Capítulo 4

Na rua já  não sabia quanto tempo havia passado desde que desci do galpão do Coroa. Minutos? Horas? Parecia uma eternidade comprimida dentro do peito.Caminhei  rápido pelos becos, tentando ignorar os olhares curiosos.

Na Rocinha, notícia boa corre rápido. Notícia ruim corre mais ainda.

— Alice? — Dona Meire apareceu na porta, o rosto preocupado.

— Tô bem —  menti.

A vizinha não acreditou, mas não insistiu.

Apenas segurou sua mão e apertou, um gesto de carinho que Alice não recebia em casa.

Quando finalmente cheguei na porta da casa dos meus  tios, respirei  fundo. O medo ali era outro

— menos perigoso, mais silencioso, mas igualmente sufocante.

Assim que entrei em casa , a tia Lenice veio como um furacão.

— Onde você tava? Biel disse que te viram com os homens do Coroa! Que vergonha!

Olha só o tipo de companhia que você atrai! Eu fechei  os olhos, sentindo as palavras como facas.

Ela sempre acreditou que o problema era eu, nunca o mundo ao redor.

— Eu fui confundida com outra pessoa — respondi.

A tia bufou. — É sempre a vítima, né? resolvi subir  para o quarto sem responder.

Joguei a mochila no chão, sentei na cama e deixei a realidade desabar.

Uma batida na janela me assustou. Quando abrir, vi Biel no beco lateral.

— Eu vim ver se você tá viva — disse ele, meio brincando, meio sério.

— Tô. Só… cansada. Ele hesitou, então perguntou:

— O Coroa… te fez algo? Eu pensei no olhar dele. No jeito como ele se aproximou. Na voz baixa que arrepiou sua pele. — Não — respondi rápido demais. Biel estreitou os olhos, desconfiado.

— Alice… esse cara não é brincadeira.

— Eu sei. Mas eu não sabia lidar com algo pior: A vontade absurda que sentiu de olhar de novo para ele.

porque admitir aquilo em voz alta seria atravessar uma linha que eu ainda fingia não enxergar.

— Eu sei — repeti, mais uma vez, mas para mim ,do que para o Biel.

Ele ficou me encarando por alguns segundos, como se procurasse rachaduras na minha resposta.

Depois suspirou.

— Fica esperta, Alice. Esse mundo engole gente como a gente.

Assenti. Eu sempre fui boa em concordar. Em sobreviver. Em não dar trabalho.

Quando ele foi embora, fechei a janela e encostei a testa no vidro frio. Só então percebi o quanto estava exausta. Não do corpo — da alma. Era como se algo tivesse sido deslocado dentro de mim, fora do lugar certo.

Deitei na cama, mas o sono não veio.

Fechava os olhos e via o galpão. O cheiro de pólvora. O silêncio pesado.

E, inevitavelmente, o olhar do Coroa.

Eu odiava tudo o que ele representava. O tráfico, a violência, o medo que se espalhava pelos becos como uma doença antiga. Eu cresci prometendo a mim mesma que nunca me deixaria envolver, que nunca confundiria poder com respeito.

Mesmo assim… quando pensava nele, não era o criminoso que surgia primeiro na minha mente. Era o homem. O controle. A calma perigosa. O jeito como ele me observou como se eu fosse um enigma — não um erro descartável.

Virei de lado, irritada comigo mesma.

— Para com isso, Alice — sussurrei no escuro.

Mas meu coração não obedecia.

Porque eu sabia, no fundo, que aquele encontro não tinha sido um acaso.

Tinha sido um choque de caminhos.

E, gostando ou não, o Coroa agora fazia parte da minha história—mesmo que só existisse no silêncio dos meus pensamentos…

por enquanto.

Eu precisava ainda ir trabalhar. Pensei que a rotina fosse me salvar. Que dobrar roupas, atender clientes, fingir normalidade fosse me colocar de volta no eixo.

Mas o cansaço venceu.

Deitei “só um pouco” e apaguei.

Quando acordei, o quarto estava escuro demais. O celular vibrava sem parar na cama. Olhei a hora e o desespero subiu pela garganta. Eu tinha perdido o horário. Tinha faltado no trabalho.

Sentei na cama num pulo e mandei mensagem para a dona Eva, os dedos trêmulos.

Dona Eva, me perdoa. Peguei no sono sem querer depois da faculdade. Sei que errei. Amanhã eu compenso, fico o dia inteiro se a senhora deixar.

A resposta demorou, e cada segundo parecia um julgamento.

Alice, eu fiquei preocupada. Mas a gente conversa amanhã. Pode vir mais cedo.

Soltei o ar devagar, sentindo a culpa pesar mais do que o cansaço.

Na manhã seguinte, tomei uma decisão que nunca costumava tomar: faltei à faculdade. Não por irresponsabilidade, mas por necessidade. Eu devia aquele horário. Devia aquela confiança. E, depois de tudo o que tinham falado sobre mim, eu não podia me dar ao luxo de errar mais.

Desci cedo, antes do sol esquentar os becos. A loja ainda estava fechada quando cheguei. Esperei sentada no degrau, observando o movimento acordar aos poucos. Cada rosto que passava parecia carregar uma curiosidade silenciosa.

Quando a dona Eva chegou, me olhou surpresa.

— Você não tinha aula hoje? — perguntou.

— Tinha — respondi, sincera. — Mas faltei pra cumprir o horário que perdi ontem.

Ela me encarou por alguns segundos e, então, assentiu.

— Entra. Vamos abrir.

Passei o dia inteiro ali. Organizei estoque, limpei prateleiras, atendi clientes, fiquei até depois de fechar. Meu corpo doía, mas minha mente estava estranhamente focada. Como se eu precisasse provar — para ela, para os outros, para mim mesma — que eu ainda era só a Alice de sempre.

Mas, mesmo dobrando roupas, mesmo sorrindo para clientes, havia uma sensação incômoda me acompanhando.

Como se eu soubesse que, por mais que eu tentasse voltar ao lugar de antes…algo já tivesse mudado.

 

 

 

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