Mundo ficciónIniciar sesiónPOV: ADRIAN CAVALLIERI
Quando terminei de me arrumar diante do espelho de cristal do meu closet, os ponteiros do relógio marcavam exatamente 22h. Era a hora em que a magia negra começava a ganhar forma. Deixei para trás o pai e o CEO; agora, eu era apenas a vontade de poder. Desci pelo elevador privativo até a garagem subterrânea, onde o ar era frio e cheirava a pneus e concreto, e entrei no meu carro blindado.
— O Escritório, senhor? — o motorista perguntou, mantendo os olhos fixos no retrovisor, sem ousar qualquer intimidade.
— O Clube. — Minha voz saiu seca, definitiva.
Cruzamos Porto Alegre sob o manto da noite. As luzes da Arena do Grêmio brilhavam intensamente ao longe, como um farol para as massas, mas meu destino estava escondido nas entranhas, nas sombras do gigante de concreto. O carro entrou silenciosamente no estacionamento VIP de um shopping de luxo nas redondezas. Ali, descemos por rampas que não constavam em nenhuma planta oficial entregue à prefeitura.
Nível -3. O lugar onde o sinal de celular morria de vez e os segredos mais obscuros da elite nasciam.
Peguei minha máscara veneziana preta, de design minimalista e fosco, que cobria estrategicamente apenas os meus olhos. A gargantilha que a acompanhava escondia o modulador de voz embutido — uma peça de tecnologia de ponta desenvolvida nos laboratórios secretos da TechGlobal. Ali, naquele território sem lei moral, eu não era Adrian Cavallieri.
Eu era o Imperador.
Passei pela segurança biométrica e a porta de aço maciço se abriu, revelando um mundo banhado em veludo vermelho, detalhes em dourado fosco e o aroma inconfundível que definia o Ambrosia: perfume francês caro, couro novo e a eletricidade da excitação reprimida. O jazz arrastado preenchia o ambiente, em um volume calculado: baixo o suficiente para não abafar os gemidos que escapavam das cabines privadas, mas alto o suficiente para ditar o ritmo sinuoso dos corpos que circulavam.
Atravessei o salão principal com passos medidos. Sofás carmesim criavam ilhas de privacidade absoluta onde homens poderosos, cujas assinaturas moviam bilhões, conversavam ao pé do ouvido com mulheres deslumbrantes. Todos usavam máscaras. Na entrada, a placa de bronze exibia as três regras inquebráveis, um lembrete constante de que o erro ali custava caro.
Subi ao mezanino, minha área VIP exclusiva, e me apoiei no parapeito de ferro trabalhado para observar o meu reino lá embaixo. No centro do salão, uma performance de shibari prendia a atenção de todos — uma das melhores amarradoras da casa estava suspensa em cordas de seda vermelha, formando uma geometria humana de dor e beleza.
— A casa está cheia hoje, Imperador.
Virei-me devagar. Eleonora estava parada na entrada da minha cabine privada. A Gata. O nome lhe caía como uma luva de seda. Ela se movia com a graça predadora e silenciosa de um felino de caça. O cabelo vermelho artificial, vibrante sob as luzes baixas, escorria pelos ombros nus. Ela vestia um macacão de látex preto que parecia ter sido pintado sobre sua pele, destacando a cintura fina e os seios fartos de forma agressiva. A máscara tinha o formato de olhos de gato, afiados e carregados de uma malícia que ela nunca tentava esconder.
— O faturamento deve estar agradável, então — respondi, minha voz saindo metálica, fria e irreconhecível pelo modulador.
Ela se aproximou com audácia, a unha longa e pintada de preto traçando uma linha lenta pelo tecido do meu paletó, do ombro até o peito.
— Senti sua falta na semana passada. O Subsolo ficou... terrivelmente quieto sem você. As correntes sentiram saudade do seu toque.
Eleonora tinha sido minha amante por um tempo, um experimento que encerrei assim que percebi que ela cometia o erro fatal de confundir submissão com possessividade emocional. Hoje, ela era apenas minha gerente: eficiente, disciplinada e perigosa o suficiente para manter os lobos na linha.
— Estive ocupado construindo o mundo real, Eleonora — respondi, afastando o braço dela com um gesto sutil, mas que não permitia réplicas.
Ela sorriu, mas o brilho nos olhos por trás da máscara de gata era de puro gelo.
— Você precisa relaxar, Imperador. Tenho uma novata na Sala 3. Disseram que ela tem um limite alto, que aguenta a dor com uma elegância rara. Posso mandá-la se preparar para você agora mesmo. Sem calda, exatamente do jeito que você gosta.
Havia um escárnio velado em seu tom de voz. Eleonora odiava o fato de eu não transar com as funcionárias, de eu não me permitir a "finalização" carnal que ela tanto desejava. O sexo mecânico, puramente biológico, tinha se tornado vazio e desprezível para mim. Qualquer animal faz isso no cio. Eu buscava algo superior. Eu buscava o controle absoluto da mente, o momento exato em que o medo se transformava em devoção cega. Adorava levar as mulheres ao limite do colapso, fazê-las implorar por algo que eu tinha o poder de negar. Eu saía daquelas sessões saciado pelo poder, nunca pelo orgasmo. Meu corpo era uma fortaleza que poucas delas tinham a honra ou o mérito de invadir.
— Não hoje, Gata. Vim apenas verificar os números e garantir que ninguém está quebrando as regras de conduta.
— Você é um desperdício, Imperador — ela disse, ajeitando o decote com uma frustração mal disfarçada. — Um homem com essas mãos, com esse comando...
— Minhas mãos são para destruir e reconstruir impérios, Eleonora. Não para brincar com bonecas que quebram fácil demais.
Antes de sair da cabine, meus olhos captaram um movimento familiar no andar de baixo. Emanuelle, que no clube atendia pelo codinome de Açaí, olhou em minha direção. Por um breve segundo, seus olhos brilharam com o desejo de subir e tentar me convencer a mudar de ideia. Quando ela percebeu minha total indiferença, desviou o rosto rapidamente. Vi quando ela desceu ao Subsolo de braços dados com o prefeito da cidade, pronta para servir o paladar de quem se contentava com pouco.
Olhei o salão uma última vez antes de me retirar. Tudo estava impecável. O luxo, a luxúria, o segredo. Mas, por algum motivo que eu não conseguia identificar, naquela noite... tudo me pareceu cinza. O brilho do ouro era fosco, o perfume era enjoativo.
Não consegui dormir. Quando cheguei em casa, já passava das 01h da manhã, e o silêncio da mansão parecia gritar. As noites eram sempre as mesmas: pesadelos fragmentados, insônia e o ronco abafado dos meus demônios internos se revirando no escuro. Levantei-me muito antes do despertador tocar. Seis da manhã em ponto. A mente já estava mergulhada em fusões, contratos bilionários e na incompetência crônica da minha equipe de tecnologia na Ásia. O Imperador nunca descansava, porque o mundo nunca parava de tentar derrubar o seu trono.







