3: Magnus Blackwood

Magnus Blackwood

"Aurora Whitmore é a escolha errada." Esse foi o meu pensamento no instante que o portão do rancho Blackwood foi aberto. E eu não precisava pensar nisso, porque sei disso no instante em que a vejo atravessar o jardim com aquela mala pequena demais para alguém que pretende ficar. Pessoas que chegam preparadas trazem mais bagagem, e as pessoas que não pertencem ao lugar chegam leves, como se já soubessem que não vão durar. E ao que tudo indicava, a senhorita Whitmore não pertencia a minha casa, e muito a vida da minha filha.

Fico parado na varanda observando todo o movimento, esse é um hábito antigo que adquiri, eu sempre procuro observar antes de decidir. Isso sempre funcionou nos negócios e funciona com pessoas também, ou pelo menos costumava funcionar até a dona do caos chegar.

Ela anda devagar, mas não hesita. Olha ao redor como quem tenta entender o território, não como quem pede permissão. E isso me incomoda. Gente demais aqui já chegou se curvando, com medo de errar, e Aurora não é assim. Ela ergue o rosto para o sol, como se o Texas fosse apenas mais um lugar no mundo, não o centro do meu império, e por esse simples detalhe eu já não gosto dela.

Emily surge correndo do outro lado do jardim, e meu corpo reage antes do pensamento. Eu sempre reajo quando ela aparece. É uma tensão automática, antiga, que nunca mais me deixou desde o dia em que quase a perdi também.

Minha filha para diante da estranha e fala com ela como se não houvesse perigo algum no mundo, e como se pessoas novas não pudessem ir embora de repente. O meu maxilar se contrai porque eu não gosto disso. Não gosto do jeito como Aurora se abaixa para falar com ela, do sorriso fácil e da forma como Emily responde gentilmente para essa mulher. Gente assim cria laços rápido demais, e eu sei melhor do que ninguém que laços quebram, machucam, e muitas vezes demoram a cicatrizar, se é que algum dia cicatrizam. O meu até hoje sangra como uma ferida recém aberta.

Desço os poucos degraus da varanda com passos firmes e não faço barulho de propósito, porque quero ver como ela reage à minha presença. A maioria das pessoas muda de postura, endireita os ombros e baixa a voz. Mas como eu imaginava, Aurora é diferente, ela apenas se vira devagar, como se já soubesse que eu estava ali.

"Isso é estranhamente irritante."

"Essa estranha precisa desaparecer daqui o mais rápido possível."

— Senhorita Whitmore — digo, medindo cada sílaba. — Chegou.

Ela me encara com uma petulância que me faz rosnar por dentro. A ousada não sorri, sequer se desculpa por me olhar diretamente e somente confirma a minha afirmação.

— Cheguei.

Ela é simples e direta demais, e isso no me mundo é um péssimo sinal. Essa mulher aqui é um grande equívoco, e erros, muitas vezes, podem ser fatais.

Emily segura minha mão e anuncia, orgulhosa, que a babá consertou a boneca quebrada que ganhou da mãe. Sei que é mentira, porque eu reconheço o brinquedo, e sei que continua quebrado, mas eu não a desminto, porque ela já sofreu e ainda sofre com a ausência de Eleanor, e por esse motivo eu nunca a contradigo quando ela parece estar feliz.

Aurora sorri, como se tivesse feito algo grandioso e não entendesse que aquela alegria de Emily é frágil. E essa atitude só serve para uma coisa: me irritar mais do que deveria. Definitivamente, Aurora veio trazer o caos para a minha vida e da minha filha, e eu preciso dar um basta nessa situação antes que seja tarde demais, e a ordem e a normalidade que conquistei com tanta dificuldade escorra pelos meus dedos como petróleo.

Minutos depois peço que entre e me afasto antes que ela diga qualquer coisa. Não confio em gente que fala demais logo no primeiro encontro, pois sei que pessoas assim fazem perguntas, criam intimidade e acreditam que têm o direito de atravessar fronteiras que levei anos para erguer.

A casa reage à presença dela como se fosse um corpo estranho. Eu sinto a mudança no ambiente, porque o silêncio muda e o ar parece menos estático, e para variar eu não gosto disso. Na verdade eu não gosto de nada e ninguém que venha tentar tirar a minha paz.

Enquanto a funcionária a leva até o quarto, fico parado no escritório, olhando para documentos que já conheço de cor, e diferente das outras vezes os números não entram na minha cabeça e a imagem dela volta, insistente na minha memória. Não preciso fechar os olhos para lembrar da sua postura relaxada, do olhar curioso e da maneira como não desviou o olhar quando a observei, e isso é péssimo, porque gente que não desvia o olhar costuma querer mais do que pode ter. Eu sei reconhecer problemas antes que eles se tornem grandes, e Aurora Whitmore é um problema em estado inicial que eu preciso dar um fim antes que ultrapasse limites constituídos por mim.

As horas passam rapidamente, e durante o jantar, observo em silêncio. Emily está animada, fala mais do que o habitual, sorri e conta coisas sem importância, e Aurora escuta com uma atenção exagerada, como se cada palavra fosse um presente. Eu sei que nada disso é real, porque é impossível alguém que chegou a poucas horas se importe tanto com uma criança que acabou de conhecer. Isso não encaixa dentro da minha cabeça e me incomoda muito. Crianças não precisam de adoração constante, elas precisam de estabilidade e constância, e sempre foi isso que procurei oferecer para Emily desde aquele maldito acidente que mudou a nossa vida para sempre. Mas com a chegada de Aurora e a maneira como Emily demonstra entusiasmo ao conhecê-la, uma pergunta surge dentro da minha cabeça.

Será que estou oferecendo o suficiente para minha filha?

— Vocês sempre comem assim? — Aurora pergunta, quebrando o silêncio, e me fazendo voltar à realidade.

Não respondo a pergunta de imediato. A pergunta não é ofensiva, mas é invasiva. E essa casa funciona com regras claras, e uma delas, é justamente que ninguém deve questionar o que já está estabelecido.

— Prefiro refeições tranquilas — respondo friamente.

Ela sorri como se tivesse sido desafiada.

— Então eu sou um problema, senhor Blackwood.

Ela diz isso com leveza, mas há algo sutil por trás de suas palavras, um aviso talvez, ou uma provocação.

— Sorrir é sempre bom, principalmente quando se trata de crianças — ela concluí e finge fazer cócegas em Emily que sorri automaticamente, mas eu não.

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