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CAPÍTULO 3 – O QUE FALTOU

Clara só percebeu que havia algo errado quando o café da manhã não estava pronto.

Não foi um choque imediato. Não foi uma grande preocupação. Foi apenas um incômodo pequeno, quase irritante, que surgiu no meio da rotina.

A cozinha estava silenciosa demais.

Sem cheiro de café fresco.

Sem a mesa arrumada.

Sem o cuidado de sempre.

Ela abriu a geladeira, pegou uma fruta qualquer e mordeu, sem muita paciência.

— Ricardo? — chamou, sem levantar a voz.

Nenhuma resposta.

Ela revirou os olhos.

— Deve ter saído cedo…

Não era incomum. Ou pelo menos era o que ela decidiu pensar naquele momento.

Clara não insistiu.

Tinha coisas mais importantes para fazer.

— Mãe!

Ricardinho apareceu na sala, com o cabelo bagunçado e o uniforme da escola ainda pela metade.

— Cadê o café?

Ela suspirou, já impaciente.

— Faz alguma coisa rápida, estou atrasada.

O menino franziu o cenho.

— Mas eu não sei…

Clara passou a mão no cabelo, claramente incomodada.

— Então pega um biscoito, qualquer coisa.

Ele ficou parado por alguns segundos, olhando para a cozinha vazia.

Aquilo não era normal.

Ricardo sempre deixava tudo pronto.

Sempre.

— E minha lancheira? — o menino perguntou.

Clara parou no meio do movimento.

— Lancheira?

— Sim…

Ela abriu a bolsa, mexeu nas coisas e depois olhou novamente para ele.

— Hoje você compra alguma coisa na escola.

O menino não respondeu.

Mas o olhar dele mudou.

Não era raiva.

Era estranhamento.

Como se algo estivesse fora do lugar.

No meio da manhã, Clara já estava irritada.

Pequenas coisas começaram a se acumular.

A casa parecia mais bagunçada.

O uniforme do filho estava amarrotado.

Ela não encontrava as coisas com facilidade.

Nada grave.

Mas nada funcionava como antes.

Ela tentou ignorar.

Tentou focar no próprio dia.

Mas, em algum momento, percebeu que estava pensando na mesma coisa de novo.

Ricardo.

Não por saudade.

Mas porque ele resolvia tudo aquilo.

E agora…

Ninguém resolvia.

Quando voltou para casa, no fim da tarde, o incômodo já era maior.

A porta não estava destrancada.

As luzes não estavam acesas.

E não havia ninguém esperando.

Ela entrou, jogou a bolsa no sofá e chamou:

— Ricardo?

Silêncio.

Clara caminhou pela casa, abrindo portas, olhando os cômodos.

Nada.

Nem sinal dele.

Ela pegou o celular e ligou.

Chamou.

Chamou de novo.

Nada.

— Estranho…

Pela primeira vez no dia, uma sensação diferente surgiu.

Não era preocupação.

Era desconforto.

Algo que ela não sabia explicar direito.

Ricardinho chegou pouco depois, acompanhado do motorista da escola.

Assim que entrou, largou a mochila no chão.

— Mãe, hoje o lanche foi horrível.

Clara nem respondeu de imediato.

— Você viu o Ricardo?

O menino parou.

— Não…

Ela franziu o cenho.

— Ele não foi te buscar?

— Não… foi o motorista.

Silêncio.

Os dois ficaram ali por alguns segundos.

A casa parecia maior do que antes.

Mais vazia.

— Ele deve voltar mais tarde — Clara disse, mais para si mesma do que para o filho.

Ricardinho assentiu, mas não parecia convencido.

— Ele não avisou nada?

Clara apertou os lábios.

— Não.

A noite chegou.

E Ricardo não voltou.

O jantar não estava pronto.

A mesa não estava posta.

Nada estava no lugar certo.

Clara pediu comida.

Simples assim.

Mas nem isso resolveu.

— Não é igual — Ricardinho reclamou, empurrando o prato.

Ela perdeu a paciência.

— Então não come.

O menino ficou em silêncio.

Olhou para o prato por alguns segundos e depois desviou o olhar.

— Ele sempre fazia melhor…

Clara não respondeu.

Mas aquilo ficou.

Grudado.

Incômodo.

Mais tarde, quando a casa já estava quieta, Clara sentou no sofá com o celular na mão.

Abriu a conversa com Ricardo.

Nenhuma mensagem nova.

Nenhuma explicação.

Nada.

Ela digitou.

“Quando você vai voltar?”

Ficou olhando para a tela por alguns segundos.

E então apagou.

Não queria parecer que estava esperando.

Não queria dar importância.

Mas, mesmo assim, continuou olhando para o celular.

Esperando.

Sem admitir.

No quarto, o lado da cama dele estava vazio.

Arrumado.

Intocado.

Clara deitou, puxou o lençol e fechou os olhos.

Mas demorou mais do que o normal para dormir.

Porque, pela primeira vez em muito tempo,

o silêncio da casa não parecia confortável.

Parecia errado.

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