Mundo de ficçãoIniciar sessão— Um cargo? Para a Irina? Na minha empresa? — Brent parecia estar tão chocado quanto eu.
— Na construtora, não na holding — John explicou. — Justo, já que a construtora é dela também.
— Certo... — Brent massageou as têmporas. — Tudo bem, eu disponibilizo um cargo.
— Diretoria, lembre-se — o meu pai enfatizou. — O que acha, minha filha?
— Por que não me disse nada?
— Você não aceitaria — ele riu. — Como arquiteta, você poderá atuar muito bem no negócio.
— Eu nunca quis trabalhar na construtora, pai.
— Você queria ser empregada dos outros e não foi isso que eu planejei para a sua vida, Irina!
— Por que você nunca considera o que eu quero para a minha vida? — Rebati, perdendo o controle que me esforcei para manter. — Até no que vou trabalhar você quer interferir?
— Qual é o preço da vida luxuosa que você vive, Irina? Já parou para pensar nisso?
— Victor, Irina, vamos acalmar os ânimos aqui! — John interveio. — Muitas coisas aconteceram nas últimas horas e é tudo novo, então é compreensível que haja confusão na cabeça dos nossos filhos.
— Está falando sério? — Brent riu soprado. — Você está mesmo falando isso? Por que está fingindo compreensão? Você não liga, não se importa com os sentimentos dos outros!
— Brent, é melhor você parar por aqui! — John ameaçou.
— Quer saber? — Brent ficou de pé. — Esse encontro acabou! O que vocês queriam já está aí! — Olhou-me, permitindo-me notar o quão vermelho o seu rosto estava. — Vem comigo ou vai ficar com eles?
— Vou contigo — levantei-me e saí do escritório do meu sogro na companhia de Brent. Cruzamos a sala de estar enorme da casa dos Turner e entramos no Maybach preto do meu nem um pouco querido marido. — Você não precisa me colocar em cargo algum.
— Cumprirei o acordo — disse enquanto dirigia. Os seus seguranças nos acompanhavam em outro veículo.
O percurso até a casa de Brent foi, mais uma vez, silencioso. Ele mal respirava, concentrado no trânsito e em seus pensamentos. O dia estava ensolarado como eu gostava, mas a empolgação não me preenchia hoje. Estou tensa, preocupada com o meu futuro ao lado de um homem que troca no máximo dez palavras comigo. Admito que não faço questão alguma de manter uma conversa longa, porém, por educação, poderíamos pelo menos falar sobre um assunto qualquer nos momentos em que estamos obrigatoriamente sozinhos.
— Vou trabalhar — Turner anunciou assim que parou o carro em frente à sua casa. — Pode descer.
— Não... Não vai tomar café da manhã? — Tentei ser amigável.
— Você acha que às nove e quarenta da manhã eu ainda não tomei café da manhã? — Ergueu uma sobrancelha, movimento este que já começava a me irritar.
— Você pode ter passado duas vezes na fila da beleza, Brent, mas ignorou completamente a fila da gentileza! — Retirei o cinto de segurança e abri a porta do automóvel. — Como pode um homem ser tão elegante por fora e agir como um troglodita?
— Não venho almoçar — ele disse olhando para frente, indisponível para qualquer tipo de discussão.
Contrariada, saí do Maybach e, propositalmente, bati a porta com força. Isso vai irritá-lo também, pensei. Trilhei passos firmes e rápidos para dentro daquele covil e segui direto para o meu quarto. Tranquei a porta e decidi tomar um banho de chuveiro para relaxar os músculos tensos. Ao terminar, coloquei um dos vestidos que a minha mãe me fez comprar e decidi ligar para ela. Conversamos um pouco, eu contei sobre a péssima experiência que estava tendo e o seu conselho foi: “Espere e tenha paciência. Em breve vocês se entenderão.”. Por que a mulher sempre tem que ser a resiliente, a compreensiva e boazinha? Eu vou viver! Não vou esperar nada do Brent!
— O café da manhã estava do seu agrado, senhora Turner? — Helga me perguntou assim que terminei de comer.
— Uma delícia! — Sorri, satisfeita. — Já sei que não vou sentir falta da comida da minha casa.
— Ah, que prazer ouvir isso! — Ela sorriu também. — O que deseja para o almoço?
