Mundo de ficçãoIniciar sessãoSophia Mascarenhas não acredita no amor — acredita em ética. Dante Vergara também não acredita mais no amor — acredita em controle. Quando a Brainnet entra na mira da espionagem e uma licitação bilionária exige “estabilidade”, Dante oferece a proposta mais absurda e perigosa: 180 dias de casamento por contrato. O problema? Sophia é filha do político que pode abrir portas… e o homem que ela jurou nunca mais encarar. Entre mentiras públicas, verdades privadas e uma guerra de poder, um amor nasce onde não devia.
Ler maisSaio do banho com os cabelos enrolados na toalha e o corpo ainda molhado. Me olho no espelho e respiro fundo. Finalmente um novo trabalho. Desde que denunciei meu pai ao Ministério Público por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, que eu venho tendo um problema emblemático: ou sou requisitada por minha ilibada conduta ou rejeitada pela mesma razão.
Ser convidada pela empresa Brainnet para acompanhar o processo de licitação, justamente em Brasília, onde o senador e meu pai Inácio Souza trabalha, será um desafio e tanto, mas estou pronta para isto.
― Desafios são sempre bem-vindos.
Falo comigo mesma enquanto desembaraço os meus cachos castanhos diante do espelho. Esse é um hábito que adquiri na infância, quando percebi que meus pais pouco se importavam comigo, mas sim com o nome da família, as viagens e o farto dinheiro que entrava das falcatruas dele na política.
Uma lufada de vento entra pela janela do meu apartamento. Morar em uma cobertura na Barra da Tijuca, embora seja longe do centro da cidade, neste momento me ajudará bastante, pois a empresa para a qual prestarei consultoria, fica no mesmo bairro.
Abro a porta do closet e escolho uma roupa adequada para a ocasião: um terno cinza e saltos pretos. Eu faço o estilo minimalista. Possuo poucas peças de roupa, mas todas de excelente qualidade. Não sou dada a gastos excessivos e monumentais, como meus pais faziam quando eram casados. Hoje, ajudo minha mãe em seu sustento, já que meu pai deixou para ela apenas o apartamento em que vive.
Estou vestida, maquiada e devidamente perfumada, mas, antes de sair, preciso estudar um pouco mais a vida e os costumes da empresa e do CEO para o qual prestarei meus serviços advocatícios.
Dante Vergara. Um nome pomposo demais para um nerd. Divorciado, recluso, vive para a empresa e para a criação de softwares de última geração.
O CEO é bonitão, tenho que admitir. As fotos na pesquisa online mostram um homem alto, cerca de 40 anos, que não é dado a muitos sorrisos e nem a baladas.
― Isso é bom. Pelo menos não parece um babaca mulherengo.
Eu sempre pesquiso meus clientes antes de fechar um contrato. Tive alguns sobressaltos na carreira, por causa de alguns bobos metidos a garanhões virem me cantar e devido ao meu parentesco com Inácio Souza, um dos mais influentes senadores da política brasileira.
Tanto que deixei de usar o nome do meu pai e uso apenas o da minha mãe, apresentando-me como Sophia Mascarenhas.
Analiso mais um pouco sobre Dante Vergara e seu trabalho. Não tem muita informação técnica nem pessoal. O sujeito é reservado. Melhor assim. Limpar a sujeira de clientes aparecidos demais, metidos em festas e bebedeiras, sempre é mais trabalhoso.
― Perfeito. Pelo que me parece, será um trabalho limpo.
Pego minha bolsa e mochila, a chave do carro sobre a bancada da cozinha e desço pelo elevador do prédio.
O elevador para algumas vezes enquanto desce e numa das paradas um vizinho entra. É o meu paquera da vez.
― Bom dia, doutora. ― Victor sorriu para mim.
― Bom dia, Victor. Vai malhar tarde hoje? ― Observo ao vê-lo com roupa de academia.
Ele abre um sorriso enorme e lindo. Victor é um gato, mas meio galinha. Eu já o vi subir no elevador prédio com algumas mulheres diferentes, mas o rapaz tem um jeito fofo que eu acho interessante.
― Sim, eu esqueci de colocar o despertador para tocar e acordei tarde. Mas, sabe como é… O dono da academia pode se dar a esses luxos. E você? Quando vai começar a se exercitar?
Reviro os olhos.
― Eu não tenho paciência para academia, Victor. Prefiro continuar com o Pilates e o balé. E está muito bom.
O homem negro e musculoso me mede de alto a baixo e passa a língua pelos lábios grossos devagar.
― Você ainda é novinha e está em forma, mas quando passar dos quarenta, vai precisar fortalecer os músculos. Estou aqui para ajudar.
Ele pisca para mim e desce no térreo. Sorrio de volta e continuo no elevador até o subsolo, onde pegarei o carro.
As portas do elevador se abrem e o senhor Vasco, o zelador, varre o chão do estacionamento.
― Bom dia, seu Vasco.
O idoso levanta os olhos para ver quem é.
― Bom dia, doutora Sophia. A senhora volta cedo hoje?
O senhor Vasco é mais um mascote do prédio, do que um zelador propriamente dito. É tão antigo no condomínio, que os moradores pediram que o mantivessem aqui, mesmo aposentado. O idoso ficara viúvo há alguns anos e sozinho e sem filhos, os condôminos, por amizade e piedade, o mantém trabalhando como um patrimônio histórico do prédio.
― Seu Vasco, sinceramente, não sei. Por que?
