capítulo 1

O dia da alta hospitalar chegou, Simon havia ficado mais íntimo de mim, já que conversamos bastante por papéis, era o único jeito de conversarmos, depois que havia saído do banho, ele havia arrumado um caderno e uma caneta para conversarmos, contei a ele sobre a minha vida, e ele me contou que seus pais também haviam falecidos e que havia herdado a empresa gigantesca do pai, por isso não se importava com o valor que custaria as diárias no hospital particular, disse que era solitário mundo dos negócios e que não tinha ninguém ao seu lado para que pudesse ser mais simples a caminhada.

Me despedi do médico que foi super atencioso e das enfermeiras que cuidaram de mim, Doutor Marcelo disse que logo nos veríamos novamente para verificar a melhora da cicatrização, e que estudaria muito para que pudesse reverter a mudez, agradeci por meio de um abraço. Simon me trouxe uma blusa, calça e sapatos, pois as roupas que eu vestira no dia da tentativa de assassinato, estavam todas ensaguentadas, e haviam sido levadas para analise.

Simon me levou até meu apartamento, onde o digitei em seu GPS, chegando lá, peguei a única coisa que me restava, a chave do meu apartamento. Abri a porta branca e o cheiro de azedo invadiu minhas narinas, torci imediatamente o nariz, provavelmente era por causa do lixo que eu não havia tirado, e as comidas da geladeira que deveriam estar estragadas também. A casa estava empoeirada e fedida, eu teria muito trabalho, olhei para Simon com vergonha, mas aparentemente a única reação foi abrir as janelas e me perguntar onde havia sacos de lixo para que os trocássemos, e que rapidinho o cheiro iria embora, e assim começamos a limpar a casa em consentimento mútuo, enquanto eu varria a casa e passava pano, Simon tirava o lixo e limpava a geladeira, na maior naturalidade, como se morasse anos nesse lugar e tivesse acostumado a limpar a casa, passei um pano no chão, limpei o sofá e troquei os lençóis da cama, e no final do dia, desabamos cansados em cima do sofá, Simon perguntou se eu estava com fome, e com a resposta positiva, falou que iria pedir comida. Ligamos a TV e assistimos o que estava passando, cerca de 30 minutos depois o lanche chegou, era yakisoba, com uma massa macia, molho gostoso e os legumes bem macios, assim não machucaria minha garganta.

Cerca de 18h Simon disse que iria para casa, me deu o número do seu telefone e me disse que queria saber como eu estava todos os dias, e que às vezes viria até aqui para assistirmos séries.

-Gostei muito da sua companhia e como somos amigos agora, arrume logo um celular, pois vou querer saber de cada passo seu, se precisar de qualquer coisa, você tem meu número - disse me dando um abraço de urso e indo embora.

Sozinha no apartamento, cada barulho que eu ouvia parecia despertar um gatilho em mim, me assustava com qualquer coisa e via pessoas na janela, mesmo sendo impossível ter alguém me olhando do 8° andar, a cada 10 minutos eu ia até a porta e verificava se a porta estava mesmo trancada, as janelas também, eu estava com medo de ficar sozinha.

Horas mais tarde a campainha toca, e olhando pelo olho mágico vejo ele parado em frente a porta, com uma mala enorme do seu lado, abro confusa e ele se adianta.

- Desculpa, eu não consegui te deixar aqui sozinha, então fui até em casa pegar umas roupas e resolver algumas coisas e vim para cá, fique tranquila porque eu posso dormir no sofá, mas não vou te deixar sozinha com aquele monstro à solta por aí, eu sei que parece estranho, mas não consigo ficar sossegado com isso.

Eu estava mesmo com medo de ficar sozinha, mas não queria dar ainda mais trabalho para ele, me sentia confusa.

- Tudo bem, espero que não te atrapalhe, mas eu não tenho muita coisa em casa - escrevi no caderno e esperei paciente que ele lesse.

- Olha, fica tranquila tá? Quando esse cara for preso, voltaremos com a nossa vida normal, e eu não vou mais incomodar você, se você não quiser mais me ver - disse ele - Só que eu sem querer criei um sentimento de proteção sobre você, e nesse momento sei que deve ser difícil ficar sozinha.

- Eu não estou dizendo que quero que vá embora quando tudo acabar, só não quero ser um peso, seremos bons amigos, já que você cuidou de mim quando eu mais precisava, e não havia ninguém lá para mim - escrevi no caderno.

- Prometo não te incomodar, baixinha - disse afagando meu cabelo - Eu vou deitar um pouquinho, estou em claro faz um tempinho, precisava descansar - disse deitando no sofá e imediatamente adormecendo.

Fui até meu quarto e peguei um cobertor e um travesseiro, ergui delicadamente sua cabeça e coloquei-o debaixo dela, e estendi o cobertor pelo seu corpo forte e definido.

Puxei suas malas pela sala até o quarto ao lado do meu, que estava com algumas bugigangas que facilmente realoquei na lavação, tentei fazer o mínimo de barulho possível para não acorda-lo, depois desabei na cama, de cara no colchão.

