Capítulo 3

Helena Evelyn

Eu já estava arrependida antes mesmo de pisar na passarela.

Luzes fortes e música alta ecoavam por todos os lados.

Havia gente rica, joias brilhando e taças de champanhe no ambiente.

E eu ali, de calcinha e sutiã, tentando parecer confiante.

Minha alma só queria fugir correndo de volta pro interior da Bahia.

Eu sentia uma vergonha danada de estar quase nua na frente de estranhos.

Minha mãe na roça Infartaria se me visse assim.

A assistente de palco me empurrou delicadamente.

— É a sua vez, Valentina. Vai!

Respirei fundo.

Apertei as mãos, engoli o choro e dei o primeiro passo.

O chão da passarela parecia liso como espelho.

Eu jurava que não ia olhar na direção de ninguém.

Jurei pra mim mesma, pra Nossa Senhora e pra todos os santos.

Mas assim que avancei sob os flashes, eu senti.

O olhar.

Pesado, quente, irritante.

Um olhar que queimava na minha pele mais do que os refletores.

Levantei o queixo e fingi que era poderosa.

Fingi que estava acostumada a desfile de lingerie.

Encontrei os olhos dele bem ali, na primeira fila.

Claro.

Onde mais aquele infeliz estaria?

Nathan Keen.

Pernas abertas, braço jogado no encosto da cadeira.

Terno escuro bem cortado e barba por fazer.

Ele ostentava aquele sorriso de canto insuportável.

Como se o mundo inteiro fosse um brinquedo particular dele.

E como se eu fosse a atração principal desse circo.

“Não tropeça, Helena”, implorei a mim mesma em pensamento.

“Se tropeçar na frente desse homem, você se j**a do palco e não volta nunca mais.”

Cada passo do salto alto parecia ecoar direto no meu peito.

Eu me obriguei a olhar pra frente, pra câmera no fundo do corredor.

Mas a verdade é que meus olhos voltavam pra ele como teimosos.

Aquele olhar avaliador.

O olhar de quem acha que tem o direito de julgar tudo o que vê.

A vontade que me dava era de arrancar o salto agulha e cravar na cara dele.

Quando finalmente saí da passarela, minhas pernas tremiam por inteiro.

Aplausos ecoavam atrás de mim, junto com gritos de fotógrafos.

Mas tudo o que eu conseguia ouvir era a minha própria cabeça gritando.

“Por que esse homem tem que ser tão bonito, meu Deus?”

“Não podia ser feio? Careca? Barrigudo?”

“Tinha que ter esse cheiro de perfume caro e esse ar de pecado?”

Sentei numa cadeira do camarim, tentando fazer o coração acalmar.

Mas não durou dois minutos a minha paz.

Uma assistente de produção apareceu com uma prancheta na mão.

— Valentina? — ela chamou, olhando pra mim.

— O senhor Keen pediu pra você ir pro setor de figurino assim que terminasse.

Estranhei na hora.

— Fazer o quê?

— Organizar todas as peças que foram usadas no desfile de hoje.

— Dobradas, etiquetadas e separadas por tamanho no estoque.

Fiquei olhando pra moça, achando que era piada de mau gosto.

— O quê? Eu sou modelo da marca, não arrumadeira!

A moça deu um sorriso sem graça e deu um passo para trás.

— Foram as ordens diretas do CEO, querida. Sinto muito.

O sangue subiu para o meu rosto na mesma hora.

A raiva queimou meu peito.

Claro.

Claro que era isso.

O desgraçado do Nathan Keen achou um jeito de me castigar.

Ele queria me punir pelo tapa que eu dei nele no saguão.

Em vez de me mandar embora, decidiu me humilhar me transformando em servente.

— Esse homem só pode estar pedindo pra levar outro tapa — resmunguei.

Ajeitei o rolo de roupa surrada que eu tinha trazido e fui pro depósito.

Aquele homem achava que ia dobrar minha espinha?

Ele não conhecia a baiana que tinha cruzado o caminho dele.

O depósito de figurino parecia um campo de guerra.

Rendas, sutiãs, cintas e cabides espalhados pelo chão inteiro.

