Mundo de ficçãoIniciar sessãoBella
O vinho tinto deslizava pela minha garganta, mas não conseguia aquecer o gelo que havia se instalado no meu peito. Eu observava o reflexo do meu rosto na taça de cristal, distorcido e pálido sob a iluminação indireta da Sala VIP. Isabella Andrade, a fugitiva. A mulher que não teve coragem de lutar, mas que teve o desespero necessário para partir. O som da minha própria voz pareceu patético, perdido entre o murmúrio baixo da música ambiente e o anúncio distante de voos. Eu estava sozinha em uma mesa de canto, cercada por poltronas de couro que cheiravam a dinheiro e privilégio, mas eu me sentia como um náufrago em um bote salva-vidas dourado. — É um brinde solitário para uma noite com tanto potencial. A voz era profunda, uma barítono rico que vibrou contra as paredes da sala e pareceu ressoar diretamente dentro das minhas costelas. Senti um solavanco no coração, um susto que me fez apertar a haste da taça com força excessiva. Limpei rapidamente o rastro de uma lágrima que ameaçava cair e olhei para o lado. Ele estava ali. Sentado a apenas duas mesas de distância, ele não apenas ocupava o espaço; ele o dominava. O homem usava um terno cinza-chumbo, de um corte tão impecável que só poderia ter sido feito sob medida em alguma alfaiataria exclusiva da Europa. A gravata estava levemente frouxa, o primeiro botão da camisa branca aberto, revelando uma pele bronzeada e o início de uma postura relaxada, mas vigilante. Mas foram os olhos que me paralisaram. Verdes. Tão intensos que pareciam duas joias cravadas em um rosto de traços fortes e mandíbula marcada. Ele me observava com uma curiosidade desarmante, como se eu fosse o quebra-cabeça mais interessante que ele já tentara resolver. — Às vezes, a solidão é a melhor companhia que podemos ter — respondi, tentando recuperar minha dignidade. Minha voz saiu mais firme do que eu esperava, mas o tremor nas minhas mãos me traía. Ele deu um sorriso de canto. Não era um sorriso gentil; era o sorriso de um homem que sabia exatamente o poder que exercia sobre os outros. Ele se levantou, e eu percebi que ele era alto, com uma elegância predatória que fazia meus instintos gritarem "perigo" e "desejo" ao mesmo tempo. — Posso? — Ele indicou a cadeira à minha frente. Eu deveria dizer não. Eu estava fugindo de problemas, não procurando por novos. Minha vida era um campo de destroços e eu estava prestes a cruzar o oceano para tentar colar os cacos. Mas havia algo naquela conexão visual, uma gravidade estranha que me puxava. — O assento está vago — murmurei. Ele se sentou, e o ar ao meu redor pareceu ficar subitamente mais denso. O perfume dele me atingiu em cheio: notas de sândalo, couro e algo puramente masculino que fez meu estômago dar voltas. — Rafael — ele disse, estendendo a mão. — Isabella. — Apertei a mão dele. A pele era quente, e o toque enviou uma descarga elétrica que percorreu meu braço e se alojou na base do meu ventre. — Então, Isabella... — Rafael saboreou meu nome como se fosse uma safra rara de vinho. — A que exatamente você está brindando? Liberdade é um conceito amplo demais para ser celebrado com tanta melancolia. Você parece alguém que acabou de ganhar uma guerra, mas perdeu tudo no processo. Senti um nó na garganta. Como ele podia saber? — É um brinde ao fim de uma era — menti, desviando o olhar para a pista de decolagem lá fora. — E ao começo de um grande ponto de interrogação. — Pontos de interrogação são excitantes — ele retrucou, inclinando-se para frente. O brilho verde de seus olhos estava agora a centímetros do meu. — Eles permitem que a gente invente qualquer resposta. Sem passado, sem expectativas. Apenas o agora. Ficamos em silêncio por um momento, mas era um silêncio carregado, grávido de possibilidades. Eu via o movimento rítmico da respiração dele sob a camisa fina. Cada segundo que passava, o peso do casamento de Rodrigo e Luiza parecia diminuir, substituído por uma urgência carnal que eu nunca havia sentido. Eu queria ser outra pessoa. Queria ser a mulher que esse homem via: uma estranha misteriosa em um aeroporto, e não a namorada rejeitada que fugia de casa. — Você está me olhando como se quisesse me desvendar, Bella — ele sussurrou, a voz agora rouca, íntima. — Talvez eu queira apenas esquecer quem eu sou por uma noite — confessei, a audácia do vinho e do desespero falando por mim. Rafael não hesitou. Ele se levantou e estendeu a mão novamente. Desta vez, não era para um cumprimento. Era um convite. Eu a peguei, sentindo meus dedos se entrelaçarem