Acordei com a escuridão penetrando pelas janelas, e o silêncio rondando o apartamento, e logo tudo começou a rodar e a ficar menor, as paredes pareciam se encolher ao meu redor, como se quisessem me abraçar, meu coração acelerou e a respiração começou a ficar rápida e entrecortada, meus pensamentos só voltavam para aquela noite, eu sabia o que era, ataque de pânico, lembrava vagamente de ter lido sobre isso, e de como se portar em uma crise, mas eu simplesmente sentei na cama abraçando os joelhos e chorei enquanto a crise ia ficando mais forte, os flashes de memória eram tão vívidos que eu quase podia sentir o sangue de volta na minha garganta.

Eu não podia fazer nada, chamar por alguém, gritar ou algo parecido, só podia me segurar em mim mesma e deixar a onda passar, pensei por um instante em tomar um banho gelado, não sabia se funcionaria, mas tinha que tentar algo, pois a sensação era que eu estava morrendo, de novo.

Corri até o banheiro e abri o chuveiro, sentei embaixo da água fria e a primeira reação do meu corpo foi respirar fundo, tentei me concentrar na sensação da água caindo em gotas no meu rosto, no pescoço, onde ela estivesse tocando, nas roupas que se molhavam aos poucos e se misturavam com as lágrimas, e assim aos poucos o pânico estavam se desfazendo, junto com a água descendo pelo ralo.

- Hey, está tudo bem? - perguntou Simon parado no batente da porta do banheiro.

Deus, ele quase ocupava o vão todo, alto, musculoso, parecia um armário, com a cara de sono e preocupação, eu não queria tê-lo acordado.

Acenei que não com a cabeça.

- Deixa eu adivinhar, ataque de pânico? - perguntou sentando-se em cima do vaso, próximo a mim.

Encarei aqueles olhos preocupados, e fiz que sim.

- Já tive alguns desde que meus pais se foram, acredite em mim quando digo que sei como é, e mediante aos fatos que te ocorreram, era de se esperar, não tem como sair ilesa de uma tentativa de assassinato.

Calmamente ele desligou o chuveiro quando percebeu que a minha respiração já havia voltado ao normal, abriu o armário em busca de uma toalha, e estendeu-a para mim.

- Venha, o clima está frio, e você se encharcar de água fria, só vai te deixar gripada, vou te fazer um café, por acaso tem algo que eu possa fazer? - pediu ele me enrolando na toalha e afagando minhas costas.

Tremendo, fiz que sim, apontei onde estariam os utensílios que ele precisaria e fui ao meu quarto me trocar. Poucos minutos depois estávamos bebendo um café quente sentados na mesinha de bar que eu tinha na cozinha, peguei um bloquinho de notas e escrevi:

" Desculpe a mesa de plástico, me mudei a pouco tempo e não tive dinheiro para comprar algumas coisas, estou adquirindo aos poucos"

- Não se preocupe, eu não ligo para isso, nem todo mundo começou com tudo, aliás, você precisa me dizer onde é o seu trabalho, preciso avisar seu chefe o que aconteceu - disse depois de ler o bilhete.

Arregalei os olhos, havia esquecido completamente do meu trabalho, rabisquei rapidamente que precisava voltar rápido para lá, pois já deveria ter sido demitida e precisava explicar tudo.

- Se acalme, o médico não te liberou para trabalhar, amanhã de manhã vamos até lá, vou junto com você para que possamos explicar para todos o que houve, garanto que vão entender - disse sorrindo - Agora, se você puder me arrumar uma toalha, eu preciso de um banho quente.

Sacudi a cabeça e puxei ele até o quarto de hóspedes onde eu havia deixado a mala dele, peguei uma toalha e entreguei para ele que se trancou no banheiro.

Eu não podia deixar que dormisse no sofá, que estava velho e ruim, mas não tinha outra cama ou colchão, eu o convenceria de voltar para a casa no dia seguinte, mas hoje diria para que dormisse ao meu lado, para ter o mínimo de conforto, e agradecimento por tudo.

Rabisquei um bilhete explicando que ele poderia deitar comigo, mas que se me chutasse a noite, iria dormir no chão frio.

Pouco tempo depois, ele saiu do banho com uma calça de moletom, cabelo molhado e a toalha no pescoço, mas o salafrário não tinha colocado nenhuma camisa, e aquele peitoral esculpido estava à mostra em toda a sua glória, e pela risadinha de escárnio, eu provavelmente estava de boca aberta.

Entreguei o bilhete com o rosto fervendo de vergonha, Simon voltou ao banheiro para estender a toalha e disse:

- Você não precisa me agradecer, mas aceito o convite, aquele sofá me deixou com dor nas costas, e sobre o chute, vou me controlar, mas não reclame se eu te agarrar no meio da noite, costumo a fazer isso com os meus travesseiros.

Ao ver a minha cara azul de vergonha e os olhos esbugalhados, ele deu uma risada alta, sincera, e gostosa.

- Eu to brincando com você, menina. Não vou fazer nada com você - disse desalinhando meu cabelo - Vamos deitar que eu estou exausto.

Silenciosamente, cada um deitou para um lado, e quando eu ia adormecendo ouvi um sussurro:

- Boa noite, pequena.

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