CAPÍTULO 4

Zara Moraes

A dor começou durante a madrugada.

Primeiro veio como uma pontada leve na costela.

Depois o frio.

Um frio estranho, pesado, que não tinha relação com a neve lá fora.

Zara acordou lentamente, confusa, sentindo o corpo inteiro estremecer debaixo dos cobertores.

Sua respiração estava irregular, quente demais, enquanto gotas de suor deslizavam por sua testa.

Ela tentou se mover.

Ardeu.

Cada músculo parecia queimando por dentro.

— Droga

Sua voz saiu fraca, rouca.

A visão ficou embaçada por alguns segundos quando ela tentou se sentar na cama.

O quarto girou lentamente ao redor dela.

Febre.

O ferimento na costela provavelmente infeccionara.

Ela fechou os olhos com força, tentando ignorar o enjoo crescente.

Não podia adoecer.

Não ali.

Não perto dele.

Mas o corpo parecia não se importar com o que ela queria.

Outro tremor violento atravessou seus braços.

Zara puxou o cobertor mais para perto do corpo enquanto tentava respirar normalmente.

A tempestade ainda rugia do lado de fora, embora mais distante agora.

O fogo da lareira queimava baixo.

O quarto estava silencioso.

Silencioso demais.

Então ela ouviu passos.

Firmes.

Calmos.

Se aproximando.

Seu corpo inteiro ficou tenso imediatamente.

A porta se abriu sem pressa.

Alexandre entrou.

Vestia calça escura e uma camisa preta parcialmente aberta no peito, revelando parte das tatuagens marcando sua pele.

Os cabelos loiros ainda estavam levemente úmidos, como se tivesse acabado de sair do banho.

Mas não foi isso que prendeu Zara.

Foram os olhos dele.

Os olhos azuis ficaram imediatamente mais escuros ao vê-la.

Ele percebeu.

Claro que percebeu.

Alexandre fechou a porta atrás de si e caminhou até a cama.

Zara tentou parecer normal.

Falhou miseravelmente.

Seu corpo tremia demais.

— Você está doente.

Não era pergunta.

Ela desviou o olhar.

— Estou bem.

Mentira.

Uma mentira ridícula.

Alexandre ficou parado diante dela por um instante, observando-a em silêncio.

Depois ergueu lentamente a mão.

Zara prendeu a respiração quando os dedos frios tocaram sua testa.

O contraste entre a pele gelada dele e o calor febril dela arrancou um arrepio involuntário de seu corpo.

O maxilar de Alexandre travou.

— Você está queimando.

Ela tentou afastar a mão dele.

— Não preciso de ajuda.

Os olhos azuis desceram lentamente até os dedos dela segurando o pulso dele.

E alguma coisa mudou no ar.

Algo pesado.

Quente.

Perigoso.

Alexandre virou a mão devagar, prendendo os dedos dela entre os seus por apenas um segundo.

O coração de Zara disparou violentamente.

Então ele soltou.

— Teimosia não combina com febre — disse calmamente.

Ela respirou fundo.

— Sobrevivi muito tempo sem precisar que ninguém cuidasse de mim.

A expressão dele ficou ilegivelmente fria.

— E olha onde isso trouxe você.

Aquilo atingiu Zara mais do que deveria.

Porque era verdade.

Ela estava quebrada.

Exausta.

Sozinha.

E odiava o fato de Alexandre enxergar isso tão claramente.

Ele se afastou da cama e pegou um pequeno estojo metálico sobre a mesa próxima à lareira.

Medicamentos.

Claro.

Um homem como Alexandre provavelmente estava preparado para qualquer situação.

Menos sentimentos.

Zara observou enquanto ele abria o estojo com movimentos precisos e retirava gaze, álcool e comprimidos.

Tudo nele parecia absurdamente controlado.

Até cuidando de alguém.

— Tire o casaco.

Ela imediatamente endureceu.

— O quê?

Os olhos dele ergueram lentamente até os dela.

Calmos.

Autoritários.

— Preciso ver o ferimento.

O coração dela tropeçou no peito.

— Não.

Alexandre ficou em silêncio.

Perigosamente silencioso.

— Zara.

Ela odiava quando ele dizia seu nome daquele jeito baixo e firme.

Como uma ordem.

— Eu consigo cuidar disso sozinha.

— Não consegue nem ficar em pé sem tremer.

Raiva atravessou o peito dela.

Porque ele estava certo.

De novo.

Zara apertou os dedos contra o cobertor.

— Você sempre gosta de controlar tudo?

A resposta veio imediata.

— Sim.

Sem hesitação.

Sem vergonha.

Sem tentativa de parecer menos perigoso.

Aquilo deveria assustá-la.

E assustava.

Mas havia algo perturbadoramente honesto em Alexandre Montenegro.

Ele nunca fingia ser melhor do que realmente era.

O silêncio entre os dois ficou pesado outra vez.

Então Zara cedeu.

Devagar, tirou o casaco grosso dos ombros, revelando a camiseta fina e parcialmente rasgada.

Alexandre observava tudo sem dizer uma palavra.

O olhar dele desceu lentamente até o hematoma escuro espalhado pela lateral de sua costela.

O ambiente mudou imediatamente.

Os olhos azuis ficaram gelados.

Mortais.

— Quem fez isso?

A pergunta saiu baixa demais.

Perigosa demais.

Zara desviou o olhar.

— Não importa.

— Importa para mim.

Seu coração falhou uma batida.

Porque havia algo brutal naquela frase.

Algo possessivo.

Como se a simples existência daquelas marcas irritasse Alexandre em um nível pessoal.

Ele se aproximou novamente da cama.

Muito perto.

Zara sentiu o corpo inteiro tensionar quando Alexandre ajoelhou diante dela para limpar o ferimento.

Um homem como ele ajoelhado parecia errado.

Irreal.

Mesmo assim, continuava assustador.

Os dedos grandes seguraram delicadamente sua cintura enquanto ele passava o algodão com álcool sobre o corte.

Ardeu imediatamente.

Zara puxou o ar entre os dentes.

— Fica quieta.

A voz grave vibrou baixa.

Ela tentou ignorar o fato de que os dedos dele em sua pele estavam destruindo sua capacidade de pensar normalmente.

O calor da mão dele queimava através da camiseta fina.

A proximidade era sufocante.

O perfume dele.

A respiração calma.

Os olhos azuis concentrados nela.

Tudo parecia íntimo demais.

Perigoso demais.

Então Alexandre ergueu lentamente o rosto.

E encontrou Zara já olhando para ele.

O mundo inteiro pareceu parar.

Ela nunca tinha visto um homem daquele jeito antes.

Tão bonito que chegava a ser cruel.

Tão frio que parecia incapaz de amar alguém.

Mas naquele momento.

Os olhos dele não estavam frios.

Estavam famintos.

A respiração de Zara falhou.

Os dedos de Alexandre apertaram lentamente sua cintura.

O suficiente para fazê-la estremecer.

— Você deveria parar de olhar para mim assim — ele disse baixo.

Ela engoliu seco.

— Assim como?

Os olhos dele desceram até sua boca.

Demoradamente.

— Como se estivesse esquecendo que sou perigoso.

O coração dela disparou violentamente.

Porque talvez estivesse mesmo.

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