Mundo de ficçãoIniciar sessãoParte 8...
Alicia
Começou a chover. A água descia pelo vidro da janela e já era começo da noite. Apesar de ter comido, ainda estava com fome e nem mesmo tinha tomado um banho.
Olhei para o lado. Mateo estava reclinado pra trás, braços cruzados, olhos fechados. Fiquei observando esse homem estranho que entrou em minha vida de repente e me ajudou mais que qualquer outro. Ele abriu um olho e sorriu.
— Por que está me observando?
— Você fez o mesmo comigo, eu percebi.
— Verdade – abriu os olhos e virou pra mim — Se sente melhor?
— Um pouco – olhei para Aline na cama — Eu fico com raiva dela, sabe... Às vezes tenho vontade de partir a cara dela, mas no fundo, ela é só uma vítima.
— De quê?
— Dos nossos pais – cruzei os braços e deixei o corpo deslizar no sofá pequeno — Não foi fácil crescer nessa casa, com uma mãe bipolar agressiva e um pai narcisista machista.
— É mesmo? – ele pareceu surpreso.
— É sim – suspirei — Aline teve mais tempo do que eu, pra sofrer nas mãos deles.
— E ainda estão casados?
— Não – dei uma risadinha cínica — Por pouco não se matam. Foi melhor terem se separado. Mas isso não ajudou muito. O estrago já estava feito.
— Bem, mas você conseguiu escapar.
— Eu? – ergui as sobrancelhas — Não... Eu só soube fugir, me esconder... Fiquei de longe, observando quando podia ou não estar presente. – mordi o lábio — Não foi fácil.
— É, eu sei. A família pode ser o maior inimigo que temos – olhei pra ele — Eu também tenho uma família bem complicada – passou a mão na testa — E já caí em muitos buracos por causa deles.
— Sinto muito – toquei sua coxa.
— Também sinto por você – ele cobriu minha mão com a dele — E por sua irmã. – suspirou fundo — Nenhuma criança deve crescer no meio de tormentas.
Olhei para Aline e assenti. O celular dele tocou.
— Alô! Sim... Pode falar...
Virei o rosto, olhando a chuva batendo no vidro, pra não ficar observando sua chamada. Ele pareceu tenso. Desligou e ficou olhando para o nada.
— Espero não ter colocado você em problema.
— Não, nada de diferente. Os jantares em minha família geralmente são... Inusitados.
— Sei... Quer dizer complicados, chatos... Ruins?
Ele riu baixinho, cobrindo a boca.
— Mais ou menos isso. De vez em quando conseguimos ter um jantar comum.
— Pelo menos isso você tem. Eu nem me recordo quando foi a última vez que tive um jantar em família – apertei os dedos — Na maior parte das vezes, como sozinha em meu apartamento ou saio com amigos.
Ele me olhou de um jeito que não entendi bem, mas me parecia que havia uma certa ternura em seu olhar.
***** *****
Quando Mateo voltou do banheiro, eu estava entediada de ficar esperando e abri um vídeo no You Tube e fiquei assistindo. Ele sentou ao meu lado, bem pertinho de mim e eu sorri. Então passou o braço por cima do encosto do sofá, se inclinando sobre mim.
— O que está vendo?
— Nada demais, só um vídeo bobo pra me distrair do tédio e cansaço.
— Eu não estou ajudando? – fez uma cara engraçada.
— Muito, você ajuda muito... De verdade – ficamos em silêncio nos olhando — É que minha mente está agitada. Preciso de algo pra me distrair. É só uma pegadinha boba.
Ele segurou minha mão ajeitando o celular.
— Então vamos ver juntos.
Eu sorri. Gostei do modo como ele se portou comigo até agora. Fazia tempo que ninguém se importava com meus problemas dessa forma.
Deitei a cabeça no ombro dele e ficamos em silêncio, vendo o vídeo bobo que escolhi. Foi a primeira vez que eu me senti tão à vontade ao lado de um homem.
***** *****
Quando acordei, olhei em volta e não vi Mateo. Ainda chovia e Aline estava dormindo pesado. Bocejei e me espreguicei. Lembro de ter cochilado no ombro dele, mas não o vi sair.
