CAPÍTULO 3

Zara Morais

Imagens surgiram em sua mente,um computador desbloqueado, nomes, transferências bancárias, fotos, armas, e corpos.

Muitos corpos.

Ela engoliu seco.

— Pessoas morreram.

O silêncio dentro da cabana ficou ainda mais pesado.

A lareira crepitava atrás deles enquanto a tempestade continuava violenta do lado de fora.

Alexandre ficou observando Zara por alguns segundos longos demais.

Como se estivesse analisando cada detalhe dela.

Cada reação.

Cada mentira.

Então ele perguntou:

— Você matou alguém?

Ela ergueu os olhos rapidamente.

— Não.

Pela primeira vez, algo diferente atravessou o olhar dele.

Alívio.

Pequeno.

Quase imperceptível.

Mas Zara viu.

E aquilo a confundiu.

Porque por que aquele homem se importaria?

Alexandre se aproximou novamente.

Devagar.

Controlado.

Ainda assim, Zara sentiu o corpo inteiro entrar em alerta.

Ele parou tão perto que ela conseguia sentir o calor vindo dele.

Os olhos azuis desceram lentamente até os lábios dela antes de subir novamente.

— Você está tremenda.

— Estou com frio.

— Não.

A voz dele ficou mais baixa.

Mais perigosa.

— Você está com medo.

Zara sustentou o olhar dele dessa vez.

— Talvez eu tenha motivos.

Os cantos da boca de Alexandre quase se moveram.

Quase.

— Tem razão.

Um arrepio percorreu sua nuca.

Porque ele não negou.

Não fingiu ser alguém bom.

E isso era pior.

Muito pior.

Zara percebeu então algo perturbador, Alexandre Montenegro parecia completamente confortável sendo um monstro.

Ela tentou ignorar a tensão crescente entre os dois.

Tentou ignorar o modo como aqueles olhos frios percorriam seu rosto como se quisessem decorar cada detalhe.

Tentou ignorar o fato de que seu corpo reagia à presença dele de forma absurda.

Mas falhou.

Completamente.

— Por que está me ajudando? — perguntou num sussurro.

Alexandre inclinou levemente a cabeça.

Silêncio.

Então respondeu:

— Ainda estou decidindo se isso é ajuda.

O coração dela tropeçou dentro do peito.

Aquela resposta deveria fazê-la fugir.

Mas, estranhamente.

Foi naquele momento que Zara percebeu a verdade mais perigosa de todas,

Parte dela queria ficar.

******

Zara não dormiu naquela noite.

Mesmo enrolada nos cobertores grossos da cama enorme, o corpo permanecia tenso, incapaz de relaxar de verdade.

A tempestade continuava rugindo do lado de fora.

O vento batia contra as janelas da cabana como se quisesse entrar.

Mas não era a neve que a mantinha acordada.

Era ele.

Alexandre Montenegro.

O homem dos olhos de gelo.

Ela fechou os olhos por alguns segundos, tentando afastar a imagem dele da mente.

Falhou imediatamente.

A forma como ele a observava era perturbadora.

Intensa demais.

Como se enxergasse coisas que ninguém jamais havia enxergado nela.

E aquilo era perigoso.

Muito perigoso.

Zara aprendeu cedo que homens poderosos nunca faziam nada sem motivo.

Principalmente homens como Alexandre.

Homens frios.

Controladores.

Violentos.

Ela já conhecia aquele tipo de olhar.

Não exatamente igual ao dele… mas parecido.

Olhares que transformavam pessoas em posse.

Em propriedade.

Em algo que podia ser mantido preso.

Seu peito apertou.

Não.

Ela não cometeria o mesmo erro duas vezes.

Mesmo que Alexandre tivesse salvado sua vida.

Mesmo que parte dela se sentisse estranhamente segura naquela cabana.

Segurança podia ser uma ilusão.

E ilusões destruíam pessoas.

Zara se levantou silenciosamente da cama e caminhou até a janela.

A neve cobria tudo do lado de fora, tornando impossível distinguir onde a floresta começava ou terminava.

Ela precisava ir embora assim que amanhecesse.

Precisava desaparecer antes que aqueles homens a encontrassem.

Antes que Alexandre descobrisse demais.

Ou pior…

Antes que ela começasse a confiar nele.

O simples pensamento já parecia absurdo.

Ela soltou uma respiração lenta e virou o rosto.

Congelou imediatamente.

Alexandre estava parado na porta do quarto.

Silencioso.

Imóvel.

Observando.

O coração dela disparou tão forte que chegou a doer.

— Você tem o hábito irritante de aparecer sem fazer barulho? — perguntou, tentando esconder o nervosismo.

Ele continuou parado.

Vestia uma camisa preta de mangas dobradas até os antebraços, revelando tatuagens escuras marcando sua pele.

Os cabelos loiros estavam levemente bagunçados, dando a ele uma aparência ainda mais perigosa.

Os olhos azuis desceram lentamente até os pés descalços dela.

Depois subiram outra vez.

— Você deveria estar descansando.

A voz grave percorreu o corpo dela como um arrepio.

Zara cruzou os braços.

— E você deveria parar de entrar no quarto das pessoas sem avisar.

Um silêncio pesado tomou conta do ambiente.

Então, inesperadamente, os cantos da boca dele se moveram minimamente.

Quase um sorriso.

Quase.

E aquilo foi ainda mais perturbador.

Porque um homem como Alexandre Montenegro sorrindo parecia algo errado.

Perigoso.

— Esta é minha cabana, Zara.

Ela odiou a forma como ele pronunciou seu nome.

Calmo.

Possessivo.

Como se gostasse do som.

— Mesmo assim, educação existe.

Alexandre entrou no quarto lentamente.

Cada passo parecia calculado para deixá-la nervosa.

Funcionava.

— Você não tem medo de me provocar? — perguntou baixo.

Zara ergueu o queixo.

— Tenho medo de homens que fingem ser bons. Você não finge.

Os olhos dele ficaram presos nela por alguns segundos.

Longos demais.

Então Alexandre respondeu:

— Isso é inteligente da sua parte.

Ela engoliu seco.

Porque havia sinceridade naquela resposta.

Brutal e fria.

O silêncio voltou.

A tensão entre os dois parecia viva.

Pesada.

Quente apesar do frio.

Alexandre parou perto o suficiente para Zara sentir novamente o perfume dele madeira, whisky e algo perigosamente masculino.

O coração dela acelerou quando os olhos azuis percorreram seu rosto.

— Você deveria confiar mais nos seus instintos — ele disse.

Ela franziu a testa.

— O que quer dizer?

A expressão dele escureceu levemente.

— Eles estão dizendo para você não confiar em mim.

Um arrepio percorreu a espinha dela.

Porque era exatamente isso.

Desde o momento em que abriu os olhos naquela cabana, algo dentro dela gritava perigo.

Mas havia outro problema.

Algo ainda pior.

Outra parte dela

Não conseguia parar de olhar para ele.

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