Só uma foto

Parte 6...

Mateo

— Engraçado... Você tem medo de falar sobre sua família? Ou tem medo que eu siga você nas redes sociais e descubra que é casado?

Dessa vez eu gargalhei.

— Não é nada disso – cruzei as mãos — Eu apenas sou... Reservado – apertei os olhos e fiquei olhando para ela um momento — Não sou casado, não tenho namorada e não tenho redes sociais.

— Não? Que interessante que é.

— E por que?

— Pela sua cara você tem uns... Trinta e oito? – fechou um olho pensando — Talvez uns quarenta?

— Tenho trinta e nove. Mas o que isso tem a ver?

— Bem, disse que é um CEO... Então pelo menos sua empresa deve ter rede social. É importante hoje e quem não é visto não existe. – encolheu os ombros — E se não é casado... É separado? – fiz que não com a cabeça — Então é gay? – ri e fiz que não de novo. — Hum... Vê que interessante? – me apontou o dedo — Acho que adivinhei o que você é.

— Um mafioso – ela piscou o olho — Você também é interessante, sabia?

— É mesmo? E como?

— Pra começar, está aqui, sentada de frente para o mar com um homem desconhecido.

— Não é desconhecido. Já sei o seu nome e até já brigamos. – mexeu o ombro e sorriu.

— Tem razão. Ainda assim, você tem coragem... Ou então é louca.

— E por que não posso ser as duas coisas? – pegou o celular que tocava — Número desconhecido – desligou.

— Mateo, não esqueça de que tem o jantar logo mais.

— Ok, Douglas.

— Ele é seu faz – tudo?

— Por aí – assenti — O que vai fazer agora?

— Acho que vou para casa, tomar um bom banho e depois volto ao hospital para ver minha irmã. – mexeu no celular — Vamos tirar uma foto juntos?

— Quê? – franzi a testa, fazendo um gesto de cabeça.

— É, uma foto. Pra lembrar desse dia. Eu posso precisar provar aos meus netos que um dia eu briguei com um mafioso no avião.

Bati as mãos gargalhando.

— Garota, você é demais.

— Obrigada!

Ela ergueu o celular e se ajeitou no banco, se aproximando de mim, quase encostando a cabeça na minha.

— Sorria e olhe para o celular.

— Me dá aqui – tomei o celular de sua mão.

— Ei, o que está fazendo? Eu prometo que não vou postar nas redes sociais.

— Não me importo se fizer isso – ergui o celular na posição — Eu tiro fotos melhor que todo mundo. Sorria.

Ela se inclinou pra mim e ajeitou o cabelo, sorrindo. Cliquei duas vezes para garantir.

— Deixa eu ver como ficou. – passei o celular — Eu, hein... Que foto doida é essa?

Olhei a foto. Meu dedo ficou bem em cima de meu rosto, quase cobrindo tudo.

— Você fez isso de propósito.

— Juro que não.

— Pois eu quero outra, mas deixa que eu mesma tiro.

Ficamos de novo na mesma posição e ela apertou o celular. Dessa vez a foto ficou muito melhor.

— Viu só? É assim que se faz.

— Sei bem o que quer – bati com o dedo em seu nariz — Que eu lhe dê meu número para que possa me enviar depois.

— Sim, claro – riu se balançando — Acredite nisso.

Seu celular tocou de novo e ela franziu a testa ao ver que havia mensagem de um número desconhecido. Apertou para abrir a mensagem e seu rosto mudou. Peguei o celular e li o que dizia.

“Sua irmã fugiu do hospital. Está de volta ao grupo. Não me responsabilizo. ”

— Quem é?

— Não sei. É o mesmo número que ligou antes – sua voz estava de novo baixa e a respiração funda.

— Está bem... Acalme-se. Vamos – a puxei pelo braço — Douglas, ligue o carro! – a empurrei atrás — Me dê o celular – ela me entregou — Aqui tem uma localização. Vamos até esse lugar, Douglas.

**********

— Que lugar de merda é esse?

Chegamos a um beco com algumas casinhas apertadas. Tudo sujo, pichação nas paredes. Com toda certeza era uma boca de fumo.

A expressão de Alicia era de preocupação e medo. Ela olhava espantada para o lugar. Vimos um homem sair de uma porta no final do beco. Ele nos viu e parou.

— Não tenho nada com isso – gritou lá do fundo.

— Foi você quem me enviou a mensagem sobre Aline? – ela ia até ele e eu a segurei.

— Ela está aí dentro – apontou e saiu correndo pelo outro lado.

— Aline!

Ela disparou e tropeçou em algumas pedras, quase caindo. A segurei e não soltei mais sua mão, para que não fosse entrando sem saber o que havia ali.

— Espera aqui – barrei sua entrada — Eu vou olhar.

— Aline! – gritou para dentro — Aline!

— Eu vou entrar. Chame Douglas aqui. – ela olhava meio perdida — Alicia! Chame o Douglas aqui. Agora!

Ela fez um gesto com a cabeça e saiu correndo de volta para o carro. Entrei chamando pelo nome da irmã dela, sem resposta. O lugar era feio, sujo, bagunçado. Olhei na cozinha e no quarto. Ao entrar no banheiro, achei a irmã dela caída, com vômito por cima dela e no chão.

— Porra de drogada... – fiz uma cara de nojo. O mau cheiro estava forte — Ei! Ei! – a sacudi e nada dela acordar — Merda! Você é mais uma dessas, não é? – falava comigo mesmo enquanto a erguia do chão — O que tomou? Pastilhas? Injetado?

Não adiantava. A garota estava apagada, talvez em processo de overdose.

— Puta merda! Garota, você estava no hospital.

Consegui fazer com que sentasse e ouvi passos atrás de mim. Era Alicia com Douglas. Ele entrou rápido e me ajudou. Olhei para Alicia. Ela ficou travada na porta, a mão na boca e lágrimas descendo por sua bochecha.

Não é exatamente uma cena para se esquecer, ver a própria irmã ali, perdida, afundada entre sujeira e o cheiro ácido do vômito, distante demais para perceber qualquer coisa ao redor.

— Temos que fazer ela vomitar tudo.

Douglas não hesitou. Ajoelhou-se ao lado dela e, com urgência, enfiou os dedos com força em sua garganta. O corpo dela reagiu imediatamente, sacudindo em um espasmo violento. Um som engasgado escapou de seus lábios antes da tosse rasgar o silêncio do banheiro.

Segurei sua cabeça e o cabelo, tentando mantê-la inclinada sobre o vaso enquanto ela se curvava, fraca, e então o vômito veio forte, descontrolado.

— Isso... Põe pra fora tudo.

— Temos que levar a garota para o hospital urgente – Douglas levantou.

— Eu a levo, você traz o carro.

Ergui a garota nos braços e passei por Alicia, parada no mesmo lugar. Parei e me voltei.

— Vamos, Alicia! Mexa-se!

Ela piscou repetido, limpou o rosto e me seguiu.

**********

— Ajudem aqui, por favor! – voltamos ao mesmo hospital de onde ela fugira — É uma emergência.

— Aqui... Coloque-a aqui – dois enfermeiros vieram correndo e trouxeram uma maca — O que houve?

— A encontramos desmaiada, com muito vômito.

— Tudo bem, vamos levar a garota.

— Hã... Ela fugiu daqui mais cedo – Alicia finalmente falou — Estava sendo atendida e se foi.

Os dois se olharam franzindo os olhos e fizeram gestos com a cabeça. Empurraram a maca para um quarto e fecharam a porta.

Respirei fundo, passando os dedos pelo cabelo e só então reparei em Alicia.

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