Mundo de ficçãoIniciar sessãoEu não tinha conseguido dormir. A cada vez que fechava os olhos, via Alejandro na minha porta, ouvia sua proposta absurda… e sentia meu coração disparar de novo. Acordei várias vezes durante a noite, sempre com aquela sensação de que minha vida tinha saído completamente dos trilhos.
Mesmo assim, forcei-me a seguir a rotina. Tomei banho, vesti o jaleco, prendi o cabelo em um rabo de cavalo apressado e caminhei até o laboratório, como fazia todos os dias. Passo após passo, tentando convencer meu cérebro de que tudo estava normal.
Mas não estava.
Assim que entrei, fui direto para a sala do café. Precisava de cafeína para sobreviver ao caos interno.
Não tive nem tempo de dar o primeiro gole.
Meu chefe, Luiz Gómez, surgiu na porta como uma tempestade mal-humorada.
— Laura Pérez. — chamou com aquela voz seca, impaciente. — Vamos conversar no meu escritório. Agora.
A sala inteira ficou em silêncio.
Meus colegas trocaram olhares — aqueles olhares. De quem já sabia. De quem estava esperando. Meu estômago gelou.
Segui Luiz até o escritório com passos pesados, tentando não imaginar o pior. Assim que sentei na cadeira em frente a ele, percebi: não havia suavidade no olhar, nem espaço para diálogo.
Ele respirou fundo, entrelaçando as mãos sobre a mesa.
— Laura, vou ser direto. — A voz dele era dura, cortante. — Você está dispensada da Cortexa BioLabs.
Meu coração deu um salto seco dentro do peito.
— O quê? — sussurrei, sem acreditar no que ouvia.
— Recebemos informações muito graves sobre você. — continuou ele, impassível. — Seu envolvimento com a CruzPharma Scientific… tornou sua permanência aqui impossível.
Senti o chão sumir sob meus pés.
— Luiz, isso não faz sentido. Eu não fiz nada.
Ele ergueu a mão, me cortando sem piedade.
— O que nos trouxeram, Laura… é que você vazou informações internas para a CruzPharma. Dados sensíveis. Protocolos. Documentos.
Eu fiquei imóvel.
Presa.
O ar sumiu dos meus pulmões.
— Isso é mentira. — consegui dizer, mas minha voz saiu fraca, trêmula. — Eu jamais faria isso.
Luiz apenas apertou os lábios, como se já tivesse me julgado, condenado e enterrado.
Eu olhei para Luiz completamente indignada. Aquilo era tão absurdo que nem parecia real.
— Senhor, isso não aconteceu. — respondi, respirando entrecortado. — Essa informação está completamente equivocada.
Ele nem piscou.
— Laura, você sabe que a CruzPharma Scientific é nossa maior concorrente. — disse com frieza cirúrgica. — Ontem, uma pessoa de lá veio atrás de você. E, além disso, sabemos que sua prima trabalha lá. Não há condições de você continuar conosco. Fica feio para a empresa.
A forma como ele falou… como se eu fosse uma ameaça, uma traidora… me feriu mais fundo do que eu esperava. E, naquele instante, percebi: não havia diálogo possível. Ele já tinha decidido muito antes de eu entrar naquela sala.
O sangue sumiu do meu rosto.A forma como ele falou… como se eu fosse uma ameaça, uma traidora… me feriu mais fundo do que eu esperava. E, naquele instante, percebi: não havia diálogo possível. Ele já tinha decidido muito antes de eu entrar naquela sala.
— A decisão já está tomada. — afirmou, frio. — Recolha suas coisas. Entregue seu crachá.
— Ele desviou o olhar, como se eu fosse um peso incômodo. — Boa sorte, Laura.Boa sorte.
Senti os olhos arderem, mas respirei fundo, tentando não desmoronar ali, diante dele.
Levantei-me devagar, como se meu corpo estivesse em outro lugar. Cada passo doeu.
Causei a mim mesma uma pergunta que ecoava, amarga:
Isso é culpa dele? De Alejandro
Meus pensamentos vagavam
Carlos ter vindo atrás de mim no laboratório… aquela visita indesejada…
E depois os jornais, as revistas, as fofocas… Tudo isso me queimou. Me destruiu sem que eu tivesse feito absolutamente nada.Eu ajudei minha prima, sim. Mas nunca usei nada da Cortexa BioLabs. E o que trabalhamos juntas era totalmente diferente da pesquisa que eu desenvolvia aqui! Não tem relação nenhuma!
Eu e minha prima sempre fomos unidas… fizemos faculdade juntas…só não conseguimos trabalhar na mesma empresa porque eu não passei no teste final da CruzPharma. Minha mãe tinha sido internada com um problema no coração naquele dia. Eu faltei. Cristina passou com mérito. Eu não, porque não consegui ir.
E de repente a realidade caiu sobre mim como um peso esmagador.
E minha mãe depende de mim financeiramente. Eu pago o aluguel… sustento a casa… sou filha única. Como vou fazer agora? Desempregada? Sem aviso? Sem nada?
E no fundo do meu peito, como uma ferida aberta, veio o pensamento que eu tentava ignorar desde a noite anterior:
Aceitar a proposta de Alejandro.
A dor me atravessa por dentro.
Eu não planejava isso.
Nunca imaginei que minha vida iria para esse caminho. O casamento que eu sonhei não era comprado. Nem um contrato muito menos uma fachada.E pior:
Minha mãe não suportaria saber disso.
Ela acredita no amor. Ela acredita que casamento é escolher o coração de alguém e ser escolhida de volta… não ser paga para fingir.Engoli seco, tentando conter a vontade de chorar ali mesmo, na frente de todo mundo.
Peguei minhas coisas com as mãos trêmulas, tentando não deixar nada cair — a dignidade já estava por um fio.Quando saí do escritório, o corredor inteiro pareceu parar.
Meus colegas…
As pessoas com quem eu tomava café todos os dias, com quem dividia risadas, frustrações, conquistas… Agora me olhavam como se eu fosse um vírus, um perigo, uma traidora.Aqueles olhares de julgamento me atravessaram como facas.
Senti o rosto arder de vergonha.
E, para piorar, Luiz fez sinal para um segurança me acompanhar até a saída.
Um segurança.
Como se eu fosse capaz de roubar algo, ou de causar algum problema.
Me senti horrível.
Humilhada. Pequena.O barulho dos meus passos ecoando pelo corredor parecia o anúncio da minha própria queda.
Cada porta que deixava para trás…
Cada olhar que desviava… Cada cochicho abafado… Era como se o chão quisesse me engolir.Atravessar o laboratório — o lugar onde eu sonhei crescer, construir carreira, fazer a diferença — agora doía como uma despedida cruel.
Quando o segurança abriu a porta para mim, senti meu coração despencar no estômago.
Eu respirei fundo.
E, ainda assim… me senti expulsa do mundo.
Expulsa da minha própria vida.
Lá fora, o ar frio bateu no meu rosto e eu finalmente deixei o desespero me alcançar.
E a pergunta que queimava na minha alma era:
O que vou fazer agora?
Fui caminhando para casa devagar, como se cada passo pesasse uma tonelada. A cabeça latejava, e a vergonha ainda queimava na pele.







