Nossos pais vão querer se livrar dele

Essa rejeição feriu a alma de Elena de forma irreparável, deixando-a em um estado de desamparo emocional que me partia o coração. Ela se viu, de repente, confrontada com os escombros de um relacionamento em que acreditara e com a perspectiva aterrorizante de criar um filho sozinha, em um mundo que ela agora via como hostil. A quantia oferecida por Ícaro foi recebida como o insulto que era, e Elena a recusou com um desprezo digno, rejeitando qualquer migalha que viesse de um homem que fora capaz de virar as costas para o próprio sangue.

Lembro-me de tê-la abraçado com tanta força que achei que poderia absorver sua dor para dentro de mim. Sentia sua frustração, seu desespero e o tremor de seu corpo enquanto ela tentava processar aquela nova e amarga realidade. Naquele momento, sob o céu estrelado da Grécia que parecia agora tão indiferente, prometi estar ao seu lado em cada passo, em cada tropeço, oferecendo todo o apoio emocional e prático que minhas mãos pudessem prover.

Voltamos todos para nossa mansão em Surrey, esperando encontrar um porto seguro. Mas, ao contrário do que a lógica do amor familiar ditaria, nossos pais não abriram os braços para acolher a filha ferida. Em vez disso, imersos em suas origens gregas e profundamente acorrentados às aparências, eles desaprovaram severamente a gravidez de Elena fora do casamento. A preocupação com a reputação impecável da família e com o que os círculos sociais diriam pesou mais do que o sofrimento de Elena. A rejeição deles foi um golpe de misericórdia em seu estado emocional já fragilizado. Eles a culparam por sua "imprudência", rotulando seu amor como um erro de julgamento e recusando-se a oferecer qualquer migalha de compreensão ou carinho.

Minha mãe chegou ao ponto de redecorar um dos quartos de hóspedes, mas não se engane: não foi um gesto de acolhimento. Foi uma tentativa desesperada de esconder a "vergonha" que ela acreditava que Elena trouxera para dentro de casa. O quarto, adornado com uma cama king size imponente e cortinas de seda pesadas, era mais uma fachada, uma prisão dourada, do que um verdadeiro lar para minha irmã. Cada detalhe daquela decoração luxuosa refletia a frieza e a falta gritante de empatia de nossos pais, que pareciam mais preocupados com o brilho dos lustres do que com o brilho que se apagava nos olhos de Elena.

Com a chegada iminente do bebê, minha preocupação crescia a cada dia, tornando-se uma sombra constante. Eu sabia que Elena precisava de muito mais do que um teto de seda sobre sua cabeça. Precisávamos preparar o mundo para Leonardo, o que significava mergulhar em um universo de roupas minúsculas, fraldas, berços e carrinhos. A pressão era esmagadora. Mesmo com os vastos recursos financeiros da nossa família, a ausência total de apoio emocional de nossos pais tornava cada pequena tarefa um fardo hercúleo. Eu fazia cada compra com um cuidado meticuloso, depositando em cada item todo o amor que nossos pais negavam, tentando preencher a lacuna deixada pela ausência de Ícaro e pelo silêncio hostil da nossa própria casa. Eu queria criar um santuário para minha irmã e seu filho.

Enquanto os meses passavam, observei a barriga de Elena crescer, cada curva tornando-se uma lembrança tangível do milagre que insistia em florescer em meio ao caos. Testemunhei sua transformação física com uma mistura de admiração e um medo constante, ciente de que cada novo dia trazia incertezas que ela mal conseguia carregar. Elena parecia estar sempre sob o peso de algo invisível, ansiosa, perdida em pensamentos que eu não conseguia alcançar. Seus sorrisos, que antes eram o sol da nossa casa, tornaram-se raridades, substituídos por uma expressão de cansaço profundo e uma preocupação que parecia ter criado raízes em seu rosto.

Era dilacerante ver minha irmã lutar contra seus próprios demônios internos enquanto carregava o fardo de uma gravidez que, embora amada, fora marcada pela traição. Ela parecia mais etérea, mais frágil a cada pôr do sol, mesmo com todo o carinho que eu tentava despejar sobre ela. Sua voz, antes firme, agora tremia sempre que falava sobre o futuro, sobre o medo de ser mãe solteira em uma casa que a via como uma desonra.

Os dias finais da gravidez foram marcados por uma tensão quase insuportável. A ansiedade de Elena atingira o ápice. Suas noites eram povoadas por insônias e sua falta de apetite era um sinal alarmante que os médicos pareciam ignorar. Eu a via lutando em silêncio, tentando manter a sanidade e a força para o bem do pequeno ser que chutava em seu ventre, alheio às batalhas que já eram travadas em seu nome.

Então, o dia chegou. As contrações começaram como um sussurro e logo se tornaram um grito. Acompanhei-a até o hospital, minhas mãos nunca soltando as dela, tentando transmitir uma força que eu mesma não tinha certeza se possuía. O ambiente hospitalar, com seu cheiro de antisséptico e o som frenético de passos, parecia um cenário de guerra. Médicos e enfermeiros moviam-se com uma urgência que me gelava o sangue.

Conforme as horas se transformavam em uma eternidade de dor, a situação tornou-se crítica. Elena estava exausta, drenada de toda a sua energia, mas sua determinação em trazer Leonardo ao mundo era a única coisa que a mantinha consciente. Seu olhar, embora turvo pela dor, era de uma resolução absoluta.

Finalmente, em meio ao esforço hercúleo que parecia consumir suas últimas forças, Elena deu à luz. Mas o triunfo foi curto. Sua fraqueza era evidente, uma palidez mortal tomando conta de seu rosto. Os médicos lutaram desesperadamente para estabilizá-la, as máquinas apitavam em um ritmo frenético, mas o destino parecia já ter selado sua sentença. Sua respiração tornava-se cada vez mais superficial, um fio tênue que se soltava da vida.

Enquanto a equipe médica se desdobrava em manobras de ressuscitação, eu me encolhi em um canto, orando a um Deus em quem eu tentava acreditar, implorando para que ela ficasse, para que não me deixasse sozinha com aquele peso. Mas, apesar de toda a ciência e de todas as preces, a vida de Elena escapava por entre meus dedos, deixando um vácuo imenso, uma dor que eu sabia que me acompanharia até o meu último suspiro.

Naquele momento final, quando o mundo parecia ter parado de girar, ela reuniu o que restava de sua consciência. Segurou minha mão com uma força surpreendente para alguém tão debilitada e sussurrou as palavras que se tornariam o meu norte:

— Nossos pais... eles querem se livrar dele, Sasha. Não permita. Eu sei... sei que você é muito nova, que tem apenas dezoito anos e um mundo pela frente... mas por favor, fique com ele. Prometa.

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