Mundo de ficçãoIniciar sessãoO vento voltou a circular pela aldeia, mas nada parecia normal. As lanternas penduradas nas casas balançavam sozinhas e uma estranha sensação de vazio permanecia presa ao ambiente, como se a própria existência daquele lugar estivesse enfraquecendo pouco a pouco. Sakura observou as construções ao redor e percebeu algo que não tinha notado antes: algumas partes da madeira estavam desaparecendo lentamente, como tinta sendo apagada de um desenho antigo.
Ela arregalou os olhos e apontou imediatamente. "Rintaro… a parede daquela casa está sumindo." Ele virou a cabeça e seu semblante ficou ainda mais sério. "Estamos ficando sem tempo." Aoi caminhou até a marca escura deixada pela figura mascarada no chão e se ajoelhou. Com a ponta dos dedos, tocou a energia residual e fechou os olhos por alguns segundos. Sua expressão mudou quase instantaneamente. "Isso é magia temporal." Sakura franziu a testa. "Magia temporal existe mesmo?" Aoi levantou-se lentamente. "Existe, mas era considerada uma técnica perdida." Rintaro imediatamente desviou a atenção para ela. "Quem poderia usar algo assim?" A arqueira hesitou antes de responder. "Alguém que entende o funcionamento do Cristal das Quatro Almas melhor do que nós." Sakura soltou uma risada nervosa. "Maravilha. Cada resposta que aparece cria mais dez perguntas." Ela tentou brincar para aliviar a tensão, mas a própria voz saiu mais fraca do que pretendia. A realidade daquele mundo estava começando a se tornar pesada demais para ignorar. De repente, uma dor aguda atravessou sua cabeça. Ela levou a mão à testa. Uma imagem surgiu. Um campo enorme coberto por flores brancas. Uma espada cravada no chão. Uma silhueta de costas. Então tudo desapareceu. Sakura cambaleou. Rintaro a segurou antes que ela perdesse o equilíbrio. "O que aconteceu?" Ela piscou algumas vezes. "Eu… eu vi alguma coisa." Aoi se aproximou imediatamente. "O quê?" "Não sei explicar." Sakura respirou fundo enquanto tentava organizar a própria memória. "Tinha um campo cheio de flores, uma espada e alguém parado no meio." Rintaro congelou. Ela percebeu. "Você conhece esse lugar?" Ele desviou o olhar. "Talvez." "Talvez?" "Não tenho certeza." Aoi observava a reação dele em silêncio. Havia algo diferente em sua postura, como se a lembrança também tivesse despertado algo dentro dela. Sakura notou a troca de olhares entre os dois. Uma sensação estranha surgiu em seu peito. Não era raiva. Nem tristeza. Era uma pequena pontada de desconforto. Ela ainda não sabia exatamente o motivo. Antes que pudesse pensar melhor, um ruído começou a ecoar pela aldeia. Passos. Muitos passos. Os três imediatamente ficaram atentos. Das casas começaram a surgir dezenas de pessoas. Sakura arregalou os olhos. "Os moradores voltaram!" Ela deu dois passos para frente, mas Aoi segurou seu braço. "Espera." As pessoas continuavam andando. Mas algo estava errado. Ninguém piscava. Ninguém falava. Ninguém olhava ao redor. Pareciam vazias. Como bonecos seguindo um caminho invisível. Sakura sentiu um arrepio subir pelas costas. "Isso é assustador." Um senhor de idade passou ao seu lado sem sequer notar sua presença. Uma mulher carregando uma cesta também atravessou a rua. Uma criança caminhava segurando um brinquedo de madeira. Todos seguiam na mesma direção. A floresta. Rintaro observou tudo. "Eles não voltaram." Sakura engoliu seco. "Então o que são?" Aoi respirou fundo. "São ecos." A garota olhou para ela. "Ecos?" "Fragmentos de memória." Sakura ficou imóvel. "Quer dizer que essas pessoas nem estão aqui de verdade?" A arqueira assentiu. "Eles estão sendo apagados." A frase atingiu