Mundo de ficçãoIniciar sessão
Me chamo Aurora Whitmore. Tenho 22 anos, olhos castanhos claros, aproximadamente 1,70m de altura, não sou magérrima, mas também não estou a nível de ser uma modelo, tenho algumas curvas que procuro esconder o máximo que posso, primeiro pela minha profissão que envolve crianças, e segundo, a última coisa que eu quero é chamar atenção de homens, até porque não tenho boas recordações quanto a isso. Cresci dentro do orfanato "Ravenwood Orphanage", portanto a única família que conheci foram as freiras e as crianças que cresceram comigo acreditando que algum dia teriam pais e um lar de verdade. Enfim, hoje sou adulta, e seu muito bem que viver de ilusões não nos levam a lugar algum, somente nos empurram para mais distante da realidade.
Mas, voltando ao que interessa, ir parar no Texas não estava nos meus planos. Na verdade, nada naquela manhã fazia sentido dentro do que eu imaginava para a minha vida alguns meses atrás. Eu deveria estar em uma cidade pequena, trabalhando em uma escola infantil, reclamando do meu salário e rindo alto demais com colegas que fingiam ter tudo sob controle. Eu não deveria estar descendo de um ônibus empoeirado, com o sol queimando a pele e uma mala surrada como única companhia, encarando um horizonte que parecia não ter fim. Mas, infelizmente, nem tudo na vida acontece do jeito que desejamos, e pelo fato de ficar desempregada, fui obrigada a me agarrar na primeira oportunidade que surgiu. Contudo, torno a repetir, que vir parar justamente no Texas para cuidar de uma criança pequena que perdeu a mãe e ainda por cima enfrentar tantos obstáculos, literalmente, não estava nos meus planos. Mas a vida tem dessas coisas, e agora, sem saída, me vejo nesse labirinto com a sensação de que nada será fácil e muitas coisas mudarão por aqui, e talvez isso inclua a minha vida. Respiro fundo enquanto secava o rosto com uma toalha de mão, porque o calor naquele lugar era diferente, não era só quente, era pesado, seco, quase autoritário, como se o próprio lugar exigisse respeito. Fechei os olhos por algum instante sentindo o ar quente invadir meus pulmões, e tentei ignorar o aperto no peito que vinha desde a noite anterior. Aquela sensação incômoda de que eu estava entrando em um território que não me pertencia e que talvez me arrependeria por isso. O motorista do táxi mal falou comigo durante o trajeto até o rancho. Apenas confirmou meu nome, assentiu quando mencionei Blackwood e acelerou pela estrada de terra. Quanto mais avançávamos, mais distante o mundo parecia ficar. Não existiam casas vizinhas e nenhum movimento. Apenas campos extensos, cercas intermináveis e, ao longe, estruturas metálicas que eu reconheci como torres de petróleo cortando o céu azul sem nuvens. — É aqui, moça — o motorista disse sem ânimo, parando diante de um portão enorme de ferro escuro e me olhando de um jeito estranho, como quem diz: Tem certeza que vai ficar? — Sim, eu vou ficar — responde, e o homem me encarou mais estranho ainda, como se diante dele estivesse uma vidente, bruxa ou feiticeira que conseguia ler pensamentos. Dei de ombros. Porque de onde eu vim e depois de tudo que já passei nessa vida, esse lugar é um paraíso. Paguei a corrida, desci e fiquei ali parada, observando enquanto o carro se afastava, levantando poeira. O silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor. Eu só conseguia sentir o vento batendo no meu rosto e um farfalhar distante de árvores. De repente, o gigantesco portão se abriu lentamente, como se estivesse avaliando se eu merecia entrar. O Rancho Blackwood surgiu diante de mim como algo saído de um filme, grande e imponente. Se tratava de uma construção de pedra clara, sólida, com janelas altas e uma varanda extensa que parecia observar tudo ao redor. Sinto meu corpo inteiro arrepiar, porque aquilo não era uma casa, e sim um símbolo de poder, ou talvez uma prisão disfarçada de lar. Engoli em seco sentindo as minhas pernas bambas. — Agora é tarde para voltar, Aurora. Acredita, garota, que tudo vai dar certo — afirmo para mim mesma. Segurei a alça da mala com mais força e caminhei pelo caminho de pedras, sentindo cada passo ecoar dentro de mim. Eu me sentia pequena, ridiculamente pequena diante daquele lugar, como se estivesse errado no endereço e alguém fosse aparecer a qualquer momento para dizer que houve um engano, que eu não pertencia àquele lugar, e talvez eu não pertencesse mesmo. Antes que eu pudesse bater à porta principal, pude ouvir risadas. Era um som leve, infantil, deslocado naquele cenário rígido. Virei o rosto e vi uma garotinha correndo pelo jardim, segurando uma boneca sem um dos braços. Os cabelos loiros estavam presos em tranças mal feitas, e o vestido claro já tinha marcas de terra. Ela corria sozinha e isso bastou para que o meu coração apertasse de um jeito estranho. Eu me projetei naquela menina, por muitas vezes eu brinquei do mesmo jeito, sozinha, e mesmo sorrindo existia um vazio dentro de mim. Crianças não deveriam brincar sozinhas em lugares tão grandes, porque a solidão sempre parece maior do que ela. — Oi — falei, sem perceber que já estava me aproximando. Ela parou de correr e me olhou com curiosidade, sem medo. Tinha olhos claros, atentos demais para alguém tão pequena. — Você é nova babá? — ela perguntou, direta. Sorri sem jeito. — Acho que sim. E você deve ser a Emily. Ela abriu um sorriso orgulhoso. — Sou eu mesma. Papai disse que você ia chegar hoje. Ela disse papai, e o peso daquela palavra se assentou no meu peito antes mesmo de eu conhecer o homem por trás dela. — E onde o seu papai está? — perguntei. Emily deu de ombros. — Trabalhando. Como sempre. Ele trabalha muito. "Claro que trabalha, pensei." Homens como o pai dela sempre trabalham demais. Sempre têm algo mais importante do que ficar com o que realmente importa: a família. De repente a porta da casa se abriu atrás de mim, e senti antes de ver, a mudança no ar e a presença imponente. Virei devagar. Ele estava ali. Era ele... Magnus Blackwood.






