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CAPÍTULO 4 – O QUE ELE SEGURAVA SOZINHO

No segundo dia, Clara ainda tentou manter a normalidade.

No terceiro, já não existia mais normalidade nenhuma.

A casa estava fora de controle.

Não era apenas bagunça. Era um tipo de desordem que parecia crescer sozinha. Louça acumulada na pia, roupas espalhadas pela sala, coisas fora do lugar que ninguém se deu ao trabalho de arrumar.

Clara parou no meio da sala, olhando ao redor com irritação.

— Isso não pode estar acontecendo…

Mas estava.

E o pior não era a bagunça.

Era o fato de que ela não sabia por onde começar.

Antes, tudo simplesmente funcionava.

Agora, tudo exigia esforço.

Tempo.

Atenção.

Paciência.

Coisas que ela nunca precisou ter dentro daquela casa.

— Mãe, eu não achei meu caderno!

A voz de Ricardinho veio do quarto, já carregada de impaciência.

Clara fechou os olhos por um segundo, respirando fundo.

— Procura direito!

— Eu já procurei!

Ela foi até o quarto dele, já irritada, e parou na porta.

O espaço parecia um campo de batalha.

Brinquedos no chão, roupas misturadas com material escolar, mochila aberta no meio da cama.

Clara passou a mão no rosto.

— Como você conseguiu bagunçar isso desse jeito?

O menino deu de ombros.

— Sempre foi assim…

Ela travou.

Não.

Não era.

Ricardo não deixava chegar nesse ponto.

Nunca.

Clara se virou e saiu do quarto sem responder.

Não queria pensar nisso.

Foi no meio daquela confusão que o celular dela tocou.

Número do trabalho.

Ela atendeu sem hesitar.

— Clara, precisamos de você em São Paulo amanhã cedo. A reunião foi antecipada.

Ela ficou em silêncio por um segundo.

— Amanhã?

— Sim. É importante.

Claro que era. Sempre era.

Clara olhou ao redor da casa.

Depois pensou em Ricardinho.

E então, inevitavelmente, pensou em Ricardo.

Mas ele não estava ali.

E não tinha deixado nenhuma explicação.

— Tudo bem — respondeu. — Eu vou.

Desligou e ficou parada, com o celular na mão.

Agora vinha o problema real.

Com quem deixar o filho?

Ela não tinha o hábito de pensar nisso.

Nunca precisou.

Ricardo sempre estava ali.

Sempre disponível.

Sempre resolvendo.

Clara apertou os lábios.

Pegou o celular novamente e fez uma ligação.

— André, você pode me ajudar com uma coisa?

Do outro lado, a resposta veio rápida.

— Claro. O que foi?

— Eu preciso viajar por uns dias… e não tenho com quem deixar o Ricardinho.

Houve um pequeno silêncio.

— Você quer que eu fique com ele?

Clara relaxou os ombros.

— É só por três dias.

— Eu dou um jeito.

Simples assim.

Sem perguntas.

Sem dificuldade.

Clara se sentiu aliviada.

Era isso que importava.

Três dias depois, ela voltou.

Cansada.

Irritada.

Esperando, no mínimo, encontrar a casa no mesmo estado em que deixou.

Mas não estava.

Estava pior.

Muito pior.

Assim que abriu a porta, o cheiro veio primeiro.

Comida velha.

Ar fechado.

Algo esquecido em algum lugar.

Clara parou na entrada, olhando ao redor.

O chão estava sujo.

A mesa cheia de restos.

Garrafas espalhadas.

Ela deu um passo à frente, incredulamente.

— André?

Nenhuma resposta.

— Ricardinho?

O som de um videogame veio da sala.

Alto.

Despreocupado.

Ela seguiu até lá.

Ricardinho estava sentado no sofá, completamente concentrado na tela.

Com controle na mão.

Sem uniforme.

Sem mochila.

— O que é isso? — Clara perguntou, já sem paciência.

O menino nem tirou os olhos da televisão.

— O quê?

— Você não foi para a escola?

— Não.

Simples.

Direto.

Como se não fosse nada.

Clara sentiu a irritação subir de uma vez.

— Como assim não foi?

— O André disse que não tinha problema…

Ela travou.

— Cadê ele?

— Saiu.

— Saiu?

— Disse que voltava depois.

Clara olhou ao redor novamente.

A bagunça.

O cheiro.

O filho completamente largado.

Nada daquilo fazia sentido.

Nada daquilo funcionava.

Ela passou a mão no cabelo, tentando organizar os pensamentos.

Aquilo não era apenas desorganização.

Era negligência.

E ela sentiu algo diferente.

Não era só irritação.

Era… falta.

Não de alguém.

Mas do que alguém fazia.

Ricardo.

Clara pegou o celular e ligou para ele de novo.

Chamou.

Chamou mais uma vez.

Nada.

Nenhuma resposta.

Nenhum retorno.

Como se ele simplesmente tivesse desaparecido.

Ela desligou, irritada, e jogou o celular sobre a mesa.

— Isso já está passando do limite…

Mas, no fundo, sabia que não era sobre limite.

Era sobre controle.

E ela estava perdendo.

Foi então que a campainha tocou.

O som ecoou pela casa inteira.

Alto.

Claro.

Inesperado.

Clara levantou o olhar na mesma hora.

O coração acelerou sem motivo aparente.

Por um segundo, ela soube.

Ou quis acreditar que sabia.

Ela caminhou até a porta, ainda com a respiração presa.

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