Mundo ficciónIniciar sesión— Irina, preciso te apresentar a alguns amigos! — Brent, claramente desconcertado, se aproximou de mim às pressas.
— Agora não dá, querido — encarei-o no auge do meu cinismo. — Estou conversando com a sua amiga Morgana. Uma pessoa muito agradável.
— Ah, eu agradeço — ela riu, forçando uma doçura que não combinava em nada com a mulher que vi minutos atrás. — A sua esposa é linda e muito simpática.
— Sim, ela é — Brent concordou, surpreendendo-me. Encarei-o. Ele e Morgana se olhavam. É... Os dois brigaram. — Vamos, querida? — Direcionou a sua atenção para mim. — É realmente importante.
Assenti com a cabeça, me despedi à contragosto de Morgana e segui com Brent até a mesa do homem que o chamou anteriormente. Ele era um parceiro de negócios. Margot continuou conversando com Morgana e eu sabia que a minha amada irmã teria alguma novidade para me contar assim que pudesse. Contracenei ao lado de Brent Turner durante longos minutos e quando cansamos, pedimos licença e voltamos para perto das nossas famílias. Nesse momento o evento havia acabado e as pessoas se retiravam aos poucos.
— Irina, preciso falar contigo por um instante! — Margot disse quanto todos nós estávamos no estacionamento da mansão dos Holtz.
— Claro! — Ansiosa, segurei a sua mão e me distanciei dos nossos familiares junto a ela. — O que você descobriu?
— Morgana Jones é filha de Gregor Jones! — Margot soltou a informação de uma vez, sem rodeios. — Filha única, herdeira da construtora. Está engajada nos projetos do pai e pretende assumir a empresa.
— Não brinca! — Chocada, arregalei os olhos. — Brent está dormindo com o inimigo? Será que ele sabe?
— Claro que sabe! Ela é uma Jones! — Respondeu como se fosse óbvio. — É evidente que Brent sabe que Morgana irá assumir a construtora.
— E esse é somente um dos negócios da família Turner, então ele não se importa — refleti. — Mas é o principal negócio da nossa família.
— Você tem que conversar com ele.
— Sim... — Respirei fundo, tensa. — Vou encontrar o melhor momento para isso.
— Hoje não. Brent deve estar se sentindo acuado e essa conversa pode acabar em uma grande discussão.
— É, você está certa.
Depois que todos nós nos despedimos, ocupamos os nossos carros e cada um tomou o seu rumo. O Maybach de Brent, como sempre, estava silencioso. Chegamos em casa e eu rapidamente subi para o meu quarto na intenção de me desfazer da produção para o evento e tomar um banho relaxante. Brent foi para o seu escritório calado. O que deve estar rondando aquela cabecinha coberta por fios de cabelo castanhos e ondulados?
— Vou beber água antes de me deitar — vesti o meu robe cinza por cima da camisola, saí do quarto e desci a escada. Ao chegar na cozinha, encontrei Brent apoiado na pia segurando um copo de uísque. — Boa noite — cumprimentei-o por educação enquanto pegava um pouco de água.
— Acho que precisamos conversar.
— Sobre? — Não me virei para olhá-lo.
— Sei que você lembra da situação das joias — parei de beber água, realmente impressionada com o assunto que ele queria tratar. Dessa vez, encarei-o. — Nos encontramos na joalheria naquele dia e acho que você presenciou uma cena lamentável. Sinto muito.
— Que cena?
— Irina... — Brent respirou fundo. — Você sabe.
— Não, não sei.
— Eu comprei uma joia infinitamente mais cara para Morgana e não dei a devida atenção para o presente que te direcionaria — ao terminar de falar, ele bebeu o restante do uísque em seu copo. — Me desculpe.
— Ah, aquele dia que você me tratou como uma criança mal-educada! — Fingi lembrar. — Você disse que a pulseira poderia ter qualquer embalagem... O padrão da loja! Isso, foi isso! — Ri sem vontade, chateada. Ao descobrir que aquela peça era para mim, percebi que pela primeira vez na vida fui tratada com desprezo por alguém. — Mas não se preocupa, Brent. Eu não guardo rancor.
