Chegando à ante-sala da presidência,
uma mesa vazia a esperava, ao lado da
porta de vidro fosco com o nome ALEX
Santiago – PRESIDENTE.
Em cima da mesa havia um porta-retrato sem foto, um telefone preto e um caderno de
couro ainda fechado.
— É seu agora — disse a assistente de RH,
entregando-lhe uma chave e um crachá com
o novo cargo.
— Qualquer coisa, me chama.
Thaís agradeceu e entrou. O ambiente era
bem maior que o dela antes: janela do piso
ao teto, vista da cidade, e o ar cheirando a
madeira e café fresco.
Alex estava de costas, observando a rua.
—Bem vinda. — ele disse sem virar.
— A agenda de hoje está tranquila, mas às 15h
tenho reunião com o diretor financeiro.
Quero que você esteja lá, só para ouvir.
Ela colocou a caixa na mesa e respondeu:
— Pode deixar, Sr. Presidente.
Alex virou-se, analisou a postura dela e, num
impulso, acrescentou:
— Pode me chamar de Alex quando
estivermos a sós.
Pausa.
_ Você pode ser é minha secretária.
Ele continuou.
_ Mas eu ainda sou o homem que te tirou daquele cara na festa.
Thaís sentiu o calor subir às bochechas.
Antes que pudesse responder, o telefone
tocou.
— Presidência Grupo Santiago, secretária Thaís falando.
Era a recepção:
— A srt. Isabela está aqui. Diz que tem uma “urgência” para tratar com o Presidente.
Thais passou o recado. Alex advertiu:
— Diga que estou em reunião. E Thaís…
Ele se aproximou um passo.
— A partir de hoje, ninguém entra aqui sem a
sua aprovação. Entendeu?
Ela engoliu em seco e assentiu.
— Entendi, Alex.
Quando desligou, Alex sorriu de canto.
— Você vai se dar bem aqui. Só não deixa
Isabela te abalar.
Thaís respirou fundo, sentou em sua nova
mesa.
O primeiro dia como nova secretária do presidente começava, e ela já sabia que não
seria apenas trabalho.
Seria um teste de nervos, orgulho e, talvez, de sentimentos que ela não estava preparada para sentir.
Mal tinha se acomodado, Thaís ouviu passos
apressados e a porta da ante-sala se abriu
sem bater.
— Alex, preciso falar com você agora...
Isabela entrou como se o espaço fosse dela,
o salto ecoando no piso de mármore.
Parou quando viu Thaís sentada à mesa de
secretária, organizando a agenda.
O sorriso dela morreu.
— Ah… então é verdade. Você não foi
demitida, foi promovida. Que piada.
Thaís respirou fundo. O primeiro impulso foi
abaixar a cabeça.
Mas lembrou do que Alex disse:
“eu sei se você é qualificada”.
Ele se endireitou.
— Sra. Isabela — disse, a voz firme, sem levantar o tom — eu entendo que a senhora esteja surpresa. Mas a partir de hoje eu sou a nova secretária do presidente. Se a senhora quiser falar com ele, precisa agendar comigo antes.
Isabela riu, um som curto e ácido.
— Agendar com você? Você mal sabe onde
fica o café, querida. Eu trabalho aqui há
cinco anos, conheço o Alex, e…
— A senhora conhece o Sr. Alex no ambiente
social — Thaís interrompeu, mantendo o
olhar —, eu o conheço agora no ambiente
profissional.
Continuou sem elevar o tom:
_ E as regras são claras: sem horário marcado, sem entrada.
O rosto de Isabela ficou vermelho.
— Você está se achando, é? Acha que ele te
deu esse cargo por competência? Ele só fez
isso por caridade, não se iluda.
Thaís sentiu o peito apertar, mas não baixou
os olhos:
— Não estou me achando.
Pausa.
_ Estou trabalhando. Se a senhora tem algo importante, eu posso anotar. Mas, se não...
peço que respeite o horário meu chefe.
Por um segundo, Isabela ficou sem resposta. Ela estava acostumada que as pessoas recuassem, que se desculpassem, que lhe dessem passagem.
Diante da calma de Thaís. A arma dela. que era
O escândalo. Perdeu a ponta.
— Você vai se arrepender de me tratar assim
— sibilou, já sem o tom de deboche.
— Eu vou me arrepender se deixar que alguém desrespeite a função que me foi confiada.
Thaís respondeu, e por um instante a própria voz a surpreendeu. Mas não parou. Continuou:
— O Sr. Alex confiou em mim. Eu não vou decepcioná-lo. Isabela a encarou mais alguns segundos, mediu a sala, a mesa nova, o crachá no pescoço de Thaís. Bufou, virou-se e saiu batendo a porta.