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CAPÍTULO 2 – O HOMEM QUE ELE ERA

O carro parou diante do prédio de vidro espelhado.

Alto. Imponente. Intocável.

Durante anos, Ricardo evitou aquele lugar como se fosse um passado que precisava ser enterrado.

Agora, ele voltava como se nunca tivesse saído.

O motorista desceu primeiro e abriu a porta traseira.

— Chegamos, senhor.

Ricardo não respondeu de imediato.

Seus olhos permaneceram fixos na entrada do edifício. Pessoas entravam e saíam em ritmo acelerado, seguranças posicionados com rigidez, funcionários com postura alinhada.

Nada ali era simples.

Nada ali era leve.

Era exatamente o oposto da vida que ele construiu ao lado de Clara.

Ele saiu do carro.

O som dos sapatos no chão foi firme, decidido. Cada passo parecia mais pesado do que o anterior, mas não por hesitação. Era adaptação.

Ele estava voltando ao mundo onde cada gesto tinha peso, cada palavra tinha consequência e cada erro custava caro.

E dessa vez, ele não tinha intenção de errar.

Assim que cruzou a porta principal, o ambiente mudou.

O ar parecia mais frio. Mais controlado.

A recepcionista levantou os olhos, pronta para seguir o protocolo, mas congelou no meio do movimento.

O rosto dela perdeu a cor por um segundo.

— Senhor… Santos?

Ricardo não parou.

Não respondeu.

Mas aquilo foi suficiente.

Em poucos segundos, o nome dele já corria pelo prédio.

Ele atravessou o saguão sem desviar o olhar, ignorando os olhares que surgiam ao redor. Alguns surpresos, outros tensos, outros claramente desconfortáveis.

Ele não precisava ouvir para saber o que estavam pensando.

Precisava apenas existir ali.

O elevador foi aberto antes mesmo que ele se aproximasse.

Um dos diretores o aguardava lá dentro.

— Senhor Ricardo… não esperávamos…

Ricardo entrou sem interromper o homem, que imediatamente se calou.

O silêncio que se seguiu foi pesado.

O elevador subiu lentamente, andar por andar, enquanto o reflexo dos dois se mantinha fixo nas paredes espelhadas.

O diretor tentou falar novamente.

— Nós estávamos lidando com algumas questões internas, mas acreditamos que—

— Eu resolvo.

A voz de Ricardo foi baixa.

Mas não deixou espaço para continuação.

O homem assentiu, engolindo qualquer explicação que ainda pretendia dar.

O restante do trajeto foi em silêncio.

Quando as portas se abriram, o andar inteiro já estava em alerta.

Funcionários pararam o que estavam fazendo. Alguns se levantaram, outros apenas observaram.

Era como se todos tivessem sido avisados ao mesmo tempo.

Ele voltou.

Ricardo caminhou direto até a sala principal.

A porta foi aberta antes que ele precisasse tocar.

Dentro, uma mesa longa, ocupada por homens que não pareciam confortáveis com a presença dele.

O conselho.

O mesmo grupo que havia aceitado a decisão dele anos atrás sem questionar.

Agora, nenhum deles parecia disposto a repetir o erro.

— Senhor Santos — um dos mais velhos começou, tentando manter a formalidade — ficamos sabendo que o senhor… recuperou a audição.

Ricardo puxou a cadeira na cabeceira da mesa e se sentou.

— Não é um assunto para discussão.

A resposta foi direta.

Sem espaço para curiosidade.

Sem espaço para análise.

O homem assentiu, recuando.

Outro tomou a palavra.

— A empresa enfrentou algumas instabilidades nos últimos meses. Sem sua presença, algumas decisões—

— Eu disse que resolvo.

Dessa vez, ele não elevou a voz.

Mas ninguém ousou continuar.

Ricardo apoiou os braços sobre a mesa, os olhos passando por cada um deles com calma calculada.

Eles não estavam acostumados com isso.

Não com essa versão dele.

Antes, ele era o herdeiro que não queria o poder. O homem que escolheu sair.

Agora…

Era alguém que não precisava provar nada.

— A partir de hoje, todas as decisões passam por mim — ele declarou.

Ninguém contestou.

Ninguém questionou.

Porque todos sabiam o que aquilo significava.

Controle total.

Ricardo se levantou, encerrando a reunião sem cerimônia.

— Revisem tudo o que foi feito na minha ausência. Eu quero relatórios completos até amanhã.

Ele não esperou resposta.

Não precisava.

A porta da sala se fechou atrás dele.

O corredor estava vazio agora.

Finalmente, silêncio.

Mas não o silêncio de antes.

Esse era diferente.

Era escolha.

Ricardo caminhou até a janela no fim do corredor e parou.

A cidade se estendia abaixo dele, iluminada, distante, quase indiferente.

Por um instante, a imagem de Clara passou pela mente dele.

O sorriso.

A voz.

As palavras.

Ele fechou os olhos.

E deixou aquilo ir.

Não havia mais espaço para aquilo na vida dele.

Não naquele mundo.

Não naquela versão dele.

Quando abriu os olhos novamente, não havia mais dúvida.

Ricardo Santos estava de volta.

E dessa vez…

Ele não voltaria a ser deixado para trás.

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