Mundo de ficçãoIniciar sessãoAurora Whitmore
Eu não precisei de apresentações, porque o sobrenome dele carregava um tipo de fama silenciosa e difícil de ignorar, até porque, a reação do motorista que me deixou aqui não foi nada amistosa ou agradável. E realmente o que vejo diante dos meus olhos só serve para confirmar as minhas suspeitas. Magnus Blackwood parece ser tudo, menos um ser gentil e humano. Diante de mim estava um homem alto, com ombros largos e uma postura rígida que arrepiou a minha espinha. Ele usava um terno escuro de três partes, apesar do calor intenso daquele lugar, até parecia que o clima não tinha permissão para desobedecê-lo. O rosto dele tinha uma expressão fechada, era marcado por linhas de tensão que não vinham da idade, mas de algo mais profundo. Esse homem não conseguiria erguer todo esse império por ter fama de bondoso ou por ter colecionado momentos felizes na sua trajetória, mas por ter sido exatamente o contrário, e a frieza no jeito e na postura dele deixam isso evidente. Magnus Blackwood era um homem muito bonito e que marcava presença onde estivesse, e isso era algo indiscutível, mas o que realmente me chamou a minha atenção nele foi o olhar frio, calculista e ao mesmo tempo cansado. Será que ele havia desistido de viver? Ou é apenas mais um desses homens que imaginam ser os donos do universo? O que existe por trás dessa muralha que ele ergueu para si mesmo? Será que ele é tão perverso como dizem? Infelizmente eu não tive tempo de ter uma resposta para as minhas perguntas, porque fui obrigada a voltar para a minha realidade ao ouvir a voz autoritária do senhor das trevas. — Senhorita Whitmore — Magnus disse, com a voz grave e sem emoção. — Chegou pontualmente. Aquilo não foi uma pergunta, e sim, uma constatação. Ele estava tentando brincar comigo, e eu sabia disso. Só que o que ele não imaginava, é que nessa longa estrada da vida eu também aprendi a lidar com touro brabo, e modéstia a parte, eu sempre me saí muito bem. — Cheguei — respondi friamente, erguendo o queixo sem pensar, porque algo nele me fazia querer não recuar. Ele me avaliou de cima a baixo, sem disfarçar. Era óbvio que não tinha interesse naquele olhar, havia apenas análise, como se eu fosse mais um item a ser classificado, aprovado ou descartado. "Esse homem me dá calafrios, mas se ele pensa que vou baixar a guarda, está muito enganado." — Espero que saiba onde está se metendo — ele completou mostrando o que eu já desconfiava, e agora foi a minha vez de examiná-lo de cima abaixo. Ele percebeu o meu olhar, mas não pode dizer nada, porque Emily correu até ele e segurou sua mão. Naquele instante até senti um alívio, confesso, porque eu não sabia o que viria depois. — Ela consertou minha boneca, papai. Eu não tinha consertado coisa nenhuma, mas sorri mesmo assim. Porque o que menos Emily precisava naquele momento era de mais frieza. O olhar do senhor das trevas suavizou por um segundo ao descer até a filha, mas foi algo rápido, quase imperceptível, porém eu vi, e foi ali que percebi que por trás da armadura de homem inabalável havia algo quebrado que talvez fosse difícil de consertar. — Entre — disse ele mais frio do que um iceberg, me lançando um meio olhar mortal, já se afastando. Atravessei a porta sentindo como se estivesse cruzando uma fronteira invisível. As minhas pernas tremiam de uma maneira incontrolável, os batimentos do meu coração estavam descompensados, e eu sentia que estava prestes a entrar no matadouro de tão frio que aquele homem era. Ao entrar tentei me tranquilizar observando todos os detalhes, e me surpreendi porque o interior da casa era ainda mais impressionante do que por fora. Tudo ali era gritava de luxo, era grande, elegante e imensamente silencioso, e isso era o que mais me incomodava, porque cresci no orfanato cercada por muitas crianças e silêncio era algo difícil de existir por lá, e estar em um lugar quieto demais me transmitia uma sensação ruim: de abandono. Os móveis da mansão eram escuros, tinham quadros antigos espalhados pelas paredes, cheiro de madeira antiga e algo que me quebrava por dentro e me lembrava ausência: era luto. A palavra veio clara demais à minha mente, e isso me assustou, porque saber que uma criança estava crescendo nesse tipo de ambiente me deixou dilacerada por dentro. Emily subiu para o quarto, enquanto o senhor das trevas dava ordens aos funcionários e comunicava algo ao meu respeito, com certeza estava dizendo para ninguém tirar os olhos de cima de mim, e se algo de valor desaparecer da casa era para chamar o xerife imediatamente. Confesso que essa hipótese me fez sorrir mentalmente, porque gente rica tem dessas loucuras quase sempre, basta ver gente menos favorecida para tachar como ladrão ou ladra. Enquanto uma funcionária me conduzia até o quarto onde eu ficaria, senti a estranheza crescer. Aquela não era a minha vida e eu não era daquele mundo. Eu não falava baixo, não andava em linha reta, não sabia obedecer regras que não faziam sentido, e ainda assim, ali estava eu sozinha em um quarto enorme, com uma cama grande demais e janelas que davam para um campo sem fim. Sentei na beirada do colchão e soltei um suspiro longo. O silêncio voltou a me envolver pesado como o calor do lado de fora. — O que você está fazendo aqui, Aurora? — murmurei para mim mesma. — Ainda dá tempo de ir embora. Mas eu não tinha certeza da resposta, porque tudo o que eu sabia era que o Texas não estava nos meus planos, mas, de algum jeito, eu tinha acabado de entrar na vida de um homem que parecia não saber mais como viver e de uma criança que precisava desesperadamente de alguém que ficasse. E, pela primeira vez desde que aceitei aquele trabalho, senti que sair dali talvez não fosse tão simples quanto eu imaginava.