— Eu pretendo almoçar com a minha irmã hoje — comuniquei. — Brent não virá.
— Ele normalmente não almoça em casa.
— Ah, sim — ri fraco, sem graça. — Você trabalha aqui há muito tempo?
— Aqui eu trabalho desde que o senhor Brent se mudou — iniciou. — Mas estou com os Turner há vinte anos.
— Uau... Muito tempo! — Impressionei-me. Na minha casa não temos alguém trabalhando há tantos anos. — O Brent te chamou para cá?
— Sim, ele gosta bastante dos meus serviços. Diz que sou competente, discreta e ágil.
— Vejam só! — Surpreendi-me. — Brent Turner sabe ser gentil!
— Ele demora para se abrir, mas é um bom rapaz.
— Então você o conhece desde que tinha treze anos?
— Basicamente isso.
— Como ele era? — Curiosa, persisti no assunto.
— Um garoto doce, prestativo, sorridente... Dava pouco trabalho aos pais.
— Brent por acaso tem algum problema com o John?
— Senhora, eu...
— Ah, claro! — Ri. — Você é discreta! Lembrei!
— Precisa de algo mais? — Ela passou a recolher os pratos.
— Não, muito obrigada!
— Estou à disposição.
Depois que Helga se foi, continuei sentada observando aquela mesa de jantar grande e luxuosa. Tanto luxo e nada de conforto. A casa era escura, em tons de preto, cinza e o mínimo de branco. Não tinha vida. Nada de outras cores e muito menos de flores por aqui. Cansada da paisagem monótona, saí da sala de jantar e caminhei vagarosamente até o meu quarto enquanto observava os detalhes daquela mansão. Corrimão de ouro, passadeira de escada preta alinhada com perfeição em cada degrau, chão de mármore italiano, paredes tomadas por quadros abstratos e de altíssimo valor... Uma residência cara, mas sem valor.
— Atraso de dez minutos! O que estava fazendo? — Margot me recebeu com um sorriso sugestivo nos lábios.
— Escolhendo uma roupa do meu agrado para vestir — cerrei os olhos para ela, que me envolveu em um abraço apertado. — Você e a mamãe só mandaram as malas com vestidos extravagantes.
— A senhora Turner precisa se destacar entre os meros mortais.
— A mala que eu montei ainda não chegou na casa do Brent. Vou ficar esperando.
— A casa agora é sua também.
— Lá é tudo tão frio, apático, sem graça. Não é minha.
— Você pode deixar mais confortável.
— Não tenho interesse em permanecer ali por muito tempo.
— Você sabe o que o papai acha de terminar esse casamento muito cedo, não sabe?
— Vamos mesmo ficar aqui com esse Sol bem no nosso rosto?
— Nem mude de assunto, mas, sim, temos que sair daqui urgentemente. Sol causa rugas, manchas, câncer de pele... — Cobriu o rosto, causando o meu riso. — Vamos entrar!
Entramos no restaurante, cumprimentamos o segurança e aguardamos a hostess se aproximar para nos guiar até uma mesa agradável. Enquanto esperávamos e Margot falava sem parar sobre a empolgação de seu marido Michael para conhecer a casa de Brent, observei o local bem movimentado. Havia muitas pessoas ali, porém uma delas eu reconheceria dentre milhares. Agora que já o vi várias vezes, que já estive diante dele, eu sei quem é. Brent ocupava uma das mesas do canto na companhia de uma mulher. Uma mulher muito bonita e elegantérrima, contida até para sorrir. Brent, pelo contrário, sorria abertamente.
Eu ainda não o vi desse jeito, tão aberto e leve. Era outra pessoa, ficava até mais bonito.
— O que houve? — Margot perguntou, mas não fui capaz de respondê-la. Estava focada naquela cena.
A hostess levou um casal até eles. Brent e a mulher desconhecida ficaram de pé e receberam os dois com abraços. Turner riu para a desconhecida que o acompanhava e falou algo próximo ao seu ouvido. Parecia haver uma certa cumplicidade ali. Quem é ela? Uma amiga? Um amor antigo? Um amor atual? Alguém da família? Caramba... Quantas perguntas! Nós temos um casamento de fachada, mas eu não preciso ser feita de boba por ninguém.