nos dele, e ele me conduziu para longe das luzes principais, em direção ao corredor mais reservado da sala VIP, onde as suítes de banho privativas ofereciam a promessa de isolamento total. Assim que entramos no ambiente de mármore e espelhos, ele trancou a porta. O som do trinco ecoou como o tiro de largada de uma corrida perigosa. Rafael me prensou contra a madeira fria da porta. O contraste entre o frio às minhas costas e o calor vulcânico do corpo dele me fez arfar. Ele não perdeu tempo com delicadezas. Suas mãos subiram pelo meu rosto, segurando minha mandíbula com uma possessividade que me fez estremecer. — Sem sobrenomes? — ele perguntou, sua boca a milímetros da minha. — Sem nomes. Sem amanhã — respondi, puxando-o pela nuca. O beijo dele foi uma devastação. Tinha gosto de vinho tinto e luxúria proibida. Não era o beijo contido de Rodrigo; era o beijo de um homem que tomava o que queria sem pedir permissão. Minhas mãos exploraram a largura de seus ombros, a força de suas costas sob o tecido caro do terno. Eu estava faminta por aquilo, por aquela sensação de ser desejada de forma tão bruta e honesta. Ele soltou o zíper do meu vestido, e o tecido deslizou pelos meus ombros como uma carícia de seda me deixando apenas de calcinha e sutiã. Senti o ar condicionado na minha pele nua, mas logo o calor das mãos de Rafael estava em toda parte. Ele me ergueu, e eu entrelacei minhas pernas em sua cintura, sentindo a dureza de seus músculos contra minhas coxas. Ele me colocou sobre a bancada de mármore. A superfície era gelada, mas eu estava em chamas. Rafael mergulhou o rosto no meu pescoço, deixando trilhas de fogo com sua língua e dentes. Eu soltei um gemido baixo, que foi abafado pelo som da água que ele abriu no chuveiro próximo, apenas para criar um véu de ruído branco que nos isolava do mundo. — Você é uma visão perfeita, Bella — ele rosnou, seus olhos verdes agora escuros como uma floresta à noite. Cada toque dele era uma forma de apagar as memórias dolorosas daquela manhã. Com um movimento rápido ele rasgou a minha calcinha e a arrancou, e então ele se posicionou em minha entrada, e o membro dele estava rígido feito rocha, e eu o puxei para mais perto, querendo acabar com o espeço entre nos, ele entrou em mim, de uma única vez, com uma estocada firme e profunda, foi como se o mundo lá fora deixasse de existir. Não havia aeroporto, não havia madrasta malvada, não havia uma irmã traidora. Havia apenas o ritmo frenético de nossos corpos, a pele suada deslizando contra a pele, e a sensação de que, pela primeira vez na vida, eu estava assumindo o controle do meu próprio prazer, mesmo que fosse com um desconhecido. Ele era intenso, incansável. Seus movimentos eram precisos, levando-me a picos de sensações que eu nunca imaginei alcançar. Eu arranhei suas costas, puxei seus cabelos, deixei que cada grama da minha frustração e da minha dor se transformasse em êxtase puro. Naquele pequeno banheiro de luxo, Rafael me fez sentir que eu era a única mulher no universo. Quando o ápice finalmente nos atingiu, foi como uma explosão, um aspiral de sentimentos. Ficamos abraçados por um tempo, a respiração dele pesada contra o meu peito, o coração batendo no mesmo ritmo errático que o meu. Ele se afastou lentamente, limpando uma mecha de cabelo loiro que estava colada no meu rosto. Houve um momento de vulnerabilidade no olhar dele que me assustou. — Você não faz ideia do que acabou de fazer comigo — ele disse, a voz baixa e carregada de algo que eu não soube identificar. Eu não respondi. Eu não podia. O alto-falante externo, abafado, anunciou a última chamada para o meu voo. O tempo havia acabado. Vesti-me rapidamente com as mãos trêmulas, evitando o espelho. Eu não queria encarar a mulher que acabara de se entregar a um estranho. Rafael observava cada movimento meu, agora encostado na parede, recomposto, mas com o olhar ainda fixo em mim. — É aqui que termina? — ele perguntou. — É aqui que eu começo — respondi, caminhando até a porta. Saí do banheiro sem olhar para trás. Corri pelos corredores do aeroporto, sentindo o peso do segredo daquela noite já começando a se formar dentro de mim. Entrei no avião, sentei na poltrona e fechei os olhos, tentando memorizar o verde daqueles olhos. Eu achava que nunca mais o veria. Achava que Rafael seria apenas uma lembrança quente para as minhas noites frias de solidão. Mas o destino, aquele mesmo a quem eu brindei, tinha um senso de humor muito peculiar. Eu não sabia que estava levando comigo mais do que apenas memórias.






