Meu corpo tremeu só com a voz dele. Cada sílaba parecia tocar onde só ele podia tocar, e o calor entre nós crescia de forma quase insuportável. A provocação dele não estava apenas nas palavras; estava no olhar intenso que me queimava, no modo como se aproximava mesmo sem se mover, no ar carregado que nos envolvia.
— Hunn, que tensão — Maya disse, e eu agradeci por ela ter interrompido — não querem relembrar os velhos tempos? — disse maliciosa.
Revirei os olhos e, quando Luna me chamou para acompanhá-la até o banheiro, agradeci aos céus.
Luna não demorou no banheiro e, quando estávamos voltando, eis que o celular dela toca, com o pai avisando que precisava buscar a irmã mais nova em uma festa. Luna nem esperou que eu pegasse minha bolsa; saiu correndo pedindo desculpas e avisando para pedir carona à Maya.
Porém, antes de encerrar a noite, Maya já havia sumido com seu ex-namorado, Matteo, seu eterno caso indefinido. Eu estava decidida a pedir um Uber, mas Leon encontrou outra solução.
— Adrian mora para o mesmo lado que você, não se importa de levá-la, né, Adrian? — perguntou Leon, recebendo confirmação dele.
Naquela altura, eu já estava cansada de fingir naturalidade, mas não podia ceder. Não quando sabia que Adrian aguardava por aquele momento, seu olhar penetrante me acompanhando em cada passo.
Todos já haviam seguido para seus carros, e Adrian havia deixado o carro bem distante, fazendo o silêncio constrangedor pairar entre nós durante a caminhada. Cada passo acelerava meu coração, cada respiração parecia mais pesada.
Assim que entramos no carro, Adrian fez questão de ligar o som, deixando a música preencher o ambiente, mas apenas abaixando o volume para perguntar meu endereço.
Mesmo a música criando um clima mais leve, meu corpo reagia de outra forma. Dentro daquele espaço pequeno, eu podia sentir o perfume dele — um aroma que parecia gravado em minha pele, tão familiar quanto perigoso. Era impossível não me perder naquele cheiro que me provocava, que me lembrava cada toque, cada momento que passei ao lado dele.
Adrian sempre teve esse poder sobre mim, desde o último ano do colegial: calado, misterioso, intenso. Seu olhar era capaz de ler a minha alma, de me desarmar sem encostar um dedo. Na época, me apaixonei no mesmo instante. Agora, porém, sentia medo — medo de que ele percebesse o quanto ainda sentia, o quanto eu ainda estava vulnerável a ele.
Cada gesto dele era calculado, cada sorriso contava uma história que apenas nós dois entendíamos. O clima no carro tornou-se pesado, carregado de tensão e desejo contido. Eu precisava me manter firme, mas cada fibra do meu corpo reagia ao seu olhar, à sua proximidade, ao som da sua voz suave e provocante.
Uma música do Guns começou e eu comecei a cantar junto, de repente ouço uma risada de Adrian.
— Estranho que se lembre dessa música — ele disse, e eu o encarei, esperando que se explicasse — você não costumava gostar de rock, mas a única música que gostava era essa: Knockin’ on Heaven’s Door, do Guns N’ Roses. Sempre me fazia colocar para tocar várias vezes.
— Os médicos disseram que nem tudo se esquece, como músicas, sabores e lugares.
— E entregadores de pizza — ele completou, e eu revirei os olhos entendendo a referência.
A última vez que nos vimos foi na festa do aniversário de Leon. Eu estava na fazenda, mas meus pais, por serem amigos dos pais de Leon, me levaram naquela festa. Foi algo pequeno, somente com a turma. Leon pediu algumas pizzas e preparou bebidas; eu ainda estava debilitada, e ninguém insistia muito em me fazer lembrar das coisas. Eu, como boa atriz, fingia ter esquecido de outras pessoas além de Adrian.
Mas quando a pizza chegou, eu simplesmente cumprimentei Lucas, o entregador de pizza, a pessoa mais aleatória em minha vida na época. Aquilo ficou marcado na minha memória e na vida dos meus amigos.
— É, e entregadores de pizza — eu disse, ignorando Adrian, e continuei a cantarolar até chegar na minha casa. Parei apenas para me apresentar ao porteiro e liberar o carro dele.
Adrian parou o carro, e quando me virei para me despedir, ele já se preparava para sair…
Ainda com o costume de acompanhar até a porta!
— Essa é sua casa? — ele perguntou, mas já sabia a resposta — do jeitinho que descrevia.
Adrian ficou olhando para minha casinha; por mais que morasse em um condomínio de classe alta, eu era apaixonada pela arquitetura antiga, e minha casa era exatamente assim: grandes janelas, varanda e um pequeno jardim.
— Até o jardim — ele disse, encantado — “nem grande, nem muito pequeno, mas do tamanho que consigo cuidar.” Adrian repetiu exatamente como eu costumava falar, e eu fiquei surpresa.
Depois de tanto tempo, ele ainda lembrava de tudo, até dos mínimos detalhes.
Ainda o olhava surpresa quando ele virou para mim, um sorriso de canto se formando nos lábios — aquele sorriso que parecia feito unicamente para mim — e disse:
— Você pode ter se esquecido de mim, Cecília — começou — mas eu não esqueci nada de você. E farei de tudo para que se lembre de mim. Se lembre de nós.
Adrian entrou no carro e esperou que eu entrasse para partir, e eu fiquei parada na varanda, estática, com o coração disparado.
Estava prestes a enlouquecer.