— É o Brent ali?
— Sim.
— Quem é a bonitona?
— Não faço ideia.
— Vamos até lá! — Margot segurou a minha mão, porém eu a impedi antes que me puxasse.
— Não! Jamais! Eu não vou fazer esse papel!
— E se for uma amante?
— Amante? — Ri soprado. — Em um casamento por contrato?
— Fala baixo, Irina!
— Vamos embora! Não vou ficar aqui pedindo para passar um vexame!
— Mas nós não pre...
— Irina! Margot! — Assustamo-nos com a presença de uma amiga da minha época de faculdade. — Que lindas vocês estão! Vieram almoçar ou estão indo embora?
— Embora!
— Viemos!
As respostas opostas ditas ao mesmo tempo deixaram a minha amiga confusa. Ela riu.
— Decidam-se, por favor! — Sorriu. — Aliás, parabéns pelo casamento! Brent Turner é o melhor partido da região! — Abraçou-me. Eu estava desesperada. Não queria que ela entrasse e visse o meu marido irresponsável ao lado de uma gatona sem mim. — Você fisgou o homem!
— O que acha de almoçar conosco naquele restaurante perto da faculdade? — Nervosa, enxuguei discretamente as minhas mãos suadas no vestido. Preciso tirá-la e sair daqui. — Relembrar os velhos tempos.
— Uh! Ótima ideia! — Ela bateu palminhas, animada. — Vamos já!
Ufa! Dessa vez eu me livrei de um constrangimento colossal!
Mas será que consigo manter as coisas controladas por muito tempo?
[...]
— Onde ela está? — Eu estava na metade do corredor quando escutei a pergunta de Brent para Helga. Voltei imediatamente para o meu quarto e fiquei parada na porta para continuar ouvindo.
— No quarto, senhor.
— Melhor dessa maneira.
— A senhora Irina é uma boa mulher. Não fez objeções a nada, não quis mudar nada, não me deu trabalho algum.
— Ela, assim como eu, não se interessa por esse casamento. Está aqui somente para cumprir um acordo.
— E por isso o senhor precisa ignorá-la?
— Helga, você está falando muito hoje — Brent suspirou. — Vou tomar uma taça de vinho no escritório e em seguida venho jantar.
— Não vai perguntar se a senhora Irina jantou?
— Já deve ter jantado. São dez da noite.
— Ela jantou às oito.
— Bom para ela.
— Troglodita! — Resmunguei, fechando a porta ao identificar os seus passos pela casa. — Não deveria nem jantar! Já encheu a barriga naquele restaurante com aquela bonitona lá! — Bufei, desamarrando o laço do meu robe. Hoje estou usando um da cor rosa coral, é uma gracinha. — Vou ler um livro até dormir. É isso.
Escolhi um livro de autoajuda e o abri na última página lida. Desliguei as luzes, liguei o abajur e me deitei na cama com os meus óculos de leitura. Iniciei a leitura e, diferente do que normalmente acontecia, eu não senti sono algum. Estou inquieta, estressada. Esse casamento resolveu o problema do meu pai e tirou a minha paz. Eu ainda refletia sobre isso quando ouvi um barulho no corredor. Passos firmes. Conferi o meu celular e vi que já era uma hora da manhã. Quem estava perambulando pela casa?
— Reunião... Assinar... Voo... — Identifiquei a voz de Brent e, movida pela curiosidade, levantei-me da cama para me aproximar da porta. — Aula... Lanche... Não quero comer... Trabalhar... Tenho que trabalhar...
— Do que ele está falando? Com quem?
— Relatórios... Contabilidade... Lucros e... Papéis... — Notei que a sua voz estava levemente estremecida, diferente. Intrigada, abri a porta e coloquei a cabeça para fora do quarto. Brent estava de costas para mim, parado no corredor, e as suas mãos se moviam para um lado e para o outro. A sua figura alta e imponente agora parecia um tanto frágil. — Casamento... Acordo... Empresa...
— Brent, você está bem? — Arrisquei me comunicar ao perceber que ele continuaria soltando apenas palavras. — Quer ajuda? — Silêncio. Ele se calou, relaxou os ombros, liberou um longo suspiro e andou devagar até o próprio quarto. — O que... O que acabou de acontecer aqui?







