Mundo ficciónIniciar sesiónSAVANNAH HAYES
Dez minutos depois, eu encarava meu reflexo no espelho do banheiro executivo e quase não me reconhecia. O terninho preto emprestado ajustava perfeitamente na minha cintura. O tecido era de qualidade suficiente para eu ter medo de respirar errado e estragar alguma coisa. O coque estava firme, sem fios rebeldes escapando para todos os lados, e a maquiagem escondia boa parte das olheiras que anos de exaustão tinham cavado sob meus olhos. Ainda assim, elas continuavam ali. Talvez menos visíveis, mas presentes. Observei meu reflexo por mais alguns segundos. Era estranho.l, eu parecia uma daquelas mulheres que passavam pelos corredores executivos todos os dias carregando tablets e falando sobre reuniões importantes. Parecia alguém que pertencia àquele andar. O problema era que eu sabia a verdade. Sabia que, por trás daquele blazer elegante, existia uma mulher que tinha acordado às seis da manhã para dar remédio para o filho, deixar comida pronta para a avó e correr para o trabalho depois de uma noite servindo mesas em um restaurante. Aquela roupa era um disfarce, muito bonito, porém ainda um disfarce. Passei as mãos pela frente do blazer e respirei fundo. O banheiro executivo sozinho era maior que o quarto onde eu dormia com Noah. As bancadas de mármore brilhavam sob a iluminação dourada. Havia vasos com flores frescas, toalhas impecavelmente dobradas e até um perfume sofisticado disponível para quem quisesse usar. Meu filho tinha uma cama encostada na parede porque o quarto era pequeno demais. A diferença entre aqueles dois mundos era absurda. E, de alguma forma, eu estava prestes a tentar atravessar essa distância. Apoiei as mãos na pia. "Cento e oitenta mil dólares por ano." Minha garganta secou, pois com aquele salário eu poderia quitar as dívidas, trocar de apartamento, levar Noah a um médico particular quando precisasse, comprar um inalador sem passar dez minutos comparando preços e dormir. Meu Deus, eu poderia simplesmente dormir. Fechei os olhos por um instante. Precisava daquele emprego por um motivo totalmente diferente do que ganância. Nunca tinha sido ganância. Eu não sonhava com bolsas caras ou viagens para Paris, mas com contas pagas, segurança e paz. Abri os olhos mais uma vez, então comecei minha lista mental de sobrevivência. Número um: Damien Sinclair não podia me reconhecer como a mulher da pedra. Número dois: precisava convencê-lo de que era competente antes que alguém percebesse o quanto meu currículo era uma bagunça. Número três: não podia entrar em pânico. Essa terceira regra já estava falhando de uma forma mais que miserável. Ouvi passos apressados do lado de fora. A porta se abriu e a morena apareceu segurando um tablet contra o peito. Alguns fios de cabelo haviam escapado do coque perfeito e sua expressão deixava claro que ela estava tão nervosa quanto eu. — Savannah. Meu coração disparou. — O quê? — O senhor Sinclair quer saber por que a nova secretária ainda não entrou na sala dele. Fechei os olhos. — Certo. Então estou atrasada. Logo atrás dela, a loira apareceu também. — Você ainda está aqui? — Estou reconsiderando todas as minhas escolhas de vida. — Tarde demais — respondeu a loira. As duas entraram no banheiro e me cercaram como treinadoras preparando alguém para entrar numa arena. — Certo — começou a morena. — Algumas regras básicas. — Existem regras? — Muitas. — Isso não é encorajador. A loira apontou um dedo para mim. — Não interrompa ele quando estiver lendo alguma coisa. — Fácil. — Não entre na sala sem bater. — Justo. — Não reorganize a mesa dele. — Eu nem tocaria naquela mesa. — Ótimo. Porque a última secretária reorganizou. — E? — Chorou no banheiro depois. Pisquei. — Isso foi uma ameaça? — Isso foi um aviso. A morena suspirou. — Escuta, ele parece assustador. — Porque é assustador. — Sim, mas ele respeita competência. Aquilo fez meu coração acelerar um pouco. — Então eu ainda tenho alguma chance. As duas trocaram um olhar. — Tem — respondeu a loira. — Mas vai precisar sobreviver à primeira semana. — Isso deveria me tranquilizar? — Não. — Certo. A morena sorriu. — Outra coisa. — O quê? — Se ele pedir café, não inventa moda. Aquilo arrancou uma risada involuntária de mim. — Já fiz isso uma vez, consigo fazer outra. O sorriso da morena aumentou. — Viu? Já está mais qualificada do que metade dos candidatos. Respirei fundo e endireitei os ombros. Talvez eu não tivesse o currículo ideal ou estivesse usando um terninho emprestado, todavia era inteligente. Trabalhava mais do que qualquer pessoa que conhecia e tinha passado anos resolvendo problemas sem ajuda de ninguém. Se eu conseguia sobreviver a três empregos, um filho asmático, uma avó teimosa e quatro filhotes resgatados da rua, talvez conseguisse sobreviver a Damien Sinclair. Pelo menos isso, na minha cabeça, seria mais fácil do que aquelas duas diziam. — Certo — falei quase sussurrando. As duas me observaram. — Certo o quê? — perguntou a loira. Peguei o tablet sobre a bancada. — Hora de descobrir se o CEO mais assustador de Nova York está disposto a me dar uma baita promoção. As duas fizeram uma expressão de pena. — Boa sorte. E, antes que eu pudesse perder a coragem, saí do banheiro em direção ao escritório de Damien Sinclair. Pela primeira vez, não como copeira, mas como sua secretária. Uma secretária que não iria correr depois do período de experiência. O corredor pareceu longo demais enquanto eu caminhava em direção ao escritório de Damien Sinclair. A cada passo, meu nervosismo aumentava. Quando finalmente parei diante da porta, respirei fundo e bati. — Entre. — A voz grave veio imediatamente do outro lado. Empurrei a porta e entrei sem mais cerimônias. O escritório era enorme, mas mal tive tempo de prestar atenção. Damien estava atrás da mesa, concentrado em alguns documentos. Por alguns segundos, nem sequer levantou a cabeça. Fiquei parada, segurando o tablet contra o peito, esperando. Então ele largou a caneta, e ergueu os olhos e pela primeira vez desde o incidente no semáforo, nos encaramos diretamente. Meu coração disparou. Os olhos azuis dele permaneceram sobre mim por um instante mais longo do que o necessário, lembrando de alguma coisa. E, naquele momento, pedi de forma silenciosa para que ele não me reconhecesse e me demitisse, não agora que tinha criado coragem para pegar essa vaga.






