Mundo ficciónIniciar sesión— Por que está me perguntando isso? — Brent franziu o cenho.
— Acho que é uma informação necessária na situação que estamos. Você não me deve explicações, é verdade, mas eu estou nessa história e preciso saber porque faço parte dela de alguma forma.
— Não tenho ninguém.
— Mesmo?
— Por que me pergunta se vai duvidar da resposta?
— Porque eu te vi com alguém.
— Ela é uma amiga — bufou. — Eu estava encontrando um grupo de amigos naquele dia.
— Tudo bem.
Não dissemos nenhuma outra palavra até chegarmos na sua casa. Assim que entramos, seguimos os nossos caminhos: Brent foi para o seu escritório no térreo e eu subi para o meu quarto. Horas mais tarde, iniciamos o jantar em um silêncio quase absoluto. Apenas os barulhos dos nossos talheres eram ouvidos. Quando terminou de comer, Brent pediu licença e se retirou. Suspirei ao olhar para aquela mesa enorme só para mim. Me sinto pequena e impotente diante dela.
— Bom, hoje é o meu primeiro dia oficial de trabalho e eu reuni vocês aqui para falar um pouco sobre a minha visão do que é arquitetura e do impacto que ela tem na qualidade de vida das pessoas — iniciei a reunião, de pé diante da mesa ocupada pelos funcionários do meu setor. — Precisamos compreender o serviço que fazemos para darmos importância a ele e nos dedicarmos cada vez mais.
A reunião durou cerca de duas horas. Falei bastante, ouvi as demandas do setor, conversei com os coordenadores e solicitei os projetos atuais para dar uma olhada. Hoje, ao me dar conta de que terei uma ocupação para os meus dias vazios, acordei animada e disposta a dar tudo de mim nisso. Almocei com Brenda na minha sala provisória e nem percebi o tempo passar. Quando me dei conta, já havia anoitecido.
— O senhor Turner me deixou à sua disposição para levá-la para casa — assim que cheguei ao saguão do prédio, surpreendi-me com a aproximação repentina do motorista de Brent. — Podemos ir?
— E onde ele está?
— Disse que tinha uns assuntos para resolver na cidade vizinha.
— Sei... — Estreitei os olhos, suspeitando da sua atitude. Brent certamente foi encontrar a tal amiga. — Podemos ir, sim. O meu serviço acabou por hoje.
Jantei na minha própria companhia e decidi ignorar o meu incômodo com o covil que Brent chamava de casa para aproveitar aquela refeição sozinha. A presença imponente de Brent Turner às vezes me deixa tensa demais para saborear qualquer prato. No fim da noite, vesti uma camisola e um robe, ambos azuis, e decidi ver um filme no pequeno cinema que havia dentro da mansão. Não sei em que momento dormi, mas acordei sentindo frio e logo saí dali.
— Que horas são? — Questionei ao ver Brent diante da geladeira. Ele estava com a camisa social preta aberta, exibindo o seu peitoral bem definido. — Chegou agora?
— Por que tantas perguntas?
— Achei que durante à noite você fosse mais amigável — revirei os olhos e bufei. — Mas você é imprevisível demais para acreditar em algo.
— Ah, está falando daquele dia aqui na cozinha? — Riu soprado. — Eu estava sob efeito de um medicamento. Não o tomo mais, inclusive. Odeio esses remédios.
— Boa noite.
Sentindo um desconforto considerável, subi a escada e me tranquei no meu quarto. Liberei um longo suspiro e me joguei na cama. Troglodita. Por que Brent tem que ser tão babaca? Por que é tão frio? Talvez a sua casa só reflita quem ele é. Inquieta, remexi-me na cama e não consegui dormir. Enviei algumas mensagens para Margot, mas ela não estava disponível por serem três horas da madrugada. Passei algum tempo jogando um jogo aleatório que eu tinha no celular até que o sono veio e eu adormeci.
— Mãe? — Cheguei no topo da escada e vi a minha mãe sentada no sofá da sala. — O que está fazendo aqui?
— Que linda a minha filha toda arrumadinha para ir trabalhar! — Ela ficou de pé e me recebeu com um abraço caloroso. Quando nos soltamos, percebi que Brent estava sentado em uma das poltronas da sala. — Decidi vir cedo justamente porque queria que os dois ainda estivessem em casa.
— O que aconteceu?
— Não é nada sério, não se preocupe — segurou as minhas mãos e me guiou até o sofá onde estava anteriormente. Sentamos lado a lado. — Sabe a Janice Holtz, minha amiga?
— Sei.
— Ela organizou um jantar beneficente e convidou os Collins e os Turner para o evento — anunciou sorridente. Olhei discretamente para Brent, que não esboçava expressão alguma. Parecia estar cansado e eu imagino o porquê. — Seria incrível se o casal mais poderoso da região aparecesse. Vocês chamariam a atenção para a boa causa e reforçariam para o público o laço do matrimônio.
— Eu... — Hesitei, insegura. — Eu não sei, mãe. É tudo muito novo, as pessoas ficarão no nosso pé, farão perguntas...
