Capítulo 2

A noite seguiu tranquila, mal senti Simon se mexer, apenas sentia o calor que emanava do seu corpo e a respiração baixinha e ritmada.

Acordei faltando alguns minutos para o despertador tocar, Simon ainda dormia pesado, no sono profundo ele parecia muito um pouco mais jovem e menos imponente, ele realmente era um homem bonito, não tinha como ignorar ou negar.

Levantei silenciosamente da cama e desliguei o despertador, precisava comprar um celular novo, mas não sabia como, já que eu provavelmente estava desempregada e tinha pouco dinheiro sobrando, mas pensaria nisso mais tarde, naquele momento eu só queria um café quente, mas não havia nada para comer, então desci do apartamento e fui até a padaria que havia no outro lado da rua, peguei pão, presunto e queijo, um leite, alguns pães de queijo e um doce, segui até o caixa e sorri para a atendente.

- Hei Jess, você andou sumida, o que aconteceu? - perguntou ela distraída.

Meu primeiro instinto foi falar, mas não saia som algum e devido a minha falta de respostas, a atendente virou a sua atenção para mim.

- Minha nossa, o que houve com o seu pescoço? - perguntou assustada com a enorme cicatriz ainda roxa e vermelha.

Fiz um gesto de escrever na mão, demorou alguns segundos para que ela entendesse, e pegasse um papel com caneta, contei rapidamente o que havia ocorrido e ela se espantou, desejou melhoras e que o homem que havia feito aquilo fosse preso.

Apontei para as compras, para que me dissesse o valor.

- Ah sim, a compra, deu 57,30 - disse recebendo minha nota de 100 reais, a menina me devolveu o troco, colocou as mercadorias na sacola e me desejou um bom dia, que eu acenei com a cabeça esperando que ela entendesse o que eu queria dizer.

Voltei para o apartamento, Simon ainda dormia tranquilamente, ajeitei a comida e esquentei o café, assim que o cheiro subiu na cozinha, como se houvesse chamado, ele apareceu no batente, com cara de sono e um pouco amassada. Fiz um gesto para que sentasse e comesse, que rapidamente o fez.

- Hmm - gemeu ele - esses pães de queijo são uma delícia, minha nossa - comentou com a boca cheia e um pedaço entre os dedos.

Confirmei com a cabeça e fiz o meu pão, desceu arranhando um pouco, mas aparentemente eu deveria me acostumar um tempo com isso, até a garganta sarar direito.

- Terminando o café, vamos até o seu trabalho - disse ele.

Entreguei o bilhete que eu tinha escrito enquanto o café esquentava.

" Agradeço tudo o que fez por mim, mas acho que você já pode voltar para a sua casa, meu sofá é ruim e não acho que você queria dividir a cama comigo, eu não tenho como comprar outra cama agora e também preciso comprar um celular, posso entrar em contato com você de vez em quando, para avisar que estou bem, mas já não há necessidade de você ficar aqui onde não há nada"

Simon leu silenciosamente o bilhete e suspirou.

- Olha, eu não nasci em berço de ouro, sobre a cama eu não me importo de dividi-la com você, mas caso se sinta envergonhada ou mesmo amedrontada, eu vou comprar uma cama para mim, coloco no quarto onde está minhas malas e fico aqui, mas não consigo deixar você sozinha com aquele monstro à solta, eu sei que é muito incômodo eu estar aqui, mas estou tentando ajudar você, como amigo.

Fiz que não com a cabeça e as mãos, ele havia entendido tudo errado. Novamente rasbisquei no papel, tinha que lembrar de comprar um caderno.

"Não é incomodo, gosto da sua companhia, mas vou ficar bem, já atrapalhei demais a sua vida, só não me sinto bem com isso."

- Você não está atrapalhando nada, e também não está bem, já que essa madrugada teve uma crise de pânico, por favor me deixe ajudar, achei que poderíamos ser amigos - pediu ele com um olhar triste.

"Você é muito teimoso, aliás preciso comprar um caderno" escrevi dando ombros.

- Sim, definitivamente precisamos de um caderno, ou vários - riu ele - vou providenciar um curso de linguagem de sinais para nós.

Confirmei com a cabeça, rabisquei que iria trocar de roupa para irmos até meu trabalho.

Em poucos minutos estávamos saindo de casa, um porsche já estava estacionado em frente ao prédio, e assim que ele tirou a chave do bolso e destrancou percebi que ele realmente era um cara com muito dinheiro, eu estava horrível para andar em um carro tão lindo e luxuoso, preto fosco com bancos de couro cor creme, era uma verdadeira raridade, o que o pessoal do trabalho iria pensar de mim saindo de um carro desses. Que Deus me ajude.

- Gostou? Eu amo esse carro - perguntou com os olhos brilhando.

"É lindo, mas me sinto terrível andando nele, toda desajeitada, principalmente sendo um carro tão lindo" rabisquei.

- Você está linda, mas caso seja um problema, podemos fazer umas compras primeiro - disse sorrindo, ele tinha covinhas nas duas bochechas.

Fiz que não com a cabeça e bati no relógio.

