O Peso do Compromisso

Átila

Observo Sasha se afastar lentamente, cada passo dela carregado de uma dignidade que me desarma. Ela captura meu olhar uma última vez, e vejo ali um misto perturbador de admiração relutante e um fascínio que ela tenta, desesperadamente, esconder. Ela é tão jovem, uma flor que mal desabrochou, e ainda assim demonstra uma força de caráter e uma determinação que raramente encontro em qualquer pessoa do meu convívio, muito menos em alguém da sua idade. Tento, sem sucesso, varrer suas palavras cortantes dos meus pensamentos — "você não me tocará" — mas elas permanecem ali, ecoando como uma afronta silenciosa que rasga o tecido do meu brio e desafia a imagem de homem inabalável que construí.

Esforço-me para me envolver na festa que ruge ao meu redor, para ser o noivo que todos esperam, mas as palavras dela são como um zumbido constante em meus ouvidos. Dirijo-me a um grupo de amigos de longa data, buscando o conforto da familiaridade e tentando mergulhar nas conversas triviais sobre negócios, barcos e mulheres. No entanto, a tensão palpável que ficou suspensa no ar entre Sasha e eu continua puxando meus pensamentos de volta para ela, como um imã poderoso. Cada risada alta e cada palavra trocada ao meu redor tornam-se um ruído branco, distante e sem sentido, enquanto a imagem dela, com aquele olhar de desafio, se recusa a abandonar minha mente.

Tento sorrir, forço uma expressão de interesse genuíno no que os outros estão dizendo, mas é um teatro cansativo. Sinto como se meu coração estivesse preso em um lugar que meus pés não podem alcançar, ancorado naquela pequena mulher que acaba de me declarar guerra em plena noite de núpcias.

Meus amigos, que me conhecem bem demais para serem enganados por uma máscara, percebem meu estado de espírito errante. Kostas, sempre o mais observador do grupo, solta uma risada leve e sarcástica, dando um gole em seu uísque.

— Parece que nosso amigo Átila está um pouco distraído esta noite — comenta ele, lançando um olhar sugestivo em direção à Sasha. — Onde está o grande predador que conhecemos?

Forço um sorriso enviesado e tento entrar na brincadeira, tentando desviar o foco da minha vulnerabilidade.

— Sim... é muita coisa para processar — respondo, a voz saindo mais rouca do que eu pretendia. — Eu nem acredito que estou realmente me casando, ainda que todos saibam que é um contrato de conveniência.

Kostas observa Sasha do outro lado do salão, seus olhos cheios de uma curiosidade indisfarçável.

— Eu tinha certeza de que, mais cedo ou mais tarde, seu tio daria um jeito em você, Átila. Ele finalmente encontrou a coleira certa — ele faz uma pausa, medindo as palavras. — Mas eu tenho que admitir... ela é bem nova, não é? Quase uma criança.

O comentário me atinge como um soco. Sim, esse fato me incomoda profundamente, mais do que eu gostaria de admitir em voz alta. A diferença de idade é um abismo que me faz sentir como um aproveitador, mesmo que a decisão tenha sido tomada para salvar Leo. Contudo, dou de ombros com uma indiferença ensaiada, não querendo revelar a confusão que reina em meu peito.

Outro amigo, Niko, aproxima-se e me dá um tapinha pesado nas costas, aquele tipo de gesto que homens fazem para esconder a seriedade de uma conversa.

— Átila, todos aqui sabemos que você não tem coração e que nunca levou muito jeito para compromissos sérios. Você é um espírito livre, um nômade emocional. O que será dessa garota nas suas mãos? Você vai quebrá-la antes do primeiro mês?

Todos ao redor riem, uma risada ruidosa que ecoa pelo salão, mas a piada me atinge muito mais fundo do que eu gostaria de confessar. Ela toca na ferida aberta da minha reputação, na imagem de "bastardo sem alma" que meu tio ajudou a cultivar. Tento disfarçar o desconforto crescente com um sorriso cínico, mas minhas mãos se fecham em punhos dentro dos bolsos do terno.

Kostas se aproxima mais, apoiando o braço no meu ombro e olhando fixamente para minha, agora oficialmente, esposa. Sua voz baixa ganha um tom de conselho quase fraternal.

— Você tem a chance de ouro aqui, meu amigo. A chance de deixar de ser esse "bastardo" solitário e se entregar de vez a uma emoção real. A garota é deslumbrante, tem fogo nos olhos. Aproveite o que é seu por direito e faça cada momento valer a pena. Não deixe que o contrato tire a paixão da jogada.

— Sim, é exatamente nisso que tenho pensado — respondo, e pela primeira vez na noite, sinto uma clareza cortante. — Agora sou um homem casado e vou levar este compromisso a sério. Não sou mais o homem que vocês conheceram ontem.

Kostas parece me levar a sério, vendo algo em meu olhar que o faz recuar um passo. No entanto, alguns dos meus outros amigos explodem em gargalhadas, tratando minha declaração como a maior piada da noite. A conversa segue entre eles, com apostas sendo feitas abertamente sobre quanto tempo conseguirei ser fiel ou se vou fugir para o primeiro porto seguro na próxima semana.

Mas minha atenção já não está neles. Meus olhos buscam novamente a jovem que é minha esposa. Ela está lá, cercada por flores e luzes, uma fortaleza de dezoito anos que me desafiou. E eu percebo, com uma intensidade assustadora, que Kostas tem razão em uma coisa: eu vou fazer valer a pena. Mas não da forma que eles imaginam. Eu vou conquistar o respeito dessa mulher, nem que seja a última coisa que eu faça. Ela pode dizer que eu não a tocarei, mas ela não disse nada sobre eu não poder ganhar seu coração.

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