Eu já não sei há quanto tempo estou andando.
O escuro deixou de ser cenário e virou estado de espírito.
Meus passos são automáticos. Arrastar. Apoiar. Respirar. Doer. Repetir.
A dor não é mais um pico — é um fundo constante, como um ruído que nunca desliga. Minha perna pulsa, pesada, cada movimento um erro. O ar entra nos meus pulmões como se passasse por vidro quebrado. Mas a pior coisa… não é o corpo.
É que as vozes tinham voltado.
Não vozes reais.
Lembranças com som.
Frases. Tons. Olhares que eu reconstruo na minha cabeça como se estivesse preso numa sala onde só passam as piores cenas da minha vida.
“É o teu dever.”
“Eu preciso proteger a minha família.”
“Desculpa, garoto.”
Eu ando, mas por dentro estou parado naquele momento.
Então acontece.
Primeiro, eu penso que é só mais um delírio do cansaço.
Porque o ar muda.
Não fica mais leve — isso seria bom demais — mas fica… diferente. Menos pesado. Como se aquele lugar tivesse uma textura própria, uma presença.
Eu paro.
Meu coração bat