— Quando te vi ali, não soube como reagir — encolheu os ombros, acuado. — Fiquei constrangido. Eu já tinha te visto por fotos e te reconheci rapidamente.
— E a sua melhor reação foi me tratar mal? Uau! — Neguei com a cabeça. — Mas isso é o que você mais faz, então não importa. Esse casamento não tem amor, não tem sentimento algum. Nada importa desde que você não manche a minha reputação e a da família.
O silêncio pairou no minuto seguinte. Brent encarava o chão e eu via o quanto estava envergonhado. Disposta a acabar com aquilo, simplesmente deixei o copo no balcão e retornei para o meu quarto. O meu coração batia acelerado. Estou exausta. Na manhã seguinte, o meu café da manhã foi tranquilo. Eu estava sozinha, pois, de acordo com Helga, Turner madrugou no prédio da holding. Fui para o trabalho, voltei para casa no fim do dia e não encontrei Brent em momento algum. E isso se repetiu até a quinta-feira.
— Como hoje é sexta-feira e eu soube que vocês gostam de se reunir para beber e conversar um pouco... — Iniciei, olhando para os funcionários do meu setor. — Decidi oferecer uma noite de bebidas e comidas grátis para vocês como um agradecimento pela recepção gentil e pela dedicação em cumprir as novas tarefas.
Palmas ecoaram pelo local e eu ri, divertindo-me com tanta animação. Brenda entrou em contato com o bar que o pessoal costumava ir e me comunicou que a equipe do lugar enviaria a conta para mim quando a farra acabasse. Após muita insistência, aceitei o convite dos meus colegas de trabalho e fui com eles até o tal bar. Era pequeno, meio escuro, repleto de gente. Porém, ao contrário do que esperava, eu gostei do clima íntimo dali.
— O senhor Turner não vai se incomodar com a senhora aqui? — Brenda questionou assim que se sentou ao meu lado nos bancos do balcão.
— Brent foi para o prédio da holding e nesse horário... — Conferi o meu relógio de pulso. — Deve estar resolvendo um assunto pessoal na cidade vizinha.
— E como a senhora vai voltar para casa? — Ela tomou um gole do seu drink e eu fiz o mesmo com o meu.
— O motorista está me esperando no saguão da T&C, eu não pretendo demorar muito — observei as pessoas se divertindo ao meu redor. Há tempos não tenho essa sensação de... Liberdade. — Vim para cá porque vocês são bons argumentadores — Brenda gargalhou. — E eu tomei uma ótima decisão.
— Que bom, senhora Turner!
— Ah, não! Aqui não! — Fiz careta. — Sou Irina!
— Então vamos dançar, Irina!
Sem hesitar e já sentindo os efeitos do álcool sobre o meu corpo, levantei-me do banco e acompanhei Brenda até o pequeníssimo espaço reservado para a dança dos clientes. Esbarrávamos uns nos outros e ríamos disso. Eu dancei como há longos meses não dançava. Aproveitei ao máximo. Bebi mais um pouco e quando percebi que estava próxima ao meu limite, parei e me despedi dos colegas. Brenda me acompanhou na volta para a T&C e eu pedi que o motorista a deixasse novamente no bar. A minha assistente estava saltitante, feliz da vida.
— A senhora quer um pouco de água? — O motorista perguntou enquanto dirigia.
— Por quê? — Franzi o cenho. Ele, receoso, olhou-me pelo retrovisor. — Pareço estar bêbada?
— A água ajuda a diminuir a tontura — o homem abriu o compartimento que guardava garrafinhas de água e pegou uma para mim. Aceitei sem pensar duas vezes. Estou com sede. — Provavelmente a senhora está com sede.
— Sim — confirmei depois de beber todo o líquido gelado. — Obrigada.
