Rafael Mendes O silêncio sempre foi meu único refúgio. Desde que a mãe de Sofia desapareceu, transformando minha vida em um quebra-cabeça com peças faltando, eu fiz da minha casa um santuário de ordem e isolamento. Eu não queria ruídos, não queria rostos novos, não queria nada que me lembrasse de que o mundo lá fora continuava girando enquanto eu estava parado no tempo. Mas, naquela tarde, algo me impeliu a voltar mais cedo. Talvez o tédio das audiências, talvez uma saudade súbita do abraço pequeno de Sofia. Entrei em casa esperando o vazio de sempre, mas o que encontrei foi música em forma de voz. Vinha do andar de cima. Uma voz suave, melódica, contando uma história sobre balões e liberdade. Parei na porta do quarto de Sofia, a mão na maçaneta, e por um segundo, meu coração, que eu acreditava estar petrificado, deu um solavanco violento. Lá estava ela. Cabelos loiros caindo como seda pelas costas, os olhos azuis — aquele azul que me assombrou em cada sonho interrompido nas
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