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Capítulo 4: A voz sob a máscara

O silêncio que seguiu a fala da figura mascarada não foi vazio, foi pesado, como se o ar tivesse sido drenado da aldeia inteira e deixado apenas a sensação de algo prestes a romper. Sakura sentiu os dedos ficarem frios enquanto observava aquela presença imóvel no centro do vilarejo, e mesmo sem entender exatamente por quê, teve a certeza de que aquilo não era apenas um inimigo comum, mas algo que já sabia demais sobre ela antes mesmo de qualquer encontro acontecer.

Rintaro avançou um passo sem desviar o olhar, mantendo a espada firme como se o simples movimento fosse suficiente para separar o mundo em dois lados opostos. Aoi, por outro lado, não se moveu de imediato, mas o arco já estava tensionado em suas mãos, e o olhar que ela lançou para a figura mascarada carregava uma mistura estranha de cautela e reconhecimento que Sakura não conseguiu ignorar.

"Mostre o rosto", disse Rintaro, com a voz firme, mas sem elevar o tom.

A figura inclinou levemente a cabeça, como se estivesse analisando não apenas a ordem, mas a própria existência de quem a pronunciou. O bastão escuro que segurava tocou o chão com leveza, e um som seco ecoou pelo vilarejo vazio, espalhando um arrepio quase físico pelo ambiente.

"Você continua falando como se ainda tivesse autoridade sobre tudo", respondeu a figura, com uma calma perturbadora.

Sakura sentiu o estômago apertar. A voz era masculina, mas havia algo nela que parecia distorcido, como se viesse de dois lugares ao mesmo tempo. Ela tentou dar um passo para trás sem perceber, mas acabou trombando levemente em uma das estruturas de madeira da casa ao lado, o que chamou a atenção da figura mascarada por um breve instante.

"Não se aproxime dela", disse Aoi de repente, sem olhar para Sakura, mas com um tom que deixou claro que a frase não era sugestão.

Rintaro virou levemente o rosto para Aoi nesse momento, e por um segundo algo antigo atravessou o olhar dele, algo que Sakura não conseguiu identificar, mas que fez o ar entre os dois ficar mais denso do que qualquer presença espiritual ao redor. Aoi sustentou o olhar por tempo suficiente para que o desconforto se tornasse quase físico antes de desviar, como se tivesse encerrado uma conversa que nunca deveria ter começado ali.

A figura mascarada observava tudo com uma calma quase ofensiva, como se aquela tensão fosse exatamente o que esperava encontrar. Então, sem aviso, levantou o bastão e o bateu levemente no chão novamente, e o som dessa vez não ecoou apenas fisicamente, mas pareceu atravessar o espaço ao redor deles, distorcendo o ar por um segundo.

"Os fragmentos já começaram a responder à presença dela", disse a figura, agora olhando diretamente para Sakura.

Ela congelou. O simples fato de ser mencionada daquela forma fez algo dentro dela reagir, como se uma parte desconhecida estivesse despertando contra sua vontade. Sakura levou a mão ao peito instintivamente, sentindo um leve calor sob a pele, e isso não passou despercebido por Rintaro, que mudou a postura imediatamente.

"Afaste-se dela", repetiu ele, agora com mais força.

A figura inclinou o corpo levemente para frente, como quem observa algo interessante demais para ignorar.

"Você ainda não entendeu, não é?", disse ela, com uma leve ironia na voz. "Ela não foi levada para este tempo por acaso. O cristal escolheu uma âncora."

Sakura sentiu o coração acelerar. Aquela palavra, âncora, não fazia sentido, mas mesmo assim parecia perigosa demais para ser ignorada. Antes que pudesse perguntar qualquer coisa, Aoi finalmente avançou um passo, interrompendo a linha de visão entre Sakura e a figura.

"Se você sabe tanto sobre o cristal, então sabe o que está acontecendo com as aldeias", disse Aoi, com firmeza controlada.