Levantei e fui até o corredor, mas ele não estava também. Então segui até a recepção para saber sobre o pagamento do hospital.
— Não há necessidade de pagar – a atendente me informou com um sorriso — A conta já foi paga.
— Já foi? – me inclinei por cima do balcão — E por quem? – tentei ver a tela do computador.
— Pelo senhor Montenegro. Ele falou com a médica e ela o informou de que sua irmã poderá sair após o meio – dia, então ele já deixou tudo pago.
— Mas não... – abanei a mão — Tudo bem. Obrigada!
— Por nada. Melhoras para ela.
Fiz um gesto com a cabeça e voltei ao quarto. Peguei meu celular e não tinha nada dele.
— Inferno, não deixou contato – apertei o queixo, pensando — Meu Deus... E nem minha mala. – voltei para a recepção — Olha, preciso entrar em contato com ele, pode me dar o telefone de contato? É importante.
Ela mexeu no teclado e anotou em um papel.
— Muito obrigada de novo.
***** *****
— Olha, eu preciso falar com ele – andava de um lado para outro na calçada, esperando minha carona — Ele ficou com a minha mala e preciso dela... De tudo que tem dentro dela – agitei a mão — Sim... Pode passar o recado, por favor? Isso foi há quatro dias já – começava a ficar impaciente com a mulher na linha — Eu sei que ele não se encontra, mas será que o barba branca... É... Douglas... Será que ele não pode me trazer a mala?
Vi o carro da Beatriz se aproximando e acenei para ela. Fechei a porta do prédio e ela parou em minha frente.
— Sim, por favor, eu agradeço muito... Preciso da mala de volta. Ok... Até mais. – desliguei — Uhhh... Que raiva eu tenho de gente lerda.
— Calma, garota – Beatriz riu — Que bicho te mordeu hoje? Ainda é cedo.
— Acredita que ainda não consegui recuperar minha mala? O cara viajou e a mulher que me atende, diz que não pode liberar nada sem a ordem dele.
— E ela tá errada?
— Ai, Beatriz... A mala é minha.
— E como ela vai ter certeza disso? – deu de ombros — Espera o cara retornar.
— E se ele ficar um ano fora?
— Pelo amor de Deus – riu mais alto — Tem dias que você fica atacada.
— E estou mesmo. Estou no meu período e cheia de cólicas – joguei a bolsa para trás — Vontade de matar um.
— Opa, opa – ergueu as mãos — Me poupe. Eu tenho uma vida pra dar conta, não posso morrer hoje.
Achei engraçado e comecei a rir.
— Poxa, era só ele ter deixado um aviso.
— Vai ver ele esqueceu... Ou então nem se deu conta de que sua mala ficou no carro dele, criatura.
— Eu vou esperar mais um pouco. Se ele não me ligar, eu vou aparecer no trabalho dele e vou fazer um escândalo.
— E você sabe onde ele trabalha?
— Não, mas vou descobrir – agitei o celular — Vou colocar o nome dele no G****e.
— Credo... Quero morrer sendo sua amiga.
Gargalhamos juntas e liguei o som. Estava tocando uma música antiga do grupo A-Ha.
— Meu Deus! – bati as mãos — Eu amo essa banda.
— E quem não ama – ela começou a cantar junto e se balançar — Estou precisando me animar. Ontem foi duro.
— O que houve?
— Te conto durante nosso almoço. Como está Aline?
— Hum, acho que bem – enrolei o dedo no cabelo e olhei pra fora — Já está morgando no meu sofá de novo, sem fazer nada.
— Ai, amiga... Desculpa, mas ela deveria ter ido pra casa de sua mãe.
— Eu sei... Mas é minha mania de querer ajudar.
— E ela se aproveita.
Era verdade. Eu não gosto que falem de minha família, viro uma fera, mas com Beatriz não tem problema. Ela é minha amiga desde os quatorze anos e viu muita coisa acontecer e muitas lágrimas que desperdicei.







