Mundo ficciónIniciar sesión
Eu só queria um emprego estável em qualquer cidade pequena onde pudesse cuidar de crianças sem chamar atenção de homens, mas o desemprego me empurrou para o Texas, para um rancho isolado, para cuidar da filha de um estranho rico cuja esposa morrera e cujo nome soava como uma ameaça.
Me chamo Aurora Whitmore. Tenho vinte e dois anos, olhos castanhos claros que sempre parecem cansados demais para a idade, um metro e setenta e um corpo que não é magro nem modelo. Tenho curvas que escondo de propósito: camisetas largas, calças jeans um número maior, cabelo preso em rabo de cavalo simples. Trabalho com crianças. A última coisa que quero é que algum homem olhe para mim e decida que sou interessante. As recordações que tenho de homens não são boas. Nenhuma delas. Cresci no Ravenwood Orphanage. As freiras eram a família mais próxima que tive. As outras crianças, irmãos temporários que partiam quando alguém os escolhia. Eu nunca fui escolhida. Aprendi cedo que ilusões não pagam contas nem enchem a barriga. Por isso, quando o contrato da escola infantil onde trabalhava acabou e não renovaram, não chorei. Apenas abri o notebook e aceitei a primeira oferta que apareceu: babá residencial no Texas. Boa remuneração. Casa e comida inclusas. Uma menina de sete anos que perdera a mãe. Parecia simples no papel. Nada naquela manhã fazia sentido. Eu deveria estar reclamando do café ruim da sala dos professores, rindo alto demais com colegas que fingiam ter a vida sob controle. Em vez disso, desci de um ônibus empoeirado sob um sol que queimava a pele mesmo através da blusa de algodão. A mala surrada era minha única companhia. O ar cheirava a terra seca e diesel. O horizonte não tinha fim. O táxi me esperava do outro lado da rodoviária. O motorista confirmou meu nome, assentiu quando falei “Blackwood” e acelerou pela estrada de terra sem mais palavras. Quanto mais avançávamos, mais o mundo ficava para trás. Nenhuma casa vizinha. Nenhum carro. Apenas cercas intermináveis, campos amarelados pelo calor e, ao longe, torres de petróleo cortando o céu azul sem nuvens. O silêncio dentro do carro era tão denso que eu ouvia o próprio sangue nas orelhas. — É aqui, moça. Ele parou diante de um portão de ferro escuro, alto demais para qualquer pessoa comum. Olhou para mim como quem espera que eu mude de ideia. — Vou ficar — respondi. Ele não disse mais nada. Apenas deu de ombros e esperou eu descer. Paguei a corrida. A mala bateu contra a minha perna quando o carro partiu, levantando um redemoinho de poeira que grudou na garganta. O vento quente batia no rosto. O farfalhar distante de árvores soava quase agressivo naquele silêncio. O portão se abriu sozinho, lento, como se estivesse me avaliando. O Rancho Blackwood surgiu do outro lado: construção de pedra clara, sólida, janelas altas, varanda extensa que parecia vigiar tudo ao redor. Não era uma casa. Era uma declaração. Poder. Distância. Controle. Meu corpo inteiro arrepiou. As pernas bambearam por um segundo. Engoli em seco e segurei a alça da mala com mais força. — Agora é tarde para voltar — murmurei para mim mesma. — Acredita que vai dar certo. Caminhei pelo caminho de pedras. Cada passo ecoava dentro do peito. Eu me sentia pequena demais para aquele lugar, como se alguém fosse aparecer a qualquer momento e dizer que houve um engano, que eu não pertencia ali. Talvez não pertencesse mesmo. Antes que eu chegasse à porta principal, ouvi risadas. Leves. Infantis. Deslocadas naquela rigidez toda. Virei o rosto. Uma garotinha corria pelo jardim segurando uma boneca sem um dos braços. Cabelos loiros presos em tranças tortas. Vestido claro sujo de terra. Ela brincava sozinha. O peito apertou de um jeito familiar e dolorido. Eu também brinquei sozinha. Muitas vezes. Mesmo sorrindo, o vazio ficava maior do que o quintal. — Oi — falei, já me aproximando sem perceber. Ela parou. Olhou para mim sem medo. Olhos claros, atentos demais para alguém tão pequena. — Você é a nova babá? — Acho que sim. E você deve ser a Emily. Ela sorriu orgulhosa, mostrando um dente de leite faltando. — Sou eu mesma. Papai disse que você ia chegar hoje. A palavra “papai” pesou no meu peito antes mesmo de eu conhecer o homem. — E onde ele está? Emily deu de ombros, balançando a boneca quebrada. — Trabalhando. Como sempre. Ele trabalha muito. Claro que trabalhava. Homens como o pai dela sempre tinham algo mais importante. Sempre. Eu ia responder alguma coisa leve, tentar puxar conversa, perguntar o nome da boneca, quando a porta da casa se abriu atrás de mim. O ar mudou. Não foi imaginação. Foi presença. Pesada. Quente. Silenciosa. Virei devagar. Ele estava ali. Magnus Blackwood. Alto. Ombros largos. Camisa social preta com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando antebraços marcados pelo sol e pelo trabalho. Cabelo escuro penteado para trás, mas já um pouco desalinhado pelo vento. Barba por fazer de dois dias. Olhos escuros que me examinaram de cima a baixo em menos de três segundos, frios, avaliando, como se eu fosse um contrato e não uma pessoa. Ele não sorriu. Não estendeu a mão. Apenas ficou parado no umbral, a sombra dele cobrindo parte do meu corpo. Emily correu até ele e abraçou a perna dele sem hesitação. Ele pousou a mão grande na cabeça dela de forma automática, quase distraída, mas o olhar nunca saiu de mim. — Aurora Whitmore — disse. A voz era grave, controlada, sem pressa. — Você está atrasada. Não era uma pergunta. Era uma afirmação. Eu abri a boca para explicar o atraso do ônibus, a estrada de terra, o calor, mas as palavras travaram. O sol batia nas minhas costas. O suor escorria entre as omoplatas. A mala parecia mais pesada de repente. E pela primeira vez desde que desci do táxi, senti o impulso antigo e familiar de baixar o olhar, de encolher os ombros, de desaparecer. Mas não baixei. Segurei a alça da mala com as duas mãos, senti as unhas cravarem na palma, e mantive o olhar firme no dele enquanto o coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele conseguia ouvir.






