Mundo ficciónIniciar sesiónPetros
O silêncio na mansão Lykaios nunca fora tão silenciosa. Com o coração esmagado por uma dor que parecia ter garras, encontro-me no antigo quarto de Ícaro, um lugar que eu evitara como se as próprias paredes pudessem me acusar. O ar aqui dentro ainda carrega um resquício do perfume dele, uma mistura de cítricos e juventude que me faz vacilar. Reviro os documentos que ele deixou para trás, papéis espalhados em uma gaveta de sua escrivaninha de carvalho que, até agora, eu não tivera coragem ou cabeça para enfrentar. Entre relatórios de hotéis e extratos bancários sem importância, um objeto em particular me gela o sangue: um caderno de capa preta, discreto, mas que parece vibrar com uma energia sombria.
Enquanto minhas mãos, agora irreconhecíveis pela tremedeira da idade e do sofrimento, folheiam as páginas amareladas, uma angústia avassaladora e gélida se apodera de mim. Cada palavra escrita com a caligrafia apressada e elegante de Ícaro revela uma faceta de sua alma que eu, em minha arrogância de pai e patriarca, nunca me permiti conhecer. Ali estão suas lutas internas, suas dores silenciosas e segredos tão profundos que parecem abismos. É como se um véu de ignorância fosse arrancado violentamente diante dos meus olhos, revelando a verdadeira e devastadora extensão da batalha que meu filho travava sozinho, sob o teto da minha própria casa.
As páginas sangram confissões. Ele descreve, com uma paixão que me faz arder de vergonha, seu amor por Elena. Uma mulher que eu, sem nunca ter olhado nos olhos, desaprovei com o peso de mil decretos. Ele narra a pressão sufocante que enfrentava para se moldar às minhas expectativas familiares, para ser o herdeiro perfeito de um império que ele talvez nem quisesse. As ameaças que disparei contra ele, a promessa gélida de deserdá-lo caso ousasse escolher o amor em vez da linhagem, ecoam agora em minha mente atormentada como gritos de um arrependimento que não encontra consolo. E então, a notícia que me faz perder o fôlego: Elena estava esperando um filho dele. O golpe é devastador. Ícaro sabia que, mesmo se eu soubesse da gravidez, minha reação teria sido de desprezo e descrença. Eu teria rotulado a situação como um "golpe da barriga", uma armadilha de uma mulher oportunista. Minha própria intolerância o calou, e esse silêncio foi o começo do seu fim.
Continuo a ler o diário, as letras borrando-se diante dos meus olhos que teimam em não acreditar no que veem. Mais uma revelação surge, como uma lâmina afiada: Elena voltara a morar com a família e morrera no momento do parto. Ícaro narra esse acontecimento como o seu próprio funeral em vida. Para ele, aquele foi o golpe mortal, a destruição de qualquer esperança de felicidade. Ele se sentia um náufrago em um oceano de culpa, sem bússola e sem terra firme.
Eu sempre fui um homem de princípios rígidos, um grego da velha guarda que acreditava piamente estar fazendo o melhor para proteger nossa família e a integridade do nosso legado. Ergui muros de preconceitos e julgamentos, convencido de que minha visão era a única correta. A ideia de meu filho se envolver com alguém que eu não considerava "à altura" dos Lykaios era insuportável, uma mancha que eu não permitiria. Estava cego pela minha própria intransigência, uma cegueira alimentada pelo orgulho. Achava, em minha infinita ignorância emocional, que os sentimentos dele pela moça seriam passageiros, uma fase que o tempo e a distância se encarregariam de apagar. Quão enganado eu estava.







