vida.

Abri os olhos e o vi. Caleb estava à cabeceira da mesa, rindo de algo que seu pai, o Alfa atual, havia dito. Selina estava sentada ao lado dele, sua mão repousando sobre o braço forte dele, uma intimidade que me fez morder o lábio para não soltar um suspiro. Ele não me viu ali, parada na entrada da cozinha, com a bandeja de torradas na mão. Mas eu o vi. E o que vi foi um homem que parecia ter esquecido completamente a menina de oito anos que jurou proteger.

Uma voz em minha mente, que parecia a minha própria, só que mais antiga e cansada, sussurrou: ele é forte demais para ser meu, e eu sou fraca demais para ser dele.

Engoli em seco e entrei na sala de jantar. Coloquei as torradas na mesa, evitando qualquer contato visual. Caleb nem sequer se virou. O cheiro de sua loção pós-barba misturado com o do seu lobo era inebriante, e eu o respirei, tentando absorver cada molécula, antes que ele fosse tirado de mim para sempre.

Aquele dia seria o dia em que tudo mudaria. Eu só não sabia ainda se seria para melhor ou para pior. Meu coração, tolo e persistente, ainda guardava uma pequena chama, acreditando na promessa de um menino. Mas uma parte de mim, uma parte mais fria e realista, já sentia o prenúncio de uma tempestade. Eu só queria ter um lugar no mundo. Eu só queria ser vista. E hoje à noite, eu seria. Para o bem ou para o mal.

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