A víbora

POV de Mariana

Eu não tava espiando. Espiar é coisa de gente baixa, de criada, de gente como a Gabriela. Eu tava era me informando. Tem diferença. Quem tem poder não espia. Observa. Planeja. Ataca na hora certa.

Encostada na porta entreaberta da sala do Alexandre, ouvi tudinho. Cada palavra. Cada pausa. Aquele suspiro idiota que ele dá quando tá nervoso.

"Quase fomos pra cama."

A voz dele era um sussurro. Pra mim, pareceu um trovão.

Aquela barata beijou o meu noivo. Quase levou ele pro quarto. E ele, o homem que vai me fazer a mulher mais poderosa desse país, tava ali, na frente dela, com cara de cachorro arrependido. Ela rejeitou ele. E ele aceitou. Aceitou!

Minhas unhas cravaram na palma da mão. A pele abriu. O sangue quente escorreu entre os dedos. A dor foi boa. Dor me acalma.

Recuei sem fazer barulho. Entrei na minha sala. Fechei a porta. Respirei fundo. Duas vezes. Três.

Ela ainda mexe com ele. Depois de tudo. Depois do anúncio. Depois do noivado. Depois de eu ter transformado ela numa secretária de merda que limpa café do chão. Ela ainda tem poder sobre ele.

Mas não por muito tempo.

Peguei o celular. Disquei o número de cor. Nem precisei olhar. Eu nunca esqueço contato útil.

"Atende, seu incompetente."

"Senhorita Antunes." A voz do outro lado era grossa, arrastada. Um homem que já fez coisa bem pior do que eu vou pedir. "Que prazer."

"Corta o prazer. Preciso de um favor."

"O de sempre?"

"Não. Mais delicado." Coloquei os pés em cima da mesa. As unhas vermelhas brilhando na luz. "Descobre tudo sobre a família da Gabriela. Tudo. Pais, mãe, avós, o cachorro, o gato, o que for. Principalmente a mãe. Aquela costureira de meia-tigela."

"O que a senhorita quer saber?"

"Tudo que puder ser usado contra ela. Dívida, vício, amante, podre antigo. Toda família tem esqueleto no armário. Acha o dela."

Silêncio do outro lado. "E o que a senhorita vai fazer com isso?"

"Por enquanto, nada." Sorri, olhando pro meu reflexo na janela. "Mas quero ter as cartas na mão. E acredita... a hora de jogar tá quase chegando."

"Vai sair caro."

"Eu não perguntei o preço."

Desliguei. Fechei os olhos. Respirei fundo.

E depois chamei a Gabriela.

Ela entrou do mesmo jeito de sempre. Ombro caído. Olheira funda. Cabelo mal preso. Blusa amarrotada. Sapato gasto. O retrato da mediocridade. Dava até raiva de olhar. Como é que uma mulher assim conseguiu o que eu quero? O Alexandre. A posição. O respeito. Ela teve tudo na mão por três anos e fez o quê? Nada. Serviu de capacho. De "parceira estratégica". Que nome ridículo.

"Fecha a porta."

Fechou. Pelo menos isso ela ainda faz direito.

Me aproximei devagar. Meu salto ecoando no mármore. Olhos grudados nos dela. Ela não desviou. Ainda tinha orgulho. Ainda achava que valia alguma coisa.

Isso ia mudar.

"Você acha que é esperta, né?"

"O que você quer, Mariana?"

Minha mão voou. O tapa estalou na cara dela. A cabeça virou com o impacto. Minha palma ficou ardendo.

Que delícia.

"Sua vadia." Minha voz saiu baixinha. Doce. Venenosa. "Não basta ser um lixo. Ainda quer roubar o que é meu?"

"Eu não roubei nada."

"Roubou sim." Dei outro passo. Ela recuou. "Beijou o meu noivo. Quase levou ele pra cama. O meu noivo. O homem que eu vou casar. E achou que eu não ia descobrir? Achou que eu sou igual você? Burra? Inocente? Uma coitada que engole tudo?"

"Quem te contou isso?"

"Eu sei de tudo, querida. Eu sempre sei de tudo."

Empurrei ela com as duas mãos. Ela cambaleou, o sapato barato escorregando no chão, e caiu. As palmas das mãos bateram no mármore. O som foi surdo, mas pra mim foi música.

"Limpa meus sapatos."

Ela não se mexeu.

"Limpa. É pra isso que você serve. Pra limpar a sujeira que eu não quero nas minhas mãos. Pra isso e pra perder. Você é muito boa em perder, né?"

Ela levantou devagar. Os olhos castanhos grudados nos meus. A marca vermelha na bochecha. A respiração ofegante.

"Eu não mereço ser tratada assim."

Eu ri. Não deu pra segurar. Soltei uma gargalhada curta, seca.

"Não merece? Não merece?" Inclinei a cabeça, o sorriso abrindo. "Você não merece nada. Você não é nada. Sua família não é nada. Sua mãe é uma costureira que remenda calça. Seu pai é motorista. Você cresceu num bairro de merda, com roupa usada e sonho pequeno. Eu sou herdeira da segunda família mais poderosa desse país. Comparada comigo, você é um grão de areia. Um inseto. Um lixo."

Ela tremia. As mãos fechadas. Os dentes apertados. O ódio escorrendo pelos olhos. Tão previsível. Tão fácil de manipular.

E aí eu vi a sombra atrás do vidro.

Alexandre.

O coração acelerou. Não de medo. De prazer. O palco tava montado. A plateia chegou. Hora do show.

Aumentei a voz. "Se você se meter no meu caminho, Gabriela, eu vou te destruir. E não só você. Vou destruir sua família também. Principalmente aquela costureira de meia-tigela que você chama de mãe."

"Não se mete com a minha mãe!"

A mão dela voou. Estalou na minha cara. Minha cabeça virou. Meu corpo caiu. O mármore frio nas minhas costas.

Senti gosto de sangue na boca.

E sorri.

A porta abriu.

"O que tá acontecendo aqui?"

Alexandre.

Me levantei devagar, a mão no rosto, as lágrimas brotando como mágica.

"Por que você fez isso?" Minha voz saiu um fio. "Eu só pedi ajuda com os relatórios. Só isso. E você me bateu."

"Ela ameaçou minha mãe!", gritou a Gabriela.

Virei pro Alexandre, os olhos arregalados de inocência. "Alex, você me conhece. Você sabe que eu nunca faria isso. Eu não sou essa pessoa. Eu nunca machucaria ninguém."

Caminhei até ele e agarrei o braço dele, o corpo tremendo.

"Perdoa ela. Por favor. Deve ser difícil aceitar que perdeu o cargo. Desculpa, Gabriela. Desculpa por te fazer sentir assim."

"Alex, eu não..."

"Sai daqui."

A voz dele cortou o ar.

"Alexandre..."

"Sai. Daqui. Agora."

A Gabriela ficou parada. Olhos cheios d'água. Boca aberta. O coração partido na cara. E eu vi. Vi a hora exata que a esperança morreu dentro dela.

Ela saiu. A porta fechou.

Alexandre suspirou. Passou a mão no cabelo. "Mariana, me desculpa. Ela não era assim. Eu não sei o que tá acontecendo."

"Ela precisa de ajuda", murmurei, me aninhando no peito dele.

"Eu sei."

"Eu só queria que ela me aceitasse."

"Eu sei, meu amor. Eu sei."

Ele beijou o topo da minha cabeça.

Fechei os olhos. E contra o peito dele, onde ninguém podia ver, eu sorri.

Vitória.

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