- Tem razão, estamos atrasados - disse abrindo a porta do caroneiro - Madame.

Dei um tapinha de leve em seu braço e entrei no carro. Ouvi uma risada debochada antes da porta bater com um clique suave.

Seguimos em silêncio até o meu trabalho, apontei o local, Simon parou em frente ao estabelecimento e desceu para abrir a porta, feito um grande cavalheiro.

Entramos no prédio, Simon ficou a centímetros atrás de mim enquanto eu fazia o conhecido caminho, assim que entrei na sala, todo mundo congelou, parecia um filme pausado bem na minha frente.

Acenei com um pouco de vergonha, a primeira a sair do estupor foi minha colega Marina, que correu me dar um abraço, e travou mais uma vez vendo meu acompanhante gigante do lado.

- Jess, eu estava preocupada com você, mandei mensagem, liguei e você não atendia - disse ela voltando a atenção para mim, até que viu a cicatriz - o que aconteceu? - exclamou estridente.

- É uma longa história, mas resumindo, sua amiga quase foi morta, eu estava passando pelo local e consegui salva-la, mas infelizmente os médicos não puderam recuperar suas cordas vocais, então ela não consegue mais emitir nenhum som - disse Simon com um tom tristonho.

A reação de Marina diante da história foi tapar a boca com as mãos e chorar, tirei um pedaço de papel da sua mesa e escrevi " está tudo bem agora" e entreguei a ela.

- Meu Deus Jess, eu não sabia, sinto muito - disse me dando um abraço - você deve estar querendo conversar com o chefe né? Vou avisar que você está aqui.

Minutos depois estávamos sentados na sala do meu chefe Paulo.

- Jess, que surpresa, achei que você tinha abandonado a empresa - disse em tom de reprovação - Poderia ter dado pelo menos um telefonema, mas tudo bem, já mandei a contabilidade fazer os papéis de desistência de trabalho.

- Com licença, minha amiga esteve esse tempo todo no hospital, sofreu uma tentativa de assassinato, não teve como fazer contato - disse Simon.

- Ela pode se defender por si mesma, senhor? - perguntou Paulo.

-Simon - disse ele.

- Bom senhor Simon, não vi nada no jornal sobre isso, e essa cicatriz pode ser maquiagem, tudo para conseguir uma tentativa de atestado, provavelmente estava nas festas por ai, sei como são essas meninas da sua idade.

- Eu tenho como provar, ela não pode se defender pois a tentativa de assassinato não obteve sucesso, mas deixou um efeito colateral bem complicado, Jess não consegue emitir nenhum som, suas cordas vocais foram rasgadas no meio, se a cicatriz que há no seu pescoço não te diz nada, essa papelada aqui serve - jogou o calhamaço de papel que eu não havia visto carregar consigo - Você não ouviu no jornal, por que é uma investigação de alto risco e corre em sigilo.

- E você é o interprete, isso? Quem me garante que isso não é falso? Ela é uma pobretona, não tem dinheiro pra nada, esses carimbos são do hospital mais caro que há na cidade - falou Paulo com um tom mais alto - ela não tem como pagar isso, e também não ficará nessa empresa, está demitida.

- Pelo visto você é o sabidão por aqui então - Simon se endireitou na cadeira, inclinou-se sobre o joelho e fixou um olhar frio.

- E você quem é? Um pé rapado igual a sua amiga - berrou Paulo e jogou todos os papéis em Simon, que se levantou em um rompante.

Puxei-o pelo braço, com os meus olhos marejados, eu mal conseguia descrever o quão distorcida estava seu belo resto, eu não queria mais ficar ali para ser humilhada, puxei-o contra a porta e apontei. Queria sair para bem longe

- Escute homem, lembre-se do meu nome, e procure saber quem eu sou, e do que a Creed empreendimentos é capaz - disse ele me puxando consigo e fechando a porta tão forte que a maçaneta ficou na sua mão que jogou pela janela da sala, fazendo vidro se espalhar por todo o lado.

Simon me puxou delicadamente pela mão e saímos porta a fora da empresa, já no carro e ele abriu a porta para mim, e bateu com um pouco mais de força, o que me fez dar um pulinho no banco.

- Quem foi o idiota que botou esse babaca nesse cargo? Eu vou arrancar o pescoço dele - vociferou Simon batendo no volante, e quando viu que eu automaticamente me encolhi no banco, ele respirou fundo - desculpe Jess, eu fiquei extremamente irritado com esse idiota, quem ele pensa que é pra te chamar daquelas coisas?

Dei um suspiro e mexi os ombros, como se dissesse "não sei"

- Vem, preciso te levar para um lugar.

Acenei com a cabeça enquanto repassava a conversa novamente, ele além de ter me humilhado, ainda havia me despedido? O que eu faria? Como me manteria?

Eu ia divagando pelos caminhos mais escuros que a minha mente entendia, quando Simon me chamou, aparentemente não ela primeira vez.

Hei, está me ouvindo? Acenei que sim com a cabeça.

Chegamos - disse ele saindo do carro e abrindo a minha porta.

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