O idoso coloca a vassoura com cuidado na parede ao lado do elevador e vem caminhando devagar ao meu lado até o meu Hyundai Santa Fe marrom estacionado em um ponto estratégico, do qual posso sair facilmente.
― Filha, algumas moradoras mencionaram ter avistado vultos pelo estacionamento. Eu já olhei nas câmeras de segurança, mas não vi nada que me chamasse a atenção. Mas por via das dúvidas, prefiro estar por perto quando as moças chegam e deixam o carro por aqui.
Fico séria por alguns instantes. Vultos rondando pelo estacionamento não é nada bom.
― E os vigilantes? Eles não ficam de plantão mais não?
O idoso faz um gesto com o braço como se estivesse espantando uma mosca.
― Esses moleques não são de nada. Uns cagões! Quando a senhorita chegar, por favor, fique atenta.
Eu sorrio para o idoso.
― Tá bom, seu Vasco, obrigada por avisar. Ficarei de olho.
Abro o carro, coloco a mochila na mala, assumo o volante e parto em direção ao meu mais novo trabalho.
“Sophia”Dante sai esbaforido da copa e me deixa sozinha. Que droga, logo o sistema em que ele está trabalhando e quer colocar na licitação. Muito chato isso. Bem, não vou ficar aqui para atrapalhá-lo, vou agir a vida.Me levanto e levo as xícaras para a pia e as lavo. A minha mania de limpeza e organização não permite que eu deixe xícaras sujas sobre a mesa. A porta se abre e olho para trás para ver se é o Dante.— Doutora, deixa isso aí que depois eu lavo. — É a secretária dele, a senhora que me recebeu mais cedo.— Relaxa. Estou acostumada a lavar louça. Odeio louça suja e lavo logo. Pia limpa é outra coisa.A mulher encosta na bancada da pia e me observa em silêncio a lavar as xícaras e os pires. Ela pega do bolso da saia um maço de cigarros e um isqueiro.— Se incomoda? — Ela pergunta com a voz rouca.— Imagina. Meu pai fumava quando eu era criança. Estou acostumada. Existem coisas piores que cigarro.Ela acende o cigarro e abre a janela da copa para a fumaça sair. Dá um longo tr
"Dante"Estou no meio da conversa com a Sophia, quando o Fred escancara a porta da copa e anuncia em alto e bom som que deu merda no Cybersky.Ele nem menciona o sistema, mas pelo tom de voz e pelo olhar assombrado, é o suficiente para me colocar em alerta.— Com licença, doutora Sophia. — Digo em voz baixa.Me levanto rápido e sigo Fred, que ainda faz menção de dizer algo para a advogada, mas vendo minha agitação sai na minha frente em direção à própria sala.— Vamos Fred. Me fala o tamanho da merda.A sala do Frederico é inegavelmente bem mais organizada que a minha. Uma mesa, duas cadeiras e um laptop. Sinceramente, não entendo como um ser humano consegue ser tão desapegado assim.Fred só abre o sistema. E... nada acontece. Ele tenta uma, tenta duas, tenta três vezes. A resposta é sempre a mesma. Um bip. Uma mensagem de erro.— Aconteceu logo após a queda de energia. — Diz e fica quieto olhando para a tela que mostra o sistema bugado.Eu tiro os óculos do rosto e aperto o espaço en
O CEO da Brainnet está em apuros. E justo às vésperas de uma licitação para a qual vem se dedicando há meses. Os olhos dele estão rasos d’água. E eu não queria mesmo ser a portadora das más notícias, mas, sabe como é… A culpa é sempre do advogado.― Dante, sejamos práticos. Quem são os detentores do código fonte?O empresário se recompõe de seu visível desespero e responde rápido.― Apenas eu.Ele continua me encarando como se eu fosse Nossa Senhora prestes a realizar um milagre.― Perfeito, Dante. Agora, quantos são os analistas que trabalham para você neste projeto?Dante se levanta e abre a porta de sua sala. Ele passa alguns minutos estudando os funcionários que trabalham para ele espalhados pelas baias e mesas de escritório.― São quatro analistas mais o Frederico, meu sócio.Dante retorna e se senta novamente ao meu lado.― Quais outras informações a respeito da minha equipe você quer?O CEO parece que acaba de engolir vidro.― Dante, eu sei que esta situação é chata e desagradá
“Dante”Vejo as horas na tela do computador. Oito em ponto. Estico as costas para trás e as estalo. Tenho que voltar para a academia, mas neste período de lançamento de software, de licitação e ainda mais agora, com uma ameaça velada, preciso mais do que nunca me dedicar ao trabalho e à minha empresa.Toc, Toc.― Entra!A porta se abre e a secretária, Sílvia, entra falando alto.― Dante, a advogada está aqui. Vai conversar com ela aqui mesmo, nesse covil?Olho para trás e resmungo indignado com a secretária.― Sílvia, desde quando o meu escritório é um covil?A mulher aponta para todo o ambiente.― Isso aqui é escuro e está repleto de computadores, mofo, copos de café, fios e telas. Um ambiente inóspito para uma mulher elegante como a doutora Sophia. Pelo amor de Deus, Dante. Vão para a sala de reuniões.Giro na cadeira e fico de frente para a Sílvia.― Não. Manda ela entrar.A secretária vira os olhos e bufa.― Pode entrar, doutora. Mas é melhor tomar um antialérgico quando sair daqu
Último capítulo