Mundo de ficçãoIniciar sessãoA risada sombria que ecoava pelas montanhas desapareceu tão rapidamente quanto surgiu, mas a sensação estranha que ela deixou para trás permaneceu no ar. Sakura observou Rintaro por alguns segundos e percebeu que seu rosto havia mudado completamente. Pela primeira vez desde que o conhecera, ele parecia genuinamente preocupado. Não era a irritação costumeira nem a arrogância que demonstrava quase o tempo inteiro, mas uma expressão pesada, como se alguma lembrança antiga tivesse acabado de despertar.
Aoi enrolou o pergaminho e o guardou dentro da manga de seu quimono. Seus olhos estavam fixos na direção sul, enquanto uma brisa fria bagunçava seus cabelos. Sakura sentiu um arrepio percorrer os braços e tentou organizar as inúmeras perguntas que surgiam dentro da própria cabeça, mas elas se acumulavam tão rápido que parecia impossível escolher apenas uma. "Essa aldeia desapareceu como?", perguntou ela, finalmente quebrando o silêncio. Aoi desviou o olhar para a garota. "As casas continuam lá. Os objetos continuam lá. Os animais continuam lá. As pessoas simplesmente sumiram." Sakura arregalou os olhos imediatamente. "Todas elas?" "Todas." A resposta simples conseguiu deixá-la ainda mais desconfortável. Ela conhecia filmes de terror suficientes para saber que situações assim nunca terminavam bem. Rintaro começou a caminhar sem esperar pelos outros. Sakura rapidamente acelerou os passos para acompanhá-lo, enquanto Aoi seguia logo atrás. "Estamos indo para lá agora?", perguntou Sakura. "Sim." "E quanto tempo leva?" "Algumas horas." Ela suspirou profundamente. Ainda estava tentando aceitar a ideia de atravessar o Japão feudal inteiro, mas agora existia uma aldeia fantasma no meio do caminho. "Esse lugar está tentando me assustar de propósito." Rintaro soltou um pequeno sorriso. "Vai precisar de mais coragem daqui para frente." Ela o observou de lado. "Você fala isso como se estivesse acostumado." Seu sorriso desapareceu imediatamente. "Estou." A resposta foi curta, mas carregada de algo que Sakura ainda não conseguia decifrar. Havia uma tristeza escondida ali, embora ele parecesse determinado a mantê-la presa atrás de sua postura rígida. A caminhada prosseguiu por algumas horas. O céu começava a mudar de cor lentamente, misturando tons alaranjados com o azul escuro do fim da tarde. Durante o trajeto, Sakura descobriu que o silêncio de Rintaro não era exatamente desconfortável. Ele simplesmente parecia uma pessoa que falava apenas quando julgava necessário. Aoi também era reservada, mas observava absolutamente tudo ao redor. Já Sakura era o oposto dos dois. "Então vocês vivem assim todos os dias?", perguntou ela. "Assim como?", respondeu Aoi. "Correndo atrás de criaturas gigantes, objetos mágicos e aldeias desaparecidas." A arqueira deu uma pequena risada. "Não todos os dias." Sakura sorriu, mas a resposta continuou. "Alguns dias são piores." A garota perdeu o sorriso imediatamente. "Obrigada por acabar com a minha esperança." Rintaro soltou um breve som parecido com uma risada. Ela o apontou com o dedo. "Você riu de novo." "Não crie teorias." "Já estou criando." "Pare." "Não." Aoi observou os dois e balançou a cabeça, divertindo-se discretamente com a situação. Quando finalmente chegaram à aldeia, o ambiente mudou completamente. O vento havia parado, os pássaros tinham desaparecido e um silêncio perturbador ocupava cada canto do lugar. As casas estavam intactas, panelas permaneciam sobre fogueiras apagadas e alguns brinquedos de madeira estavam espalhados pelo chão. Sakura sentiu um aperto no estômago. "Isso é assustador." Ela caminhou até uma pequena bola de tecido abandonada no chão e a pegou nas mãos. Estava limpa, como se alguém a tivesse largado poucos minutos antes. "Não faz sentido." Aoi se aproximou de uma casa. "Concordo." Rintaro ajoelhou perto de algumas pegadas. "Tem alguma coisa errada." Sakura se aproximou dele. "Mais errada do que a aldeia inteira estar vazia?" Ele apontou para o chão. "Não existem marcas de luta." Ela olhou melhor e percebeu. Nenhuma casa estava destruída. Nenhum objeto estava quebrado. Nada indicava que havia ocorrido um ataque. As pessoas simplesmente tinham desaparecido. Um frio percorreu sua espinha. De repente, uma risada infantil ecoou entre as casas. Sakura congelou imediatamente. Ela olhou ao redor. "Vocês ouviram isso?" Aoi já havia preparado uma flecha. Rintaro segurava a espada. A risada surgiu outra vez. Dessa vez mais próxima. Sakura engoliu em seco. Então uma pequena garota apareceu atrás de uma casa. Ela devia ter cerca de sete anos e carregava uma boneca nos braços. Sakura respirou aliviada. "Tem alguém aqui." A menina ficou parada observando os três visitantes. "Você está sozinha?", perguntou Sakura com delicadeza. A criança assentiu. "Todos foram embora." Sakura se abaixou para ficar na mesma altura dela. "Foram para onde?" A menina apontou para a floresta. "Eles seguiram a voz." A expressão de Aoi mudou imediatamente. Rintaro também pareceu tenso. Sakura percebeu a reação dos dois. "Que voz?" A menina abriu um pequeno sorriso. "Uma voz bonita." Um arrepio percorreu o corpo inteiro de Sakura. "Que tipo de voz?" A criança inclinou a cabeça. "Uma voz que promete realizar desejos." O silêncio tomou conta do lugar. Rintaro levantou-se imediatamente. "Isso é ruim." Sakura sentiu o coração acelerar. "Muito ruim?" Ele assentiu. "Demais." A pequena garota continuava sorrindo, mas havia algo estranho em seu comportamento. Seus olhos estavam vazios demais, quase sem vida. Aoi se aproximou dela lentamente. "O que aconteceu depois?" A menina respondeu sem hesitar. "Eles desapareceram." A brisa voltou a soprar naquele instante. As árvores começaram a balançar. Então a criança ergueu a cabeça lentamente e apontou para trás de Sakura. A garota se virou. Seu coração disparou. No centro da aldeia havia surgido uma figura alta usando uma máscara branca. A mesma descrição mencionada no pergaminho. Ela permanecia imóvel, segurando um bastão escuro e observando os três. Sakura sentiu o ar faltar por um instante. Rintaro já havia desembainhado a espada. Aoi posicionou uma flecha no arco. Então, pela primeira vez, a figura mascarada falou. "Finalmente encontrei a portadora do Cristal das Quatro Almas." O sorriso desapareceu do rosto de Sakura imediatamente. Ela ainda não entendia por que tantas pessoas estavam atrás dela, mas começava a perceber uma coisa importante: sua chegada naquele mundo não tinha sido um acidente.