— É só não responder — Brent me interrompeu. — Sorria, balance a cabeça em concordância para qualquer bobagem que disserem e saia.
— Brent conhece bem a técnica! — A minha mãe riu. — É isso, filha.
— Ainda não sei — encolhi os ombros, indecisa. — E se perceberem algo e vierem...
— Não perceberão e nem virão — Turner me interrompeu outra vez. — Nós iremos ao evento, Olivia. Pode confirmar com a sua amiga.
— Mas... Brent... — Confusa, acompanhei os seus movimentos. Ele se levantou e passou a mão nos cabelos ondulados. — Você não pode decidir assim sozinho.
— É o melhor para nós dois — abotoou o paletó e foi até a minha mãe, que ficou de pé e o abraçou. — Tem algo mais a tratar, Olivia?
— Era apenas isso! — Ela sorria abertamente, satisfeitíssima. — Vocês podem seguir para o trabalho! Eu tenho hora marcada na dermatologista!
— Calma aí... — Levantei-me também. — Quando é esse jantar?
— Amanhã — Olivia Collins respondeu de modo simples, como se o evento anunciado um dia antes não fosse nada. — Não se preocupe, eu já tenho tudo organizado para você.
Sentindo-me contrariada por não ter sido ouvida e por ter que vestir o que a minha mãe providenciou, entrei calada no Maybach de Brent e não disse uma palavra até chegar na minha sala. Turner não fez questão alguma de tentar falar comigo, o que não me surpreendeu. Mais um dia de trabalho se iniciou e eu pude esquecer dos problemas que rodeiam a minha vida. Era muito boa a sensação de tomar decisões, direcionar as pessoas, escutá-las e tentar ajudá-las. Isso nunca fez parte do meu dia a dia antes.
— Comecei o jantar sem você — Brent disse assim que ocupei um assento na mesa. — Espero que não se importe.
— Não me importo — disposta a tratá-lo com indiferença, mantive os meus olhos atentos à comida para escolher o que queria.
— As coisas estão indo bem no seu setor?
— Estão — surpreendi-me com a sua pergunta, mas fingi normalidade.
— Teve alguma dificuldade?
— Brenda me ajudou.
— Na próxima semana eu vou ficar no prédio da holding e o motorista estará disponível para você.
— Certo.
Voltamos à programação normal e comemos no silêncio. Zero palavras. Quando terminamos, seguimos para os nossos quartos e finalizamos a nossa noite. Eu dormi como um bebê. Ao contrário do que imaginei, esse trabalho estava me fazendo bem. No dia seguinte, tive que suportar o entra e sai das pessoas na casa de Brent. A minha mãe havia convocado os seus maquiadores, cabeleireiros e costureiros preferidos para nos arrumar. Margot, Michael, Claire e o meu pai também vieram. Brent parecia não se incomodar e conversava com todos.
— Minhas filhas tão lindas! Todas belíssimas! — O meu pai nos abraçou ao mesmo tempo quando nos viu prontas para o evento. — E a minha esposa, claro, é um monumento que deveria ser apreciado em uma galeria de arte! — Nós rimos enquanto os dois se aproximavam para um selinho.
— Minha bela senhora — Michael se curvou diante de Margot e cedeu o seu braço para que ela o segurasse.
Estávamos na presença de dois casais lindos e apaixonados.
— Irina, será que você pode me acompanhar? — Brent me convidou. — Serei rápido.
— Tudo bem — concordei, revirando os olhos ao notar a empolgação dos meus familiares com o ato. — O que houve? — Questionei ao entrar no escritório. Brent caminhou até a sua mesa imponente e voltou segurando uma caixa branca envolta por um laço azul.
— Eu deveria ter te dado no dia que nos casamos.
Aceitei o presente e o agradeci. Retirei o laço, a tampa, peguei a caixa preta de veludo que havia ali dentro e a abri. Engoli em seco, petrificada, ao ver o que ganhei: uma pulseira de rubis e diamantes. Aquela pulseira. A pulseira que eu o vi comprando com tanto desprezo na joalheria.
“— E a pulseira com rubis e diamantes? Como quer a embalagem?
— Qualquer uma. O padrão da loja está bom.”
Aquela lembrança se repetia na minha mente e eu não sabia como reagir. Um nó se formou na minha garganta. Me sinto esquisita.
— Não gostou? — Seus olhos verdes focaram nos meus. Abri e fechei a boca várias vezes, porém nenhuma resposta saiu. — Eu não sabia o seu gosto e...
— Vou usá-la esta noite — interrompi-o, disposta a não criar nenhum desconforto que pudesse atrapalhar a nossa performance mais tarde. — A sua intenção era essa, não?
— Sim, mas...
— Obrigada, vou usar — retirei a pulseira da caixa e a coloquei, afastando todos os pensamentos ruins da minha mente. Preciso ser convincente durante o evento e esse presente de merda não vai me derrubar. Vou usá-lo como fonte, mesmo que ruim, de energia. — Vamos?