Sakura de uma forma inesperada. Ela olhou para as pessoas caminhando lentamente e sentiu um aperto enorme no coração. Era como assistir alguém desaparecer sem conseguir fazer absolutamente nada. Então percebeu uma coisa. A pequena menina da boneca também estava indo embora. "Espera!" Sakura correu até ela. Ajoelhou-se em sua frente. "Você consegue me ouvir?" A garota parou. Seus olhos vazios começaram a ganhar um pouco de brilho. "Ouço." Sakura sorriu de alívio. "Você lembra do seu nome?" A criança pensou por alguns segundos. "Miyu." "Ótimo. Miyu, onde estão seus pais?" A menina apontou para a floresta. "Eles seguiram a voz." A resposta era a mesma. Exatamente a mesma. Então Miyu levantou a mão e tocou o rosto de Sakura. "O seu brilho é bonito." Sakura ficou surpresa. "Meu brilho?" A criança assentiu. "É por isso que ele quer você." A garota imediatamente perdeu o sorriso. "Ele quem?" Mas Miyu já havia voltado a andar. Seu corpo começou a ficar transparente. Sakura levantou-se rapidamente. "Miyu!" A menina desapareceu no ar. Simplesmente desapareceu. Sakura ficou parada. Imóvel. A sensação de impotência a atingiu com força. Ela fechou a mão lentamente. "Isso não é justo." Rintaro observou seu rosto por alguns segundos. "Você não vai conseguir salvar todo mundo." Ela virou a cabeça rapidamente. "Eu sei." Mas seus olhos começaram a brilhar de irritação. "Mesmo assim eu quero tentar." Ele a encarou. Sakura sustentou o olhar. "Se eu puder ajudar alguém, mesmo que seja uma pessoa, já vale a pena." Por alguns segundos, Rintaro não respondeu. Então algo muito raro aconteceu. Seu semblante endurecido diminuiu. Como se uma pequena parte de sua armadura invisível tivesse se quebrado. "Você é estranha." Sakura franziu a testa. "Obrigada… eu acho." Ele soltou um pequeno sorriso. Aoi observou a cena em silêncio. Seu olhar demorou alguns segundos a mais em Rintaro. Mais do que o normal. Mais do que Sakura percebeu. Então a arqueira desviou a atenção para a floresta. "Tem alguma coisa vindo." Os três imediatamente se prepararam. Só que dessa vez não era uma criatura. Era uma voz. A mesma voz mencionada pela menina. Ela ecoava por toda parte. Suave. Bonita. Hipnotizante. "Venham…" Sakura sentiu seu corpo congelar. A voz continuou. "Venham até mim…" Ela deu um passo involuntário. Depois outro. Aoi segurou seu braço imediatamente. "Não escute." Mas a voz parecia entrar diretamente dentro da cabeça. "Abandonem seus medos…" Sakura levou a mão aos ouvidos. Mesmo assim continuava ouvindo. Rintaro fechou os olhos. Seu rosto mudou completamente. Como se estivesse lutando contra algo interno. Então, de repente, ele congelou. Uma palavra escapou de sua boca. "Akira…" Aoi arregalou os olhos imediatamente. Sakura também. "Quem é Akira?" Rintaro pareceu despertar de um transe. Seu rosto ficou pálido por um instante. Ele percebeu que havia falado sem querer. Aoi desviou o olhar rapidamente. Sakura observou os dois. Aquela palavra não era qualquer palavra. Era uma memória. Uma memória que ambos conheciam. Mas que nenhum dos dois queria contar. Antes que Sakura pudesse perguntar novamente, a voz começou a rir. Uma risada suave. A mesma que eles tinham ouvido na montanha. Então uma frase ecoou por toda a floresta. "Quanto mais fragmentos vocês recuperam… mais perto chegam da verdade." Sakura sentiu um arrepio percorrer seu corpo inteiro. Porque, pela primeira vez desde que havia chegado naquele mundo, ela começou a suspeitar que o maior segredo daquela jornada talvez não estivesse escondido no Cristal das Quatro Almas. Talvez estivesse escondido dentro das pessoas que a acompanhavam.