A figura virou lentamente o rosto na direção dela, e por um instante o ambiente pareceu perder parte da luz natural.

"Elas não estão desaparecendo", respondeu. "Estão sendo esquecidas."

Sakura franziu a testa, tentando entender a diferença, mas o peso daquela frase parecia propositalmente incompleto, como se o sentido total estivesse escondido atrás de algo maior. Rintaro pareceu reagir mais rápido do que ela, estreitando os olhos.

"Isso não faz sentido."

A figura inclinou levemente a cabeça outra vez, quase como se estivesse sorrindo sob a máscara.

"Faz, para quem já viu o resultado completo."

Um silêncio curto caiu novamente, mas dessa vez não veio apenas da tensão entre eles. O ambiente ao redor parecia mais vazio, como se até mesmo o som estivesse sendo sugado para longe. Sakura percebeu então algo estranho nas bordas da aldeia: pequenas partículas de luz, quase imperceptíveis, começavam a se desfazer no ar, como poeira sendo apagada da existência.

"Rintaro", disse Aoi, agora com um tom mais urgente, "isso não é só um ataque comum."

Ele não respondeu imediatamente, porque também havia notado a mesma coisa. A mão dele apertou o cabo da espada com mais força, e por um instante a postura dele deixou de ser apenas defensiva e passou a ser instintiva, como se o corpo já tivesse reconhecido uma ameaça antes da mente.

A figura mascarada deu um passo para trás, e o bastão tocou o chão mais uma vez, mas dessa vez o som foi mais profundo, quase como um sino distante.

"Quando o cristal se completa, o tempo não se divide", disse ela. "Ele corrige."

Sakura sentiu um calafrio mais intenso do que todos os anteriores. A palavra “corrige” não soava como algo bom, soava como algo que apagava tudo que não deveria existir. Ela olhou ao redor novamente e percebeu que a pequena aldeia não estava apenas vazia, mas começando a perder nitidez, como se estivesse sendo desenhada por uma mão invisível e apagada ao mesmo tempo.

Rintaro avançou de repente, cortando o espaço entre ele e a figura mascarada com velocidade suficiente para levantar poeira do chão. A espada brilhou no ar, mas o golpe não atingiu nada sólido. A figura simplesmente desapareceu no instante do impacto, como se tivesse sido dissolvida antes do contato acontecer.

Sakura deu um passo para frente, assustada.

"Ele sumiu?"

Aoi olhou ao redor com atenção, mas não respondeu de imediato. O olhar dela estava fixo em um ponto específico do chão, onde o bastão havia tocado pela última vez, e foi ali que Sakura percebeu algo ainda mais estranho: um fragmento escuro de energia permanecia pulsando, como uma marca deixada para trás.

"Não foi fuga", disse Aoi, finalmente. "Foi aviso."

Rintaro guardou a espada lentamente, mas o olhar dele continuava preso no vazio onde a figura esteve. Havia algo ali que Sakura não conseguia decifrar, uma mistura de raiva contida e algo mais antigo, mais profundo, que parecia não pertencer exatamente ao presente.

Ela se aproximou dele com cautela.

"Você sabe quem ele é, não sabe?"

Rintaro demorou mais do que o normal para responder, como se escolhesse cada fragmento da própria memória antes de deixá-los escapar.

"Eu conheço alguém que falava assim", disse ele, por fim.

Aoi desviou o olhar nesse momento, e esse simples gesto foi suficiente para Sakura perceber que a resposta não era só sobre um inimigo.

Era sobre algo que ainda não tinha terminado entre eles.

O vento voltou a circular pela aldeia, mas agora parecia diferente, como se tivesse perdido parte da sua consistência. Sakura olhou novamente para o céu e teve a sensação clara de que aquele mundo estava começando a esquecer a si mesmo aos poucos, e que eles estavam bem no centro desse esquecimento.

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