— Vamos.
Brent parecia confuso, porém, assim como eu, decidiu entrar no personagem e seguir o roteiro. A minha mãe distribuiu elogios para a pulseira enquanto Margot, lembrando da situação, me lançou um olhar solidário. Chegamos no local do jantar, tiramos fotos em família junto aos Turner e fotos de casais, fomos recebidos pelos anfitriões, mais fotos, cumprimentamos conhecidos e desconhecidos, mais fotos, bebemos champagne, conversamos, mais fotos. Cansativo.
— Um minuto, eu já volto — Brent falou para mim antes de se levantar e se distanciar da nossa mesa.
Margot e eu iniciamos uma conversa sobre a pulseira. Expliquei que não pretendia falar sobre isso com ele, até porque não estávamos em um casamento tradicional e a sua falta de carinho ao comprar a peça se justificava.
— Meu amor, vamos dançar? — Michael chamou Margot, que logo aceitou.
O meu pai fez o mesmo com a minha mãe. Os Turner também foram. Nathan me pediu licença para ir atrás de uma mulher por quem se interessou. Claire e eu sobramos na mesa. Abracei-a de lado e beijei a sua cabeça. Ela passou a falar sem parar sobre o seu tão sonhado castelo inflável. Eu ri. Enquanto a escutava e observava os casais dançando, localizei Brent em um canto conversando com uma mulher.
— É a tal amiga... — Murmurei ao reconhecê-la.
— O que disse? — Claire me olhou, curiosa.
— Como vão as suas amigas? — Sorri quando ela sorriu.
A minha irmãzinha se dedicou a comentar sobre as suas amigas e eu me esforcei para ouvi-la ao mesmo tempo em que acompanhava a movimentação de Brent e a “amiga”. A mulher gesticulava, ele tentava conter as suas mãos, ela fechava os olhos e negava com a cabeça. Estão brigando? O clima parece não estar nada bom.
— Amigos! — A música parou e Janice assumiu o microfone. — O jantar será servido!
Os Collins e os Turner se juntaram e todos nós fomos até a enorme mesa de jantar posicionada no centro da luxuosa área de eventos da família Holtz. Brent veio conosco. Assumimos os nossos lugares, que estavam indicados com pequenas placas sobre a mesa, e finalmente iniciamos o jantar. Falta pouco, Irina! Aguenta firme! Minutos mais tarde, eu saboreava uma deliciosa lagosta ao Thermidor quando notei os olhares que Brent trocava com a mulher com quem conversava anteriormente. Ela estava bem à nossa frente.
— Eu pensava que era impossível você ficar ainda mais linda — estremeci de susto ao ouvir a voz de Peter Holtz, filho de Janice, ao meu lado. Encarei-o com espanto. Ele riu. — Me enganei.
Infelizmente Peter ainda era apaixonado por mim. Namoramos por cinco meses e os meus sentimentos deixaram de existir quando descobri que ele iniciou o nosso namoro antes de terminar o relacionamento com uma colega de turma na faculdade. Eu basicamente fui a outra por um tempo.
— Não está vendo o meu marido? — Sussurrei. Brent estava ao meu lado esquerdo e Peter ao direito.
— Ele é que não está te vendo — riu baixo. — Um otário.
Optei por não manter a conversa com Peter para não arriscar me expor. Quando o jantar acabou, voltamos para a área de mesas menores e os casais foram dançar mais uma vez. Papai convidou Claire para ir à pista e agora eu fiquei na companhia de Margot. Michael dançava com a nossa mãe. Brent, não me surpreendendo, estava falando com a mulher de novo. Ela ainda parecia estar irritada com algo e ele tentava controlá-la.
— É a mulher do restaurante, não é? — Margot perguntou.
— A própria.
— Bravinha.
— E ele parece à mercê dela, nada a ver com o Brent Turner frio que conheço.
Um homem se aproximou dos dois, cumprimentou Brent e o levou para uma mesa. As pessoas que a ocupavam se levantaram para recebê-lo. Quando voltei a minha atenção para a mulher, ela sumiu. Mas não por muito tempo. De repente a desconhecida surgiu sorridente diante da minha mesa. Por algum motivo me senti desafiada e fiquei de pé.
— É um prazer conhecê-la pessoalmente, senhora Turner — ela manteve o sorriso e estendeu a mão para mim. Eu a apertei. — Brent fala sobre você.
— Fala bem, eu suponho.
— Com certeza — a mulher riu. Estávamos competindo para saber quem era a mais falsa. Ao analisá-la, vi algo que preferia não ter visto.
Ela usava algo especial.
Especial no nível de um colar com uma pedra de diamante rosa e várias de água-marinha.
O item que Brent comprou com tanto carinho e cuidado naquele dia na joalheria. Um item caríssimo e muito valioso.
— Ah, nem me apresentei! — Ela riu novamente. — Eu me chamo Morgana Jones.
Jones? Parente de Gregor Jones, o rival das nossas famílias?







