O frio corta a pele de Cassandra como lâmina invisível. A madrugada paulista não tem piedade, e ela encolhe os ombros debaixo do moletom sujo, tentando proteger-se. Dormiu encostada numa parede úmida, perto de uma padaria fechada, e cada minuto da noite foi um castigo. Os ossos doem, o corpo reclama, e a mente não descansa.
Ela se lembra de outra cama, outra vida: lençóis de algodão egípcio, travesseiros de plumas, a vista panorâmica da sua cobertura em Ribeirão Preto. Lembra-se do mármore branco da sala, do piano que nunca soube tocar, das joias guardadas no cofre e dos dólares que sempre mantinha “para emergências”. Quem diria que a emergência viria desse jeito? Hoje, ela não tem um mísero real para comprar um pão dormido. E o apartamento parece estar em outr