Um problema grande

Parte 7...

Mateo

Ela tremia, balançava as mãos, chorando baixinho, olhando para o chão. Seu rosto estava vermelho. Segurei seus braços.

— Ei, calma, ela vai ficar bem.

— É minha culpa – começou a chorar mais — Eu falei um monte de coisas pra ela... É minha culpa...

— Não, não é sua culpa. Não faça isso, ela vai ficar bem, está certo?

— Não... – soluçou — Eu fui má com ela, briguei com ela quando cheguei... – cobriu o rosto com as mãos — As coisas que eu disse...

— Olha, ela é adulta... São suas escolhas. Não faça isso com você. Lembra que ela é a mais velha? – por impulso eu a puxei para mim e a abracei, alisando seu cabelo, sua cabeça em meu peito — Ela cometeu um erro, você não podia prever isso... Fique calma, não chore... Não chore.

Não sei bem, mas esse choro dela me afetou um pouco. Era como se eu precisasse estar ali com ela pra aliviar esse momento.

— Senta aqui, vamos aguardar – pra minha surpresa, ela deitou a cabeça em meu ombro e ficou segurando minha mão. Um leve sorriso se formou quando percebi que gostei.

— Você tem que ir embora, Mateo – ela fungou.

— Eu vou depois.

— Mas você tem compromisso com sua família.

— Não é nada demais, é só um jantar.

— Ainda assim – ergueu a cabeça — É melhor você ir. Eu vou ficar aqui até saber como ela está.

— Está querendo se livrar de mim? – segurei seu rosto e sequei suas lágrimas com os dedos.

— Não... – ela deu uma risadinha triste — Mas não posso te prender mais. Peça ao barba branca que traga minha mala, por favor.

— Não vou agora. Também quero saber como ela está. Acho que tenho direito garantido, não tenho? – ela apertou os olhos tentando sorrir, mas senti sua tristeza — Ei, ela vai ficar bem de novo, só não pode deixar que fuja.

Ela fungou duas vezes. Peguei meu lenço para lhe dar, mas estava sujo de sangue.

— Espera – saí e fui ao banheiro — Tome, use esses.

Lhe dei folhas de papel e ela secou o rosto. Fez uma bola e jogou do outro lado, no cesto pequeno ao lado da cadeira.

— Vá embora. Eu fico aqui. Já fez muito por mim. – segurou meu rosto — Muito obrigada. Não sei o que teria feito sem sua ajuda.

Esse olhar dela, esse toque, me fizeram sentir algo que há tempos não sentia.

— Como está a garota? – Douglas apareceu.

— Ainda não sabemos.

— Mateo – ele me deu aquele olhar velho conhecido — Precisamos ir. Já me ligaram.

— Eu não vou, Douglas.

— Por favor, não quero te causar problemas. – ela disse com a voz doce.

— Não é problema nenhum – peguei meu celular e vi que tinha duas chamadas de minha mãe — Olha, eu vou avisar que não poderei ir.

Ela me olhou com uma expressão de alívio. Mandei mensagem para minha mãe avisando que não iria ao jantar. Logo veio a resposta, seca como sempre, dizendo que eu não poderia faltar. Suspirei.

— O que foi?

— Nada... Minha mãe insiste que eu vá ao jantar. Hoje temos uma comemoração.

— De quê?

— É aniversário de meu pai.

— O quê? – ela arregalou os olhos — E você está aqui? Não... Pelo amor de Deus, vai logo pra casa – me empurrou pelo ombro — Já fez demais, não posso te prender aqui. Vai!

— Não, eu não vou – guardei o celular — Já disse que vou ficar aqui com você – segurei seu braço — Não é tão importante.

— Não é importante? – ela franziu os olhos — O que é? Você tem problemas com seu pai?

— E quem não tem?

Ela torceu a boca e balançou a cabeça. A médica saiu e Alicia foi até ela.

— Eu posso ver como ela está? – esfregava as mãos na calça.

— Pode sim. Vocês foram rápidos, do contrário, ela teria morrido. – enfiou as mãos nos bolsos — Mas agora ela vai se recuperar. Pode entrar.

Ela entrou e deixou a porta aberta. Fiquei parado, observando. Alicia sentou na cama e mexeu no cabelo da irmã, que abriu os olhos.

— Ei... – sua voz foi baixa e doce — Você me deu outro susto. Esse vai para o caderninho, tá!

Aline tentou sorrir, mas deve ter sentido dor porque fez uma careta e gemeu.

— Não se mexe – Alicia fungou e esfregou o nariz, se ajeitando na cama — Eu vou ficar aqui fora te esperando.

— Não foi culpa sua – ela pegou a mão de Alicia e respirou fundo — Eu só faço merda mesmo.

— Não fale isso agora. Quando ficar melhor, depois a gente conversa.

— Eu sou tão burra que nem sei me matar – Aline deu uma risadinha e gemeu — Você tinha razão... Eu só causo problemas pra todo mundo.

Fiquei observando a interação das duas irmãs. Encostei a cabeça de lado na porta. Não me parece tão diferente da relação que eu tenho com meu irmão.

— Você vai pra casa assim que a médica te liberar.

— Não posso voltar pra casa assim... – mordeu o lábio — Imagine só o inferno que vai ser?

— Eu sei... – Alicia torceu a boca — Então você fica comigo... Por um tempo – ergueu o dedo e Aline riu de novo — Sabe que eu não gosto de dividir meu espaço com ninguém.

— Eu sei, você é esquisita.

As duas riram juntas e Alicia deu um beijo de leve na testa dela e levantou. Me virei pra sair e quase me bati com Douglas, atrás de mim.

— O que foi agora?

— Sua mãe ligou pra mim. Se sairmos agora, nós chegamos com folga ao jantar.

— Eu não vou – mexi o pescoço de um lado para o outro — Já enviei mensagem avisando.

— Mas ela acabou de me ligar.

— E o que você disse?

— O que eu poderia dizer? – abriu a mão — Que você estava ocupado e ela me perguntou se era alguma mulher. – ergui a sobrancelha — Eu disse que não... Mas...

— Mas... Fala o que é?

— Não sei como, Silvia sabia que você estava com uma ruiva e eu fiquei calado. Nem disse sim e nem não.

— Ah, minha mãe – abaixei a cabeça, esfregando os dedos na testa — Pode pegar meus comprimidos de enxaqueca? Deixei no carro.

— Estão aqui comigo – enfiou a mão no bolso e tirou a caixinha — Vou pegar água – me passou a caixinha e saiu.

— Mateo... Você está bem? – Alicia parou ao meu lado — Olha, vai pra casa, eu me sinto mal em te segurar aqui. Isso nem é da sua conta mesmo.

— Ah, agora quer se livrar de mim, depois que eu fiz todo o trabalho pesado? – brinquei.

— Não, pelo amor de Deus. Se não fosse por você... Ouviu o que a médica disse. – engoliu seco — Aline não estaria aqui agora, se recuperando. Você foi um herói de verdade.

— Hum... Acho que gosto desse título. – ela me deu um tapinha — Ai! – segurei o braço.

— Não exagere – sorriu e ajeitou o cabelo — Pode ir se quiser. Eu vou ficar um pouco lá dentro.

— Eu fico com você mais um pouco.

Douglas retornou com uma garrafinha.

— Aqui está. – me passou a água — Tudo bem com sua irmã?

— Vai melhorar, obrigada!

— E então? – olhou pra mim.

— Eu não vou. Pode voltar se quiser.

Ele me puxou de lado e falou baixo.

— Você está se metendo em um problema grande – olhou pra trás — E duplamente.

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