Zara Moraes
Foi então que ouviu a voz.
— Você deveria continuar deitada.
Grave.
Calma.
Perigosa.
Zara virou rapidamente.
Ele estava sentado em uma poltrona escura perto da lareira.
Como se estivesse ali o tempo todo.
Observando.
O homem da porta.
Os olhos azuis permaneceram presos nela com intensidade desconfortável.
O fogo da lareira iluminava parcialmente o rosto perfeito e frio dele, criando sombras duras em sua expressão.
Alexandre Montenegro parecia menos humano naquele ambiente.
Mais sombrio.
Mais perigoso.
Zara recuou instintivamente.
Ele percebeu.
Claro que percebeu.
Homens como ele percebiam tudo.
— Quem é você? — ela perguntou com a voz rouca.
O silêncio durou alguns segundos.
Longos demais.
— Alexandre.
Só isso.
Sem sobrenome.
Sem explicações.
Mas havia poder naquele nome dito daquela forma.
Zara apertou os dedos ao redor do tecido do casaco largo que usava.
— Onde estão minhas coisas?
— Secando.
Ela engoliu seco.
— Você trocou minhas roupas?
Os olhos dele desceram lentamente pelo corpo dela antes de voltarem ao seu rosto.
— Você estava congelando.
A resposta simples deveria tranquilizá-la.
Não tranquilizou.
Algo naquele homem fazia seus instintos gritarem perigo.
Tudo nele parecia calculado demais.
Controlado demais.
Até a forma como permanecia sentado era intimidante.
Alexandre cruzou lentamente as pernas.
— Qual é o seu nome?
Zara hesitou.
Ela não deveria dizer.
Não deveria confiar em ninguém.
Mas aqueles olhos frios continuavam presos nela como se enxergassem muito além da superfície.
— Zara.
Ele repetiu mentalmente, quase em silêncio.
— Zara Moraes.
O sangue desapareceu do rosto dela.
— Como sabe meu sobrenome?
O olhar dele permaneceu impassível.
— Seus documentos estavam no bolso do casaco.
Claro.
Ela devia ter imaginado.
Mesmo assim, uma sensação ruim apertou seu estômago.
Alexandre se levantou.
E foi pior.
Porque sentado ele já parecia perigoso.
Em pé era absolutamente assustador.
Alto.
Largo.
Dominante.
Zara precisou lutar contra o impulso de recuar novamente quando ele caminhou lentamente em sua direção.
Cada passo parecia calculado para pressioná-la.
Controlá-la.
Quando Alexandre parou diante dela, o corpo de Zara ficou tenso instantaneamente.
Muito perto.
O perfume dele era frio, masculino… viciante.
— Ninguém sobe essa montanha durante uma tempestade sem motivo — ele disse baixo.
— Então vou perguntar mais uma vez.
Os olhos azuis prenderam os dela.
Intensos.
Mortais.
— Quem fez isso com você?
O coração de Zara disparou.
As imagens voltaram imediatamente.
Os homens.
A fuga.
O sangue.
O medo.
Ela desviou o olhar.
— Eu não posso dizer.
O maxilar dele travou discretamente.
Silêncio.
A tempestade rugia do lado de fora.
Então Alexandre ergueu lentamente a mão.
Zara ficou imóvel quando os dedos frios tocaram delicadamente o corte em sua testa.
O toque foi inesperadamente cuidadoso.
E aquilo assustou ainda mais.
Porque homens perigosos não tocavam assim.
— Você está com medo de mim, Zara? — ele perguntou quase num sussurro.
Ela deveria dizer sim.
Deveria.
Mas, estranhamente.
Não era apenas medo que sentia quando aqueles olhos azuis a observavam daquela maneira.
O toque dele permaneceu em sua pele mesmo depois que Alexandre afastou a mão.
Zara odiou aquilo.
Odiou a forma como seu corpo reagiu.
O arrepio.
O calor inesperado.
O coração acelerado.
Ela deu um passo para trás imediatamente, quebrando a proximidade sufocante entre os dois.
Os olhos azuis acompanharam cada movimento dela.
Calmos.
Atentos.
Como um predador observando algo que ainda não decidiu se vai proteger, ou destruir.
— Eu preciso ir embora — Zara disse rapidamente.
A expressão dele não mudou.
— Não.
A resposta seca a atingiu como uma parede.
Ela franziu a testa.
— Você não pode me prender aqui.
— Posso.
O silêncio que veio depois foi pesado.
Perigoso.
Zara cruzou os braços, tentando esconder o tremor nas mãos.
— Não sabe quem está me procurando.
— Sei o suficiente.
Aquela resposta fez o estômago dela gelar.
Alexandre caminhou até a mesa perto da lareira e pegou um copo de cristal com whisky.
Os movimentos eram lentos, precisos, elegantes demais para alguém com uma presença tão brutal.
Tudo nele parecia contraditório.
Bonito demais.
Frio demais.
Perigoso demais.
Ele tomou um gole da bebida sem desviar os olhos dela.
— Três homens passaram pela estrada da montanha há algumas horas — disse calmamente.
— Armados.
O ar ficou preso nos pulmões de Zara.
— Eles estavam procurando uma mulher brasileira.
Ela ficou imóvel.
Merda.
Eles tinham chegado perto.
Muito perto.
Alexandre apoiou o copo sobre a mesa.
— Quer me dizer por que homens armados estão caçando você no meio de uma tempestade?
Zara desviou o olhar.
Porque se olhasse diretamente para ele por muito tempo, teria a sensação absurda de que aquele homem arrancaria qualquer verdade dela.
Ela respirou fundo.
— Eu vi algo que não deveria.
Os olhos dele estreitaram minimamente.
— Que tipo de coisa?
O medo percorreu a espinha dela.