A poeira do estoque fazia meu nariz coçar.

Respirei fundo e peguei o primeiro monte de lingerie cara.

Enquanto dobrava uma calcinha rendada mínima, eu o xingava mentalmente.

Canalha.

Arrogante.

Galinha.

Magnata de meia tigela.

Lembrei da cena da bofetada que dei nele no primeiro dia.

Do rosto surpreso dele, da marca vermelha virando na pele clara.

Do silêncio sepulcral no salão inteiro.

Do meu coração batendo na garganta.

Qualquer pessoa com juízo teria se encolhido de medo.

Mas eu não.

Eu o encarei e levantei o queixo.

Ele achou que eu era lixo só porque vim da roça e estava de roupa simples.

Dobrei mais um sutiã de renda preta e empilhei na prateleira.

Quanto mais eu organizava, mais minha cabeça girava nele.

Eu odiava Nathan Keen.

Odiava o jeito como ele andava.

Odiava o tom de voz autoritário.

Odiava a forma como olhava pras pessoas de cima para baixo.

Mas, acima de tudo, eu odiava o que ele provocava em mim.

Porque, desde o dia daquele tapa, eu não conseguia tirar o rosto dele da cabeça.

A altura. Os ombros largos.

Aquele perfume amadeirado que impregnou o ar quando ele chegou perto.

Uma calcinha caiu da minha mão porque minhas mãos tremeram de raiva.

Abaixei pra pegar do chão quando ouvi passos no corredor do depósito.

Passos firmes, sapatos de couro estalando no piso limpo.

— A produção já recolheu todo o material do desfile? — a voz ecoou.

Reconheceria aquela voz em qualquer canto do mundo.

Voz grave, rouca, cheia de uma autoridade natural que dava raiva.

Engoli seco no mesmo instante.

Encolhi-me atrás das araras cheias de vestidos e mantive a respiração presa.

Ele não entrou no depósito.

Só passou pelo corredor conversando com alguém da equipe.

Mesmo assim, meu corpo inteiro ficou em alerta máximo.

Como se um predador perigoso estivesse rondando minha gaiola.

Fiquei imóvel até o som dos passos sumir completamente.

Quando o silêncio voltou, eu me soltei contra a parede, exausta.

Era isso que ele fazia comigo.

Ele me deixava em estado de guerra o tempo todo.

Não importava se estava perto ou longe.

Minha mente vivia girando em torno dele.

Girava pra odiar, pra planejar respostas afiadas, pra imaginar formas de pisar nele de volta.

Terminei de organizar as peças já era quase noite.

Minhas costas doíam, meus pés queimavam por causa do salto.

Quando finalmente saí da agência, o ar frio da rua bateu no meu rosto.

Peguei o metrô lotado até o apartamento que dividia com as outras garotas.

Cheguei lá caindo de cansaço.

Fiz uma pizza congelada no forno e comi três fatias de uma vez só.

Comi com raiva, mastigando como se estivesse mastigando o orgulho de Nathan.

Só quem já passou fome de verdade sabe a benção que é ter o que comer.

Mas nem a comida tirava o peso do meu peito.

Fui pro banheiro, tomei um banho quente bem demorado.

Deixei a água lavar a maquiagem pesada e o cansaço do desfile.

Coloquei meu pijama velhinho de malha, com estampa de bichinho.

Joguei-me na cama e abracei o travesseiro com força.

O quarto estava escuro e silencioso.

— Eu odeio esse homem — murmurei para o teto.

— Odeio, odeio, odeio com todas as minhas forças.

Repiti as palavras como se fossem uma reza pra me proteger dele.

Pra lembrar a mim mesma de quem ele era: o inimigo.

O chefe arrogante que queria me ver por baixo.

O homem rico que achava que tudo tinha preço.

Só que, quando fechei os olhos e o sono finalmente me venceu...

Não foi a lembrança da raiva que apareceu no meu sonho.

Foram os olhos dele.

Escuros, intensos, dominantes.

E, no sonho, eu não estava erguendo a mão para dar um tapa.

Eu estava chegando perto demais.

Perto o suficiente para sentir o calor do corpo dele contra o meu.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App