— Por nada.
— Como é o seu nome? — Zonza, apoiei a cabeça na porta do carro. — Acho que ainda não te perguntei.
— Robert, senhora.
— Robert, quanto tempo eu fiquei no bar? Você sabe?
— Duas horas, senhora.
— Nossa... — Surpreendi-me. — Desculpe por te deixar esperando todo esse tempo.
— Faz parte do meu trabalho, senhora.
Conversamos durante todo o trajeto até a casa de Brent. Quando chegamos, Robert foi cavalheiro ao me ajudar a entrar na mansão. Agradeci-o e passei pela sala devagar enquanto ria dos meus passos moles. Caramba... Eu estou mesmo bêbada.
— Onde você estava?
— Ahhhh! — Gritei de susto ao ouvir a voz grave de Brent ecoar pela casa. Paralisei no lugar que estava e o procurei. Ele saía do seu escritório.
— Está descalça? — Cerrou os olhos para mim. Os seus cabelos estavam bagunçados e ele usava as roupas que normalmente vestia em casa. Será que dormiu no escritório?
— Saltos atrapalham às vezes.
— Onde você estava, Irina? — Insistiu.
— Saí.
— Isso eu percebi porque você não voltou para o jantar, mas para onde você foi? — Cruzou os braços, tornando-os ainda mais musculosos.
— Para um bar! — Sorri abertamente. Turner arqueou as sobrancelhas, surpreso. — Foi muito legal! Muito mesmo!
— Com quem foi?
— Por que quer saber? — Agora quem cruzou os braços fui eu.
— Você deixou alguém perceber alguma coisa?
— Claro que não!
— Com quem estava?
— O que te interessa? — O álcool me motivava a provocá-lo. Eu queria irritá-lo.
— Caso não tenha percebido, você é minha responsabilidade! — Disse alto e, inquieto, mexeu nos cabelos castanhos. — E se você estava com alguém que pudesse te pôr em risco?
— Você se preocupa? — Ri soprado. — O viúvo Turner comoveria a imprensa.
— Vai me dizer ou prefere que eu pergunte à sua mãe?
— Jogo sujo! — Resmunguei. Ele sabia que a minha mãe iria encher o meu saco falando sobre os riscos de sair por aí para beber e acabar expondo o nosso casamento de fachada. — Saí com os funcionários do meu setor, satisfeito?
— Você é chefe, não pode se misturar.
— O setor está sob o meu comando e eu o guio do modo que quiser! — Rebati. — Nisso você não pode se meter!
Ao perceber que Brent não me daria resposta, girei o corpo na direção da escada e escorreguei ao tentar subir o primeiro degrau. Turner rapidamente veio ao meu socorro. Os seus braços grandes e fortes rodearam o meu corpo com tanta firmeza que eu me permiti ser levantada e guiada por ele até o andar de cima.
— Você está muito bêbada — Brent reclamou assim que abriu a porta do meu quarto.
— Tive uma noite feliz! Eu dancei muito! — Ri, sentindo-o guiar o meu corpo até a cama. — Sabe... Eu deveria ter ficado com alguém... Faz tempo que não beijo — confessei. — Tinha tanto homem bonito lá, Brent... — Ele me sentou na cama e eu me joguei para trás, deitando-me. — Esbarrei em vários deles e...
— Isso foi perigoso — Turner me interrompeu enquanto retirava o meu relógio de pulso e os meus brincos. — Não faça de novo.
— Mas eu não...
— E não precisa me contar como foi a sua experiência nesse muquifo! — Prosseguiu. Eu bufei. — Vai dormir — posicionou o cobertor sobre o meu corpo, caminhou até a porta e desligou as luzes do quarto. — Nem preciso te desejar boa noite.
— Está sendo minimamente cuidadoso comigo só por que está se sentindo culpado? — Gritei a pergunta quando ele fechou a porta do quarto. Será que me escutou? — Que se dane... — Murmurei, já embalada pelo sono.







